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Quando Alguém Diz: Lord, Take Care of Me

Escritor Magno Ribeiro reflete sobre o poder oculto nas letras de uma canção e o gesto humano de pedir cuidado

30 jan 2026 - 21h46
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Nesta crônica sensível e profunda, o escritor Magno Ribeiro reflete sobre o poder oculto nas letras de uma canção e o gesto humano de pedir cuidado. Inspirado por "How Can I Go On", de Freddie Mercury e Montserrat Caballé, o texto nos convida a escutar a dor por trás das palavras, reconhecer a força da esperança e sermos presença acolhedora na vida dos que, mesmo em silêncio, suplicam: "Senhor, cuide de mim."

Muitas vezes as músicas nos marcam

Nos seguem pelos corredores da memória, nos tocam como mãos invisíveis. Mas quase nunca paramos para escutar o que elas realmente dizem, quais emoções carregam no silêncio entre duas notas, quais cicatrizes traduzem em versos, quais paixões, decepções e esperanças se escondem nas palavras que repetimos sem perceber seu peso. Há canções que só nos tocam quando ousamos ouvi las por dentro.

Foi assim que madrugadas dessas parei diante de "How Can I Go On", interpretada por Freddie Mercury e Montserrat Caballé.

As perguntas iniciais que ecoam na canção, How can I go on? Is anybody there to believe in me? To hear my plea and take care of me? (Como posso continuar? Há alguém aí para acreditar em mim? Para ouvir meu apelo e cuidar de mim?); todas juntas formam um mosaico de dor que nos pede pausa e escuta.

E, embora essa letra não fale de mim, essa dupla que me habita, a poesia e a imaginação, quis praticar a empatia, tentando sentir, ainda que de longe, o que vive alguém que carrega um sofrimento assim: a solidão de quem perdeu o que segurava seus passos, a ausência de um colo para descansar a exaustão, a pergunta insistente sobre onde repousar o coração num mundo que tantas vezes parece áspero demais.

Não sei qual foi o ponto exato que ancorou a composição, se a dor, se a esperança, se ambos em diálogo secreto. Mas eu parei justamente onde a esperança se insinua, lá onde o pedido se transforma em chama tímida, pequena, mas resistente. Porque é nessa fresta que algo se levanta dentro de nós, a certeza de que seguir adiante é possível quando há, mesmo que distante, um vestígio de cuidado.

Foto: Mais Novela

"Lord, take care of me."

(Senhor, cuide de mim.)

Para mim, é aqui que repousa o gesto mais profundamente humano dessa canção: alguém que, mesmo ferido, ainda não perdeu a coragem de pedir cuidado. E pedir cuidado é uma forma de fé, não apenas na divindade que nos escuta em silêncio, mas na possibilidade de que alguém, aqui e agora, possa ser canal desse cuidado.

Ainda que o Lord represente nossa carência do sagrado, do amor absoluto, é muitas vezes por meio de um de nós que Deus se revela ao outro. É no gesto que acolhe, no ouvido que escuta sem julgar, na presença que permanece quando o mundo se afasta, que a graça toma forma humana.

Sim, a dor existe, e ela foi cantada com uma verdade que atravessa décadas.

Mas a esperança também está lá, não como certeza, mas como procura.

Como quem diz: "eu continuo porque ainda desejo ser ouvido, e ser visto, e ser cuidado."

E não há poesia maior do que essa insistência em seguir na direção do afeto.

E é neste ponto, onde a dor encontra a esperança e se inclina à possibilidade de ser acolhida, que a canção se resume para mim.

Porque a esperança não apaga a dor, ela a suaviza, a torna respirável, habitável, e nos lembra que nenhuma noite é eterna quando se deseja amanhecer.

Que a música, essa linguagem secreta entre corações, não apenas nos revele,

mas também nos torne sensíveis às pessoas que vivem o que a letra canta,

mesmo quando não percebemos que elas estão ali, ao nosso lado, a um passo de distância, precisando apenas que alguém as ouça com presença verdadeira.

Convido você, que me lê agora, a ouvir essa canção mais uma vez, mas com outro olhar. Não apenas como quem admira sua beleza, mas como quem se permite reconhecer a dor que ela carrega, e se abre para escutar, com coragem e compaixão,

quando alguém próximo, mesmo em silêncio, disser o mesmo: "Lord, take care of me."

Porque às vezes, até quem parece forte carrega esse pedido calado.

Mesmo quem não vive, literalmente, o que a canção revela, também precisa, em algum nível, desse cuidado que vem do alto, mas se revela através de nós.

E que, após a última nota, não cesse também a escuta.

Que algo fique em nós um eco suave, uma lembrança viva,

do quanto é humano e necessário saber pedir cuidado...

e do quanto é divino ser capaz de oferecê-lo.

Que sejamos, então, resposta possível.

Presença sensível.

Mão estendida.

Para que ninguém precise caminhar sozinho quando ousar dizer:

Senhor, cuide de mim.

Mais Novela
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