Os 'proibidões' do teatro musical: o que está por trás de gravações piratas publicadas nas redes
Filmagens são proibidas por direitos autorais, mas, mesmo assim, são compartilhadas a rodo nas redes sociais. Equipe de 'Wicked' diz que controlar está 'cada vez mais difícil'
O professor particular de inglês Maynard Prado, de 29 anos, saiu de Belo Horizonte em uma viagem a São Paulo. Amante de musicais, não se programou para assistir a Wicked, maior sucesso atualmente em cartaz na capital paulista, mas decidiu arriscar um dos ingressos remanescentes disponíveis antes de cada sessão.
Ficou boas quatro horas esperando e conseguiu. Para a sua alegria, pôde sentar bem no centro do Teatro Renault, exatamente no ponto em que Myra Ruiz, intérprete de Elphaba, a bruxa verde, chega bem próxima à plateia no famoso voo da personagem em Desafiar a Gravidade.
Maynard sabia que não poderia filmar nenhum trecho do espetáculo - logo no início da peça, a produção exibe um aviso sonoro que frisa a proibição. Resolveu gravar o voo de Elphaba mesmo assim, achando que o celular estava muito bem disfarçado. Mas Myra percebeu.
"Eu não tinha reparado. [...] No dia em que eu fui postar o vídeo, chegou uma parte que ela fez um sinal de não com o dedo. Aí eu falei: 'Isso foi para mim'", diz ele em entrevista ao Estadão. O professor publicou o vídeo em seu perfil do TikTok, esperando que ninguém além dele percebesse. Após receber inúmeros comentários sobre o gesto de Myra, inclusive da própria atriz, resolveu postar um novo vídeo com um pedido de desculpas.
"Aprendam com o meu erro e, quando vocês forem, não filmem", disse ele aos seguidores. O vídeo ultrapassou 70 mil visualizações e Maynard confessa que gravou também pensando em "surfar na onda" das críticas que havia recebido.
@maynard.prado Respondendo a @myra_ruiz vc é maravilhosa, me desculpe mais uma vez queen, foi a primeira e a última vez #myraruiz #fabibang #wicked #wickedmusical #teatro @WICKED BRASIL @Wicked Brasil
som original - chiquinho
O professor tem seu TikTok monetizado e, segundo ele, o dinheiro que recebeu tanto da gravação de Elphaba voando quanto do pedido de desculpas pagou o valor que gastou com o ingresso de Wicked. Apesar disso, Maynard afirma que não filmaria de novo caso fosse assistir ao musical uma segunda vez. "Serviu de lição", diz.
A febre dos 'proibidões' de musicais
Não é só Maynard que já publicou uma gravação pirata de Wicked nas redes sociais. Vídeos do tipo tomam conta do algoritmo de fãs de musicais e são chamados de "proibidões" por quem os publica. Há até perfis "especializados em proibidões" que não se restringem apenas a produções brasileiras. Foi, na verdade, com sucessos na Broadway que os vídeos passaram a ser "febre" entre o público das produções.
A atriz e jornalista Luíssa de Queiroz, de 32 anos, já publicou "proibidões" e vídeos autorizados de musicais em seu perfil no TikTok. Segundo Luíssa, ela começou a gravar trechos de produções para poder assisti-las novamente quando estivesse em sua casa.
"Tem umas pessoas que não sabem o momento de gravar, não sabem como gravar, ligam flash", conta. "Mas, no meu caso, eu tento ser o mais discreta possível quando vou gravar... Até tem um jeito de gravar com a tela apagada para não perceberem que estou gravando."
Tanto ela quanto Maynard não veem com tanta negatividade a publicação de "proibidões" nas redes. "Se eu não tivesse visto nada antes, nenhum 'spoilerzinho', acho que eu jamais teria ido [assistir a Wicked], para ser bem sincero", diz o professor. "Eu conheço muita gente que nunca nem foi. Então, às vezes, não é nem pelo desinteresse. É porque não tem informações [sobre o musical]", afirma Luíssa, que é do interior de São Paulo.
A atriz de musical Betina Monteiro, de 15 anos, porém, não vê sentido no argumento. "A divulgação já é bem feita pela própria produção", comenta ela, que vive em Recife.
Betina considera que o gesto de gravar é um "desrespeito com os atores", já que, segundo a atriz, "precisamos viver o teatro". Ela também costuma publicar vídeos nas redes sociais, mas, conforme a artista, são vídeos de outro perfil que compartilha gravações autorizadas.
"A pessoa que está na plateia precisa, antes de tudo, entender que é proibido gravar", diz. "Eu sei que muita gente vai de longe para assistir, só que não está certo filmar. Atrapalha, inclusive, até os atores."
'Wicked' diz que controlar 'está cada vez mais difícil'
Carlos Cavalcanti, produtor de Wicked, explica que o musical é resguardado pelos direitos autorais de nomes que fizeram ele chegar ao palco, como Stephen Schwartz, autor das músicas, que chegou a visitar a versão brasileira antes da estreia. "Você não pode filmar a obra do outro e começar a reproduzir na sua rede social, inclusive porque as pessoas hoje em dia ganham dinheiro com isso", diz.
Segundo Carlos, há uma equipe de 16 pessoas que assistem a todas as sessões de Wicked em pé para coibir as gravações. Elas ficam munidas de canetas a laser, e apontam uma luz vermelha caso vejam luzes de celular na plateia.
"Tentamos segurar ao máximo, mas todo mundo hoje em dia está munido de uma câmera fotográfica", afirma Carlos. "A nossa sociedade virou vítima do 'black mirror'... Somos obrigados a coibir, mas é uma coisa que, culturalmente, está cada vez mais difícil, porque as pessoas não se enxergam existindo se elas não estiverem tirando uma foto e colocando na rede social que elas mais gostam."
A produção de Wicked, assim como grande parte dos musicais e peças de teatro, permite que a plateia filme apenas o momento dos aplausos. Carlos aponta, porém, que percebe até uma diminuição das palmas ao final do espetáculo, já que a maioria do público está com o celular em mãos. "Tem gritos, assobios e celular empunhado."
Sobre o argumento de que os "proibidões" permitiriam que pessoas que não estão em São Paulo possam ver o musical, Carlos afirma que "essa não é a forma de enfrentar o problema de um país com dimensões de continente". "O espetáculo está em cartaz em Lisboa e a pessoa na Polônia está reclamando que ela não pode ir porque não está em Varsóvia, está em Lisboa? Isso é um pouco Brasil em relação às suas instâncias", comenta.
O produtor diz que a equipe já promove iniciativas para tornar o espetáculo mais acessível, como levar crianças de escolas da periferia para assistir gratuitamente, além de realizar a divulgação de Wicked com vídeos autorizados. "Eu não acho que imagem pirata resolva isso, principalmente porque as gravações são muito ruins e mal editadas", comenta.
Carlos vê com preocupação a possibilidade de um dia produções de grandes musicais liberarem o uso de celulares - como eles são liberados e dominam shows, por exemplo. "Aí não faremos teatro mais, faremos cinema. A plateia faz parte do espetáculo, mas só se ela tiver presente."