Por que o Rio é chamado de "Cidade Maravilhosa"?
Apelido que virou sinônimo de Rio de Janeiro foi cunhado por uma poeta francesa em 1911 e eternizado por um compositor carioca em 1934.André Filho estava na Praia de Botafogo, batucando uma caixinha de fósforo, quando, numa tarde qualquer de 1933, começou a cantarolar a letra de uma música: "Cidade maravilhosa / Cheia de encantos mil! / Cidade maravilhosa / Coração do meu Brasil!". Na dúvida sobre o ritmo da canção, teria perguntado à ex-mulher: "Ciganinha, marcha ou samba?". "Marcha!", teria respondido Joana, segundo entrevista ao jornal O Globo, de 1965. O compositor não podia imaginar que, 70 anos depois, aquela marchinha seria reconhecida como o hino oficial da cidade do Rio de Janeiro.
No dia 4 de setembro de 1934, André Filho e Aurora Miranda, irmã mais nova de Carmen, entraram no estúdio da Odeon para gravar a música. "E se um dia você se perguntou por que Carmen teria deixado Cidade Maravilhosa para a irmã — quando ela própria, Carmen, poderia tê-la gravado —, não perca seu tempo", explica o jornalista e escritor Ruy Castro no livro Carmen - Uma Biografia (2005). "André Filho ofereceu Cidade Maravilhosa diretamente à Aurora. Ela já gravara outras músicas dele, os dois eram amigos, e Aurora era uma cantora em fulminante ascensão".
Um ano depois de gravá-la, André Filho resolveu inscrevê-la em um concurso promovido pela prefeitura do Rio e realizado no Teatro João Caetano. Para espanto do público, tirou o segundo lugar: perdeu a primeira colocação para Coração Ingrato, interpretada por Sílvio Caldas. Reza a lenda que André Filho teria ficado tão indignado com o resultado que pulou no pescoço de Ary Barroso: o autor de Aquarela do Brasil era um dos jurados. "Essa história circula por aí de vez em quando, mas me parece mais lenda do que fato", afirma o pesquisador Fernando Krieger, curador do Instituto Moreira Salles (IMS), instituição que abriga, desde 2006, o acervo de André Filho.
"Nenhum dos jornais pesquisados faz qualquer referência a essa suposta briga, e convenhamos que uma troca de sopapos entre dois grandes nomes da nossa música teria sido um prato cheio para a imprensa da época", prossegue Krieger, que dedicou dois artigos, ambos de 2015, à saga de Cidade Maravilhosa. Segundo um deles, o público vaiou a grande campeã e, por pouco, não depredou o teatro - André Filho, em compensação, foi aplaudido de pé. "A maior manifestação da minha vida", escreveu o compositor no recorte do jornal A Noite de 11 de fevereiro de 1935.
Lenda urbana: A Cidade Maravilhosa
O compositor André Filho eternizou a expressão "Cidade Maravilhosa". Até hoje, sua marchinha é tocada e cantada em cerimônias oficiais, bailes de carnaval e desfiles de rua. Mas, quem criou o epíteto? Durante muito tempo, acreditou-se que o autor dessa proeza teria sido o escritor Coelho Neto. Tudo por causa de um livro de crônicas que ele lançou em 1928: A Cidade Maravilhosa. Vinte anos antes, Coelho publicou no jornal A Notícia do dia 29-30 de outubro de 1908 um artigo intitulado Os Sertanejos. Nele, teria usado, pela primeira vez, a tal expressão.
Em artigo publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o escritor e tradutor Ivo Korytowski rebate essa tese e a chama de "lenda urbana". Segundo ele, o filho do autor, Paulo, teria ajudado a disseminá-la. "O que Coelho Neto chama de 'Cidade Maravilhosa' é, na verdade, a Exposição Nacional Comemorativa do Centenário da Abertura dos Portos, em 1908, e não a cidade do Rio de Janeiro", esclarece Korytowski. "A exposição era, de fato, deslumbrante. Não à toa, a imprensa da época se referia a ela como 'Cidade Maravilha' ou 'Cidade Maravilhosa'."
