"Os fumantes são os que mais afirmam ter visto óvnis"
Na Alemanha, Hansjürgen Köhler é o "detetive dos ETs". Há 50 anos, ele comanda um serviço que investiga discos voadores. A resposta, no entanto, costuma ser mais simples que supomos.Se você estiver na Alemanha e avistar um óvni, é só pegar o telefone e chamar a Rede Central de Investigação de Fenômenos Celestes Extraordinários - o Cenap. Lá, os cinco voluntários chefiados por Hansjürgen Köhler, um alemão afável na casa dos 60 anos, poderão te ajudar.
O fundador do Cenap chegou a trabalhar de vendedor, porque foi impedido de virar astrônomo. O pai disse que ele deveria se dedicar a "algo decente". Mas foi na caça aos óvnis que Köhler encontrou um passatempo ao qual se dedica com devoção.
De a sua criação, em 1976, a rede central, com sede na cidade de Mannheim, já recebeu mais de 13 mil notificações sobre avistamento de objetos voadores não identificados. Quase todos foram resolvidos - 89 seguem em aberto. E o número de registros vem crescendo a cada ano. Só em 2024 foram 1.348.
Quase sempre há uma explicação. São foguetes, satélites, planetas brilhantes ou estrelas. Podem se tratar também bolas de fogo ou meteoritos.
De acordo com Köhler, cerca de 40% das notificações recebidas estão relacionadas à tecnologia espacial. Há alguns anos, Elon Musk passou a figurar na lista dos "responsáveis" pelos óvnis, já que os satélites Starlink emitem, em algumas situações, um brilho de grande intensidade.
Outros fenômenos cotidianos, facilmente confundidos com discos voadores, são os drones. Esses objetos podem executar manobras que impressionam quem vê. Além deles, a confusão é causada por balões, especialmente os de plástico, pois refletem a luz do sol, por shows de laser ou efeitos de luz utilizados em grandes eventos.
Um serviço 24 horas por dia
O Cenap dispõe de uma linha de atendimento que funciona 24 horas por dia. Por meio dele, qualquer um pode comunicar fenômenos celestes incomuns por WhatsApp, e-mail ou formulário de contato do site. Köhler investiga cada um desses casos e se vê na obrigação de respondê-los dentro de um prazo de 24 horas.
Quando recebe uma notificação, ele solicita dados como data, hora, local, endereço e duração do avistamento, além do número de testemunhas. Fotos e vídeos também são muito bem-vindas pelo chefe do Cenap.
O trabalho costuma ficar mais intenso no horário entre as 22h e a meia-noite. Nessa hora, conta Köhler, muitas pessoas estão na varanda olhando para o céu. Segundo ele, um hábito pouco saudável acaba sendo um dos principais motivos para os supostos avistamentos de naves alienígenas - é nessa hora, depois do jantar, que muitos vão à varanda fumar um cigarro e, enquanto olham para as estrelas, acabam dando de cara com algo que não conseguem explicar.
Há noites em que o serviço recebe entre 60 e 80 notificações. São situações em que o céu da Alemanha se transforma no cenário para coisas espetaculares, como meteoros ou a reentrada de um foguete. "Nesse momento, você pode desligar a TV, porque sabe que a ação vai começar", conta Köhler.
Os casos favoritos do alemão chegam entre as 3h e 4h da madrugada. Quando isso acontece, ele se levanta da cama com prazer, pois muitas vezes são meteoros que acabam sendo confundidos com naves interestelares.
Quanto mais cedo chegar o aviso, melhor. "Assim, podemos checar diretamente no computador o que a pessoa está vendo", diz. E, na melhor das hipóteses, esclarecer a situação.
Aurora boreal, ETs na praia ou falta de óculos?
Mesmo chefiando um serviço que trata, basicamente, de óvnis, Hansjürgen Köhler é um cético. Ele se considera mais um criminologista especializado no céu do que alguém que acredita em homenzinhos verdes em discos voadores.
Segundo Kölher, os conhecimentos astronômicos da população podem ser aprimorados, mas, às vezes, as pessoas relatam coisas não apenas por ignorância, mas porque nossa própria percepção também pode nos levar ao erro.
A psicologia chama isso de pareidolia, a tendência do cérebro em reconhecer significados ou rostos em padrões aleatórios. Assim, estruturas semelhantes a nuvens ou reflexos de luz podem, às vezes, se parecer com óvnis.
Para esclarecer os casos, Köhler utiliza programas de astronomia, informações das agências espaciais, dados de tráfego aéreo e, em situações especiais, chega até a recorrer ao exército alemão. Às vezes, o trabalho no Cenap lembra o de um detetive.
Até mesmo a Agência Espacial Europeia (ESA) já encaminhou casos suspeitos de óvnis a Köhler. Há três anos, uma equipe de pesquisadores observava auroras boreais na Noruega, quando avistou algo estranho no céu. Mas o alemão descobriu que, na verdade, tratava-se de um foguete que havia sido acionado e cujo combustível cristalizou no frio glacial. "Isso criou um espetáculo mágico no céu."
Outro caso que ele solucionou há seis meses foi o de um suposto avistamento de extraterrestres em uma praia de Portugal, documentado por uma mulher, que os retratou em desenhos minuciosos.
Sentada ao lado de uma fogueira, a testemunha havia visto, repetidas vezes, seres extraterrestres desaparecendo no mar. Mas Köhler descobriu que, no mesmo local, havia uma escola de mergulho. O que os ufólogos talvez tivessem classificado como um encontro com extraterrestres, acabou sendo descrito por Köhler como nada mais que um mergulho numa praia.
Um dos casos que mais marcou Köhler aconteceu nos anos 1990. Uma jovem teria passado vários meses, noite após noite, dirigindo atrás de um óvni, da Alemanha até a Bélgica.
O objeto não identificado mudava constantemente de forma, às vezes era maior, às vezes menor. Foi então que Köhler descobriu que a mulher era parcialmente cega. Os óculos que ela usava estavam quebrados, e ela havia perdido as lentes de contato.
O óvni que parecia crescer e diminuir era, na verdade, a Lua, em suas diferentes fases. "Foi estranho, mas também triste. Ela era uma mulher muito solitária", lembra ele.
A reportagem pergunta se o fundador do Cenap acha que algum dia um extraterrestre chegará à Terra. "Até hoje, eles não vieram", afirma o Köhler.
O ceticismo do alemão, no entanto, não é definitivo. O fundador do Cenap está convencido de que não somos os únicos seres vivos da galáxia, pois isso seria um "desperdício de espaço". "Não posso descartar que eles venham algum dia", diz. Mas acrescenta: se chegassem a pousar aqui e vissem o que acontece, iriam embora rapidamente.
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