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'Nunca vi o fim, nem pretendo': Morte de Paulo Gustavo ainda ecoa em Dona Déa, que fala de musical

Mãe do humorista, que morreu precocemente vítima da covid-19, idealizou espetáculo ao lado da filha e de produtora, mas não aceita assistir ao fim do espetáculo; conheça 'Meu Filho É Um Musical'

21 ago 2026 - 09h26
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Resumo
O espetáculo "Meu Filho É Um Musical" estreia em São Paulo para homenagear a vida e a obra de Paulo Gustavo. Com participação especial de sua mãe, Dona Déa Lúcia, e direção de João Fonseca e Ju Amaral, a peça retrata desde a infância e o fenômeno de Dona Hermínia até sua importância para a representatividade LGBTQIAPN+. No palco, Pierre Baitelli e João Pedro Chaseliov se revezam no papel do humorista, resgatando com afeto a trajetória do artista que marcou o humor e o cinema nacional.

Um vozeirão ressoa no fundo do corredor. "Dona Déa está chegando", comentam os atores, já sorrindo, nos bastidores. Em poucos minutos, o novo corte de cabelo de um é elogiado aos brados enquanto outro recebe conselhos para melhorar a saúde. Ao mesmo tempo, a senhora de 78 anos se prepara para entrar em cena.

Desde maio, quando o espetáculo Meu Filho É Um Musical estreou no Rio, a cantora Déa Lúcia Vieira Amaral cumpre um ritual: canta Fascinação como abre-alas da peça, iniciando a narrativa sobre a meteórica e bem-sucedida carreira de seu filho, o humorista Paulo Gustavo (1978-2021).

Em seguida, recolhe-se em seu camarim, esperando a volta para os aplausos. "Nunca vi o fim da peça, nem pretendo ver. Quero guardar na minha memória aquela alegria dele", diz ela, agora no Teatro Renault, em São Paulo, onde Meu Filho é um Musical inicia temporada nesta quinta-feira, 20.

Paulo Gustavo e a mãe, Déa Lúcia, durante o espetáculo 'Filho da Mãe'
Paulo Gustavo e a mãe, Déa Lúcia, durante o espetáculo 'Filho da Mãe'
Foto: Amazon/Divulgação / Estadão

A dor, embora controlável, é infinita. Um dos mais inventivos humoristas brasileiros da recente safra, Paulo Gustavo morreu aos 42 anos em decorrência de complicações da covid-19. À época, esperava o abrandamento da pandemia para transformar o show que fazia com a mãe em um grande musical ao estilo Broadway. "Acontece que não deu tempo", lamenta-se Dona Déa que, passados alguns meses, foi procurada pela produtora Renata Borges Pimenta.

À frente da Touché Entretenimento, responsável por grandes espetáculos de origem estrangeira (como Uma Babá Quase Perfeita e Beetlejuice - O Musical), Renata planejava produzir um trabalho autoral brasileiro que relatasse uma história e não apenas uma carreira. "Um cantor tem sua discografia pronta para a peça, mas eu buscava uma trama na qual a música ajudasse a contar uma narrativa de vida, mas sem ser a protagonista", explica.

Meu Filho é um Musical acompanha a trajetória do comediante que se tornou o maior sucesso de bilheteria do cinema nacional. Da mesma geração que Fábio Porchat e Marcus Majela, Paulo Gustavo aconteceu em 2004 quando, na peça Surto, apresentou a personagem que marcaria sua carreira, Dona Hermínia, nascida como uma brincadeira quando imitava a própria mãe e os colegas morriam de rir. Trata-se de uma típica dona de casa que, sempre à beira de um ataque de nervos, toma as atitudes mais engraçadas.

Dona Déa (esq) e Renata Borges nos bastidores do espetáculo 'Meu Filho É Um Musical', que homenageia Paulo Gustavo e estreia nesta quinta, 20, em São Paulo
Dona Déa (esq) e Renata Borges nos bastidores do espetáculo 'Meu Filho É Um Musical', que homenageia Paulo Gustavo e estreia nesta quinta, 20, em São Paulo
Foto: Taba Benedicto/Estadão / Estadão

O reconhecimento de público veio em 2006 com o espetáculo Minha Mãe é uma Peça, que rendeu três adaptações para o cinema (2013, 2016 e 2019) com enorme bilheteria. O musical retrata essa ascensão, a partir da infância em Niterói e incluindo o casamento com o dermatologista Thales Bretas em 2015 que resultou no nascimento dos filhos Romeu e Gael, frutos de barrigas de aluguel distintas.

O fato notabilizou Paulo Gustavo como uma referência de representatividade ao naturalizar sua homossexualidade e a formação de sua família na grande mídia.

