'Para sobreviver a dores tão profundas, mudei a maneira de olhar a vida', diz Deborah Colker
A coreógrafa estreia 'Remix', no Teatro Sérgio Cardoso, ainda sob o impacto da morte do neto Theo e envolvida com os cuidados com a saúde do marido
A estreia do espetáculo Remix, na sexta, 7, no Teatro Sérgio Cardoso, comprova o poder de superação da coreógrafa Deborah Colker. O espetáculo, que reúne cenas de quatro trabalhos anteriores, foi concebido durante momentos de muita dor, quando enfrentou o AVC sofrido por seu companheiro, o cantor e compositor Toni Platão, em novembro de 2024, e principalmente a morte do neto Theo, em março, depois de lutar bravamente contra uma doença rara (epidermólise bolhosa) em seus 14 anos de existência, trajetória que marcou profundamente a vida e a obra da artista.
"A ideia de criar o Remix veio no início de 2025, durante um momento muito difícil", conta Deborah. "Tony tinha acabado de sofrer o AVC e eu estava quebrada, mas com a missão de não deixá-lo morrer. Ele ficou internado por quatro meses e 21 dias, praticamente em coma induzido, sofrendo convulsões por dois meses, e eu estava ali. Por isso, não tinha condição de criar um trabalho novo."
A decisão de revisitar antigos trabalhos foi tomada junto com João Elias, diretor executivo e cofundador da Companhia Deborah Colker, quando eles estavam na cidade de Mesquita, na Baixada Fluminense, onde a coreógrafa recebeu o título de Cidadã Honorária. No dia da cerimônia, foi aberta uma exposição fotográfica com uma retrospectiva da atuação de Deborah. "Nunca tínhamos unido trabalhos de momentos diferentes nesses 33 anos de trabalho, quando surgiram 15 criações, que foram marcadas por várias fases, tanto de investigação do movimento como do espaço dedicado à literatura", diz ela.
O desafio passou então a ser a escolha pelas cenas, que precisariam atender a dois critérios: ser ao mesmo tempo impactantes para o reencontro com o público e demonstrar a potência criativa da Companhia. A decisão foi finalizada com a seleção da coreografia Paixão do espetáculo Vulcão (1994), a cena Delírios de Belle (2014), a dupla As Meninas e Vasos de 4x4 (2002) e as coreografias Gravidade e Roda do espetáculo Rota (1997).
O resultado é o trabalho mais ousado da companhia pela complexidade: o elenco conta com 16 bailarinos que dançam com uma cortina gigantesca de 12 metros, além de 90 vasos e uma roda com 5 metros de diâmetro.
"São espetáculos que não estão limitados ao passado. Remix reflete nossas inquietações e mostra como as investigações continuam vivas", afirma Deborah que, durante o processo de ensaio, procurou estar presente. "Toni estava internado e a saúde de Theo começou a piorar. Eu me dividia em dois hospitais ao mesmo tempo em que pesquisava a origem dos movimentos do espetáculo, ressignificando a física do movimento, as geometrias, as questões da dança contemporânea porque há ali um grito contra a mecanização dos movimentos."
A escolha das cenas buscou ainda uma ressignificação daqueles espetáculos, considerados à época acrobáticos demais por alguns críticos, que não os viam como dança. "Lido com técnica e disciplina, mas não pode ser algo que aprisione e sim que liberte", explica.
Rota, por exemplo, é considerada uma das suas coreografias mais difíceis por combinar os conceitos de espaço, geometria, peso e volume, que resultou em momentos cênicos memoráveis, como o segmento Roda, em que os dançarinos se posicionam em uma roda móvel, desafiando a gravidade.
"Não é uma coreografia que se aprende simplesmente. O corpo precisa entender a física, saber como equilibrar o peso para, quando mandar um estímulo, o bailarino receber a resposta correta da roda e não ser expulso por ela", explica Deborah, que impõe outro desafio contra a gravidade em Vasos, cena de 4x4 em que os artistas se movimentam em meio a um chão coberto de vasos com a missão de não quebrar nenhum, uma provocação sobre espaço e sua ocupação.
A tristeza pela morte do neto e a força para recomeçar
"São necessários cerca de seis meses de ensaios para não se derrubar um vaso ou cair da roda", conta a coreógrafa que, enquanto trabalhava em Remix, também promoveu uma modificação no final da ópera O Último Sonho de Frida e Diego, sobre o reencontro do casal de artistas no Dia dos Mortos. Deborah assina a direção cênica do espetáculo montado no Metropolitan Opera House, em Nova York. Ela pediu e foi atendida pelo compositor Nilo Cruz, que acrescentou no desfecho, quando Diego Rivera morre, um verso que indica o caminho da eternidade para o artista.
"Acreditar que tudo não acaba aqui me deu mais motivação", conta Deborah, ciente de ter recebido uma prova disso ao voltar a Nova York para retomar os ensaios. Theo acabara de morrer e ela só reuniu forças para viajar graças à companhia da filha Clara e da neta Alice. "Eu não conseguia comer, dormir ou trabalhar. Não conseguia fazer nada. Nova York não é uma cidade para quem está fragilizado, mas eu estava ali."
Certa tarde, diante de cem pessoas durante um ensaio, Deborah não reagia até que lentamente foi mudando de atitude. "A única explicação que eu tenho é que Theo pegou no meu pescoço, levantou minha cabeça e falou no meu ouvido: 'Vambora, a sua força sempre foi importante para mim'. Aí consegui fazer a ópera, um dos melhores trabalhos da minha vida."
Deborah Colker vai tocar piano
Aos poucos, a coreógrafa busca retomar uma rotina. Os cuidados com Toni continuam como prioridade enquanto reconquista a tranquilidade mental que vai impulsionar o trabalho criativo. Em algumas sessões de Remix, ainda não definidas, ela vai apresentar uma sonata de Mozart ao piano, instrumento que estuda desde menina. "Sinto conexões boas quando toco", explica ela, hoje mais contemplativa e com um pensamento mais preciso sobre a finitude.
"Para sobreviver a dores tão profundas, eu, ainda despedaçada, mudei a maneira de olhar para a vida", conta. "Quando mencionei a morte do Theo, o (rabino Nilton) Bonder me interrompeu e citou a Lei da Conservação das Massas, de Lavoisier, segundo a qual na natureza nada se perde, tudo se transforma. Com isso, quis me dizer que a vida está além do que é visto, está também no invisível. A morte não é o fim."
REMIX
- Companhia Deborah Colker
- 7 a 23/8. Quarta a Sábado, às 20h; Domingo, às 16h
- Teatro Sérgio Cardoso (R. Rui Barbosa, 153 - Bela Vista - São Paulo)
- 100 minutos (com intervalo)
- Classificação indicativa: 10 anos
- Ingressos: de 25 a 180 (esgotado, com a possibilidade de compra na hora)
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.