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O que significa ser escritor hoje no Brasil? Censura, fama, 'lugar de fala' e mais de um emprego

Oito renomados escritores falam ao 'Estadão' sobre o momento atual da classe; 'Surgiu um novo tipo de ditadura', afirma Ignácio de Loyola Brandão, acerca das pautas sociais

25 jul 2024 - 09h40
(atualizado às 10h01)
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Ser escritor no Brasil é exercer uma atividade desafiadora. A escassez de políticas públicas de incentivo à leitura e a baixa remuneração aos autores são adversidades antigas e, infelizmente, habituais em nossa sociedade. Elas apenas foram incorporadas aos novos obstáculos impostos à categoria pela era moderna.

No entanto, mesmo com todas as dificuldades no ramo, a escrita não perde o glamour. Há aspectos fascinantes na imagem do escritor imerso em seus pensamentos, criando mundos e personagens a partir do nada, capturando a essência da alma humana com meras palavras.

Por isso, em celebração ao Dia do Escritor (25/7), o Estadão conversou com 8 expoentes da classe literária para entender o momento atual da prática no País.

'Surgiu um novo tipo de ditadura'

A digitalização trouxe a possibilidade de publicação independente, em contrapartida, resultou na necessidade de conquista por espaço dentro de um oceano de conteúdo gratuito disponível na internet.

Apesar de se considerar um caso isolado, o qual as editoras não sabem como lhe "vender", Santiago Nazarian, de estilo alternativo e provocador, avalia haver uma fragmentação no mercado.

"Há escritores de autopublicação na Amazon que têm milhares de leitores e nem conhecemos. Tem os autorzões de respeito do [prêmio] Jabuti. Os best-sellers voltados a um público jovem. Autores do TikTok. Isso não quer dizer que ficou mais fácil. Há espaço para todos, ou quase todos, mas o número de leitores não se ampliou, apenas se fragmentou", afirma o autor de Neve Negra e Fé no Inferno.

Além disso, as pautas sociais se instalaram de forma definitiva no debate público e na produção artística, que ainda tenta compreender como incorporar as demandas de grupos historicamente oprimidos, mas sem ferir a liberdade de criação.

"Agora existe o chamado 'lugar de fala'. Você só pode escrever sobre negros, se for um. Se for, homossexual, lésbica, trans, indígena, não saia de seu quadrado. Há normas, regras, proibições, condutas, imposições. Afrontá-las é grave. Você pode ser cancelado definitivamente. Ou seja, surgiu um novo tipo de ditadura", diz Brandão.

Por outro lado, Noemi Jaffe, premiada por A Verdadeira História do Alfabeto, conta não se sentir tão afetada pelo movimento em prol desses segmentos.

"No meu caso, presto mais atenção a alguns termos e tenho uma preocupação maior com o tratamento de alguns temas. Não acho que a literatura seja um trabalho temático e sim, principalmente, um trabalho formal. Importa, na literatura, mais o 'como' do que o 'quê' e acho que, no Brasil, ainda precisamos amadurecer esta ideia", explica.

"Felizmente, por causa das pautas identitárias, o autor hoje tem mais responsabilidade pelo que ele escreve. Há uma ideia errônea de que o escritor deve escrever sempre sobre o que ele é, só que isso não é ficção. O escritor de ficção pode escrever sobre qualquer personagem. Essa é a delícia da ficção, desde que o faça com responsabilidade", opina Montes.

Como se todas essas particularidades já não fossem suficientes para afetar o fazer literário, casos de censura são comuns no Brasil. Exemplo recente é o livro de Jeferson Tenório, O Avesso da Pele, que foi recolhido de escolas públicas pelos governos dos estados do Paraná, Mato Grosso do Sul e Goiás. A alegação foi de que a obra apresenta "expressões impróprias" para menores de 18 anos.

"O que aconteceu com O Avesso da Pele foi bastante grave. Isso pode nos levar a outros patamares, como a queima de livros, e depois até a privação de liberdade das pessoas. Vimos estratégias para censurar temas que são muito importantes, como a abordagem policial e o racismo estrutural. É bastante perigoso quando privamos os alunos de terem acesso a discussões sensíveis e profundas", diz Tenório.

Fato é que a vida do escritor brasileiro enfrenta um futuro incerto que depende da luta constante pela valorização da classe em meio a um ambiente cada vez mais competitivo e complexo.

Estadão
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