Prestigioso prêmio literário francês Goncourt coroa Philippe Jaenada em meio a debate sobre IA
O Prêmio Goncourt 2026 foi concedido nesta terça-feira (3) a Philippe Jaenada por L'Inconnue du quai de Javel("A Desconhecida do Cais de Javel", em tradução livre). Na obra, o escritor francês de 62 anos investiga o assassinato de uma jovem bretã no fim da década de 1940. Jaenada sucede Laurent Mauvignier, vencedor do Goncourt de 2025.
Philippe Jaenada venceu o Prêmio Goncourt, maior honraria literária francesa, pelo romance policial verídico "L'inconnue du quai de Javel". Inspirada nos métodos do comissário Maigret, a obra reconstitui um assassinato não resolvido de 1949. A edição foi marcada por debates sobre inteligência artificial após a desclassificação do favorito Thélyson Orélien por suspeita de uso de IA, levando a Academia Goncourt a planejar regras que restrinjam a premiação apenas a obras feitas por humanos.
O Goncourt é o mais importante prêmio literário francês. Como manda a tradição desde 1914, o nome do vencedor foi anunciado no restaurante Drouant, em Paris, endereço histórico da vida literária francesa. Os nove membros da Academia Goncourt deram seis votos a Philippe Jaenada, contra três votos para Sylvain Prudhomme, autor de De l'autre côté du lac ("Do Outro Lado do Lago").
"Para mim, é uma realização, uma honra", declarou o vencedor à imprensa. "Estou feliz", acrescentou o autor, conhecido por suas investigações literárias baseadas em arquivos e centradas em crimes não solucionados.
Em L'inconnue du quai de Javel (Editora Flammarion), ainda não traduzido em português, Jaenada procura reconstituir o assassinato de Louise Cansot, uma jovem bretã de 29 anos que se tornou modelo em Paris e cujo corpo foi encontrado em setembro de 1949 às margens do rio Sena. Narrada em primeira pessoa, a obra acompanha a investigação conduzida pelo próprio autor, que mergulha em arquivos policiais e revisita os lugares onde a vítima viveu.
Segundo Philippe Claudel, presidente da Academia Goncourt, o romance "torna visível uma mulher que foi invisibilizada, uma vítima da qual a polícia não se ocupou suficientemente na época".
Para tentar identificar o responsável pelo crime, algo que a polícia não conseguiu esclarecer à época, Jaenada se inspirou nos métodos do comissário Jules Maigret, personagem criado por Georges Simenon. O autor leu ou releu dezenas de romances da série durante a elaboração do livro.
Debate sobre uso da IA na literatura
A disputa deste ano foi marcada pela controvérsia envolvendo o escritor haitiano Thélyson Orélien. Considerado inicialmente um dos favoritos, seu romance C'était ça ou mourir ("Era Isso ou Morrer") foi retirado da seleção do Goncourt e eliminado de outras premiações literárias devido a suspeitas de uso de inteligência artificial em sua elaboração.
O caso provocou forte repercussão no mercado editorial francês e levará a Academia Goncourt a modificar seu regulamento. Segundo Philippe Claudel, ainda este ano deverá ser formalizada uma regra especificando que apenas obras escritas por seres humanos podem concorrer ao prêmio.
"Acho que, se um autor utilizou inteligência artificial ao criar um livro, basta ser muito honesto e dizer isso", afirmou Antoine Gallimard, presidente da editora Gallimard.
"Turbilhão"
Autor de perfil discreto, Philippe Jaenada afirmou esperar atravessar um "turbilhão" após a conquista do principal prêmio literário da França, mas disse desejar retornar rapidamente à rotina de pesquisa e escrita.
"Quero reencontrar logo minha vida tranquila, imóvel, isolada, escrevendo. Pesquisar, trabalhar nos arquivos. Para mim, não existe nada melhor", declarou o escritor, que se orgulha de não possuir telefone celular.
O romance premiado é o 13º livro de Jaenada e foi publicado 29 anos após sua estreia literária com Le Chameau sauvage ("O Camelo Selvagem"), lançado em 1997. Depois de construir sua reputação com romances próximos da autoficção, o autor reinventou sua carreira a partir de Sulak (2013), dedicando-se à investigação de casos policiais reais, gênero no qual também se destacaram La Petite Femelle (2015) e La Serpe (2017), premiado com o Femina. Nenhum dos livros de Jaenada foi publicado no Brasil até agora.
Além do Goncourt, o Prêmio Renaudot 2026 foi concedido a François-Henri Désérable por Le Palais. Na categoria ensaio, a premiação foi dividida entre Jean-Paul Enthoven, por Dictionnaire amoureux du bonheur, e Christophe Ono-dit-Biot, por L'Odyssée de l'Odyssée.
Com agências
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