Ao elaborar o projeto, Renata e Dona Déa decidiram que a equipe criativa teria proximidade com a história do humorista. Assim, o roteiro é de Fil Braz, parceiro de Paulo Gustavo no teatro, e a direção é dividida entre Ju Amaral, irmã do comediante, e João Fonseca, que dirigiu Minha Mãe é Uma Peça. "Mostramos, no musical, como diversos pais e filhos se reconciliaram depois de assistir ao trabalho dele", conta o encenador. "Ele trouxe a família para o cinema e o teatro, colocando a questão LGBTQIAPN+ de uma maneira que as pessoas começaram a entender melhor."

João Pedro Chaseliov e Pierre Baitelli dividem o papel de Paulo Gustavo em 'Meu Filho É Um Musical'
João Pedro Chaseliov e Pierre Baitelli dividem o papel de Paulo Gustavo em 'Meu Filho É Um Musical'
Foto: Taba Benedicto/Estadão / Estadão

Já a definição do elenco seguiu um plano diferente, com a escolha de dois atores para revezar sessões no papel de Paulo Gustavo. Fonseca temia não encontrar o intérprete ideal e, como durante os testes João Pedro Chaseliov e Pierre Baitelli apresentaram características distintas mas complementares, optou por escalar os dois. "Cada um destaca um temperamento diferente do Paulo Gustavo, mas com o mesmo timing de comédia para imprimir o carisma e a loucura esperados pelo público."

O trabalho não foi fácil. Segundo Baitelli, o desafio era encontrar o desprendimento do comediante sem criar uma caricatura. "Busquei sintonizar a interpretação em um aspecto mais subjetivo do que apenas reproduzir o estilo cômico que era muito próprio dele", conta o ator que, durante o processo de ensaio, encontrou na atuação do colega detalhes que aproximam as atuações. "O humor do Paulo não nascia necessariamente do assunto que estava falando, mas principalmente da forma com que dizia, com variações sempre engraçadas", completa Chaseliov.

A única personagem que dispensou teste de elenco foi justamente a de Dona Déa, papel de Stella Maria Rodrigues, uma escolha pessoal dela. "Eles trabalharam juntos no filme Minha Mãe é uma Peça 3 e, certo dia, Paulo colocou a peruca em Stella e gostou muito do resultado, dizendo que ela interpretaria Dona Hermínia no ano seguinte", recorda-se Dona Déa. "Não poderia ser outra atriz no musical."

Stella se diverte com a insólita situação de dividir o camarim com a inspiradora de seu personagem na peça, ou seja, é como se vivesse continuamente diante do espelho. "Já interpretei mulheres que não estão mais vivas, como Emilinha Borba e Hebe Camargo, sobre quem fiz pesquisas de vídeo e áudio. Mas aqui só preciso observar os gestos, a entonação da voz, a decisão de falar o que pensa sem filtro, identificar uma energia que descobri parecida com a minha", afirma a atriz.

As atrizes Milena Machado (de jaqueta preta) e Stella Maria Rodrigues vivem, respectivamente, Ju Amaral e Dona Déa - irmã e mãe de Paulo Gustavo
As atrizes Milena Machado (de jaqueta preta) e Stella Maria Rodrigues vivem, respectivamente, Ju Amaral e Dona Déa - irmã e mãe de Paulo Gustavo
Foto: Taba Benedicto/Estadão / Estadão

Desafio semelhante ao de Milena Machado, que estreia em um musical profissional justamente no papel de Ju Amaral, irmã de Paulo Gustavo, co-diretora da peça e que, como Dona Déa, faz uma participação cantando no espetáculo. "É um laboratório diário", comenta Milena. "Aos poucos, entendi porque o Paulo Gustavo dizia se sentir uma farsa, pois a engraçada da família é ela: sempre acrescento alguma coisa ao personagem depois de ouvi-la fazer um comentário."

Inicialmente relutante em compor as músicas e letras originais do espetáculo por não ter conhecido Paulo Gustavo pessoalmente, o diretor e compositor Daniel Salve mudou de ideia ao perceber que o roteiro, mais que recontar uma trajetória, narra uma história de amor entre mãe e filho. "É algo universal", conta ele, que preferiu se basear mais em emoções (como afeto, medo, desejo) que em fatos.

"Ao ver o espetáculo, o público vai entender que Paulo Gustavo foi irreverente, cativante e autêntico porque teve como mãe uma mulher empoderada que cantou na noite e vendeu quentinha para sustentar os filhos", observa Renata Pimenta. "Era também preciso trazer Dona Déa para o palco, como uma homenagem."

Serviço

  • Estreia: 20 de agosto
  • Temporada: 20 de agosto a 11 de outubro
  • Sessões: Quinta às 20h | Sexta às 20h | Sábado às 15h e 20h | Domingo às 14h30 e 19h30
  • Ingressos: a partir de R$25 (meia entrada)
  • Local: Teatro Renault - Av. Brigadeiro Luís Antônio, 411 - Bela Vista, São Paulo - SP
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Estadão
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