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Punk na igreja: a aliança inusitada na Alemanha Oriental

26 abr 2026 - 11h51
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Subcultura imortalizada pelo Sex Pistols atravessou Cortina de Ferro clandestinamente e realizou o primeiro festival em 1983 em uma igreja na antiga Alemanha comunista. Templos eram usados para driblar censura do regime.Os cinco jovens de cabelos penteados e roupas discretas não chamaram atenção dos passageiros no trem que fazia a travessia de Berlim Ocidental para a Oriental. Com um visto de 24 horas concedido pelas autoridades do lado socialista, pareciam bem-comportados no caminho até a Igreja Protestante do Redentor, na capital da República Democrática da Alemanha (RDA), onde um cartaz pregado na porta informava: "Evento religioso com acompanhamento musical".

Lá dentro, os integrantes da banda Die Toten Hosen, de Düsseldorf, na Alemanha Ocidental, eram aguardados por duas dezenas de outros jovens que estavam na viseira da Stasi, a polícia secreta do regime comunista da RDA. Mas ali, em março de 1983, numa igreja luterana, isso não importava.

Trajando couro, jeans rasgados, correntes e moicanos, eles testemunhavam a primeira apresentação de uma banda punk da Alemanha Ocidental no lado oriental da Cortina de Ferro. Os Toten Hosen deixaram o disfarce de rapazes comuns de lado e empunharam os instrumentos. Assim como os equipamentos de som, guitarras, baixo e bateria eram fornecidos pelo Planlos, grupo local que dividiu a matinê.

O grupo de Düsseldorf, ativo até hoje, se tornaria uma das principais bandas de punk rock da Alemanha e voltaria a atravessar a Cortina de Ferro em outras oportunidades, recebendo autorização inclusive para um show do lado socialista, em 1989. Já o Planlos sucumbiria em poucos anos à pressão do Ministério de Segurança da Alemanha Oriental, que espionava, interrogava e impedia bandas como eles de se apresentarem nos espaços oficiais da capital da RDA. Mas esse não era o caso das igrejas.

Toleradas pelo governo socialista - apesar da máxima de "ópio do povo" pregada pela linha marxista-leninista seguida pelo Partido -, as igrejas eram os poucos espaços livres que podiam receber apresentações musicais, desde que dentro do contexto religioso e às vezes até mesmo depois das missas. Assim, não passavam pelo crivo dos burocratas do regime. Se tornaram, dessa maneira, locais para encontros de dissidentes e críticos, já que também não podiam ser invadidas pelos membros da Stasi ou da Volkspolizei, a polícia ostensiva do regime.

Os punks, por outro lado, eram considerados pelo governo uma "degeneração capitalista", um reflexo do "imperialismo cultural do ocidente" e inimigos ideológicos, ou seja, não tinham autorização para se apresentar em boates, casas de show, praças ou escolas. Além disso, passavam constantemente por interrogatórios, apreensões, buscas e investigações pela Stasi. Nada muito distinto do que acontecia do outro lado da Cortina de Ferro.

A inusitada aliança entre religião e o movimento punk, inimaginável em outros países, virou lugar-comum na Alemanha Oriental durante os últimos anos do Muro de Berlim.

Na viseira da Stasi

No início dos anos 1980, o movimento catapultado por Sex Pistols e Ramones já tomara a Europa após eclodir, na década anterior, nos subúrbios industriais ingleses e nos Estados Unidos. Desemprego, falta de perspectivas e revolta com as políticas neoliberais da primeira-ministra Margaret Thatcher incendiavam a revolta estética e comportamental de uma juventude "sem futuro".

O punk correu a Europa, entrou na Alemanha pelo lado capitalista. Atravessou o Muro de Berlim em discos e revistas contrabandeados e pelas rádios que captavam as proibidas emissoras ocidentais. Em pouco tempo, esse novo estilo de vida somava algumas dezenas de discípulos no lado socialista da Alemanha dividida.

Ali, no entanto, o foco teve de ser ajustado. Em vez da falta de futuro no capitalismo selvagem, a insatisfação assumiu como slogan o "Too Much Future" (Futuro em excesso, em tradução livre), aludindo à rigidez do país, que restringia a individualidade a um percurso definido desde o berço — trabalho, estudo, serviço militar e fidelidade incondicional ao Partido Socialista Unificado.