Tesouro escondido
No mesmo artigo, Korytowski cita o nome da poeta francesa Jane Catulle Mendès. Em 1913, ela publicou um livro de poemas, A Cidade Maravilhosa (La Ville Merveilleuse, no original), depois de conhecer o Rio de Janeiro, dois anos antes. No primeiro dos 33 poemas, ao descrever a chegada do navio inglês Araguaya à Baía de Guanabara, exalta: "Jamais tantos esplendores deslumbraram os olhos! Aqui é a terra de todas as luzes!". A vida de Jane Catulle Mendès acaba de virar livro, A Poeta da Cidade Maravilhosa, escrito pelo jornalista e pesquisador Rafael Sento Sé.
"Ouvi falar de Jane, pela primeiríssima vez, num livro do Carlos Lessa, mas, assim como tantos outros apaixonados pela história do Rio, passei batido. Só fui capturado pela história dela em 2012 quando resolvi fazer uma postagem para o meu blog sobre a origem da expressão 'Cidade Maravilhosa'", recorda Sento Sé. "Já nas primeiras pesquisas sobre a visita dela ao Rio em 1911 e sobre o livro de poemas que escreveu em 1913, percebi que tinha encontrado um tesouro escondido. Ninguém nunca tinha contado a história dela e tinha um vasto material nos jornais antigos."
A expectativa pela chegada de Jane ao Rio era tanta que o editor do extinto jornal O Paiz não conseguiu esperar pelo desembarque dela no Cais Pharoux, na Praça 15. Antes disso, enviou um repórter na esperança de conseguir uma "exclusiva".
"Que lindo país esse seu! Que variedade de tons tem aqui o horizonte!", enalteceu a visitante no salão do transatlântico. "Aqui, do navio, esse espetáculo era soberbo. Se ainda não teve a ocasião de apreciá-lo, aconselho-o que o faça e bem compreenderá a minha emoção", dizia a poeta, referindo-se ao pôr do sol do dia anterior.
Paris dos trópicos
No Rio, Catulle Mendès ficou 77 dias: chegou no dia 20 de setembro e partiu no dia 6 de dezembro. Neste período, proferiu três conferências: "O Heroísmo da Mulher Francesa", na Associação dos Empregados do Comércio; "A Parisiense", na sede do Jornal do Commercio; e "As Mulheres de Letras Francesas", no Teatro Municipal. Entre um compromisso e outro, tomou chá com o jornalista João do Rio no Club dos Diários, foi recebida pelo presidente Hermes da Fonseca no Palácio do Catete e conheceu alguns pontos turísticos da cidade, como o Jardim Botânico.
Em sua temporada carioca, Jane tornou-se amiga de Júlia Lopes de Almeida. Tão amiga que, em 1913, dedicou a Júlia o poema A Fonte Milagrosa, um dos 33 de A Cidade Maravilhosa. Mais do que isso: resolveu homenageá-la, em 1914, com um banquete no hotel Mac Mahon Palace, na capital francesa. "O Rio da Belle Époque queria ser Paris. A alta sociedade falava francês, passava longas temporadas na França e lia os jornais e as revistas francesas. Então, quando a Jane disse que o Rio era a Cidade Maravilhosa, aquilo teve um impacto muito grande", afirma Sento Sé.
No dia de sua partida, Jane levou, como recordação de sua visita ao Rio, uma coleção de borboletas e, como frustração, não ter conseguido avistar a constelação do Cruzeiro do Sul. Até pensou em regressar, no ano seguinte, para conhecer São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Pernambuco, mas nunca mais pisou em solo brasileiro. A caminho do porto de Cherburgo, na França, o navio em que viajava, o Danube, enfrentou uma tempestade no Golfo da Gasconha, já próximo do litoral. Jane e Mathilde Grimaud, sua secretária, chegaram a cair da cama.
Jane Catulle Mendès morreu no dia 9 de junho de 1955, aos 88 anos. André Filho, no dia 2 de julho de 1974, aos 68.