"Vimos lá que os punks da Alemanha Oriental se arriscavam bem mais e viviam com muito mais dificuldade que a gente", contou Campino, vocalista dos Toten Hosen, em 2022, numa entrevista ao site t-online. O histórico show em Berlim Oriental também foi retratado no documentário Auswärtsspiel (2022), transmitido na televisão aberta alemã.

O visual agressivo dos punks ia contra tudo que o governo da RDA pregava. Os jovens deveriam vestir o uniforme azul da Freie Deutsche Jugend (FdJ), braço jovem do Partido Socialista Unificado, e tinham que se manter na linha. A alta cúpula do Ministério da Segurança, que controlava a Stasi, já tinha atuado fortemente para reprimir o movimento hippie e ligado ao rock 'n roll dos anos anteriores, inclusive proibindo Beatles e Rolling Stones no país.

Mas o movimento se espalhava para além de Berlim Oriental. Em 1983, mesmo ano do show dos Toten Hosen, a cidade de Halle recebeu o primeiro festival punk da RDA, realizado na Christuskirche, com ajuda do pastor local, Siegfried "Siggi" Neher, mais tarde conhecido como "pastor punk" por ceder a igreja para realização de festivais de música e concertos, apesar da repressão da Stasi.

A "agitação" causada pelo anarquismo dos punks levou o chefe da Stasi, o todo-poderoso Erich Mielke, a ordenar, em 1983, um cerco ao movimento pelas autoridades. Foi quando a perseguição aos punks pela RDA chegou ao ponto máximo.

Faça-você-mesmo

Existindo fora do sistema de poder do Partido Socialista Unificado, a igreja evangélica buscava sobreviver adotando uma postura de coexistência crítica, sintetizada na fórmula "igreja no socialismo, não contra o socialismo". Na prática, significava abrir espaço para debates sobre paz, direitos humanos, serviço militar, meio ambiente e liberdade individual, impossíveis em outros lugares da esfera pública oficial.

Para os músicos amadores - ou diletantes - era um dos últimos redutos, já que, para se conseguir autorizações para shows, era preciso ser avaliado por uma comissão de especialistas indicados pelo Partido, que levavam em conta tanto a qualidade técnica quanto a adequação das composições às diretrizes filosóficas do governo socialista. Ou seja, para os jovens do faça-você-mesmo, as chances eram improváveis ou nulas.

Para eles, lançar álbuns também era quase impossível, pois o governo controlava as duas gravadoras oficiais na Alemanha Oriental: a AMIGA, que tinha o monopólio da música popular; e a ETERNA, de música clássica e sinfônica. Sobrava, então, o método artesanal. Gravadores de fita cassete já existiam e, não raramente, eram trazidos do outro lado do Muro por alguém clandestinamente - para onde voltavam, também clandestinamente, para serem apreciados pelos colegas da Alemanha Ocidental.

E não foram poucas as bandas a resistir no Leste até a queda do Muro, em 1989. De acordo com dados da Stasi, havia cerca de 900 punks na RDA por volta de 1985. Só na coletânea Too Much Future, de 2020, foram compiladas 48 músicas de 38 bandas do punk rock do Leste alemão, lançadas entre 1980 e 1989.

"Essa subcultura, marginalizada também no Ocidente, exercia um grande fascínio sobre os jovens da RDA. Inicialmente, eles ficaram fascinados pelo punk inconformista, que causava polêmica e lhes dava a oportunidade de se distanciar do sistema", explicou Ulrike Rothe, curadora da exposição Punk in der Kirche (Punk na Igreja), exibida no museu Humboldt Forum, em Berlim.

A partir de 1985, no entanto, o estilo já havia sido assimilado pelo público jovem. As autoridades afrouxaram o cerco ao punk e o estilo chegou à rádio estatal pelas mãos do disc-jóquei Lutz Schramm. A própria FdJ também abraçou o movimento, o que levou a uma rejeição pelos pioneiros da subcultura, que viam nisso uma tentativa de "integrar" o movimento às linhas do Partido. Em 1988, até a gravadora AMIGA se curvou, lançando o LP Die anderen Bands, uma compilação com quatro bandas.

Mas havia pouco tempo sobrando. Um ano mais tarde, o Muro de Berlim caía - e a Alemanha Oriental e seus punks ficavam, para sempre, no passado.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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