Na era da IA, é possível assegurar a autoria de um livro?
A Feira do Livro de Frankfurt debate o impacto da inteligência artificial no mercado editorial, abordando direitos autorais, regulação e os desafios para identificar a autoria humana em obras literárias. A polêmica foi impulsionada pelo caso de Thélyson Orélien, acusado de usar a tecnologia em seu romance de estreia. Enquanto o setor pressiona por leis mais rígidas contra as gigantes da tecnologia, a IA já se divide entre ameaça à criação tradicional e ferramenta de inclusão e produtividade no meio.
Feira do Livro de Frankfurt debate como a inteligência artificial impacta o mercado editorial e desafia conceitos os de direitos autorais e transparência.Até que ponto a inteligência artificial vai transformar o mercado editorial e onde essa mudança ainda pode ser regulada? Este é um dos temas mais debatidos da Feira do Livro de Frankfurt, que termina neste domingo (11/10) na metrópole financeira da Alemanha.
Diante dos alertas sobre os riscos de longo prazo da tecnologia para a humanidade, a discussão pode parecer limitada. Mas, na prática, ela envolve questões muito concretas, como a proteção dos direitos autorais, o poder das grandes empresas de tecnologia e o futuro do trabalho criativo. Muitos atores do setor concordam que as medidas políticas adotadas até agora não são suficientes.
Neste ano, porém, um novo aspecto ganhou destaque e se tornou mais urgente do que em edições anteriores da feira: ainda somos capazes de identificar quando um texto foi escrito com ajuda de inteligência artificial? E é possível provar isso?
A relevância do tema ficou evidente com o escândalo literário envolvendo o autor haitiano-canadense Thélyson Orélien. Seu romance de estreia, C'était ça ou mourir (Era isso ou morrer, na tradução livre), foi publicado na primavera canadense e chegou à França no fim do verão. A obra, que narra uma história de migração, recebeu elogios quase unânimes, teve os direitos vendidos para mais de 20 idiomas e chegou à lista preliminar do prestigiado Prêmio Goncourt.
Pouco depois, porém, surgiram acusações de que o livro teria sido escrito quase inteiramente por inteligência artificial. De um dia para o outro, Orélien passou de revelação literária a suposto fraudador, embora negue todas as acusações. Sua indicação ao Goncourt foi retirada. A partir daí surge uma questão central: em quem acreditar? No autor ou nos sistemas que afirmam detectar o uso de IA?
Quando a origem dos textos se torna incerta
"Teremos de aprender a conviver com a dúvida", afirma Hannes Bajohr, professor de literatura alemã na Universidade da Califórnia em Berkeley. Há anos ele pesquisa como a inteligência artificial está mudando não apenas a escrita, mas também a leitura.
Sua previsão é que, se a origem dos textos não puder mais ser determinada com segurança, as obras passarão a ser avaliadas de outra forma. O que importará será a qualidade do texto em si, e não mais a questão de saber se houve ou não assistência de IA durante sua produção.
A escritora best-seller Nina George, presidente honorária do Conselho Europeu de Escritores, discorda dessa visão. Durante a Feira do Livro de Frankfurt, ela recebeu o Prêmio Friedrich Perthes por seu engajamento em temas como inteligência artificial e direitos autorais.
George já discursou tanto no Parlamento Europeu quanto no Parlamento alemão sobre os riscos associados aos modelos de IA. Na sua avaliação, é perverso exigir que autores tenham de provar que seus textos foram escritos por seres humanos.
Para ela, a questão central continua sendo a postura das grandes empresas de tecnologia, que utilizam obras protegidas por direitos autorais para treinar seus sistemas, e a necessidade de fortalecer a proteção legal dos criadores.
Qualquer pessoa pode virar escritora com IA?
Mas o cenário muda quando o autor não vê a inteligência artificial como uma ameaça, e sim como uma ferramenta.
É o caso do escritor e artista americano que utilizou deliberadamente IA na produção de seu livro autobiográfico How To Win One Million Dollars and Shit Glitter e nunca escondeu isso.
"Sou disléxico", explica. "Sempre gostei de escrever e inventar histórias, mas nunca tive coragem de levar isso adiante."
Segundo ele, a inteligência artificial o ajudou a realizar esse sonho. A ferramenta apontou fragilidades no manuscrito e até sugeriu uma estratégia de marketing que acabou funcionando. Em maio de 2026, o livro recebeu um prêmio da Associação de Editoras Independentes dos Estados Unidos (IBPA).
Um negócio baseado em IA
Para a sul-africana Coral Hart, a inteligência artificial é mais do que uma ferramenta: é a base de seu modelo de negócios.
Publicando sob diferentes pseudônimos, ela lança mais de 200 romances por ano, entre histórias de amor, thrillers e mistérios, todos de forma independente. Hart se descreve simultaneamente como criadora das ideias, editora e publicadora.
Embora ainda não tenha produzido um best-seller, afirma que a atividade é financeiramente viável. Segundo ela, cada um de seus livros alcança mais de 5 mil leitores.
Luke Stoffel considera hipócrita grande parte do debate. Na sua avaliação, muitas editoras já utilizam ferramentas de inteligência artificial em diferentes etapas da produção.
Ele acredita até que, neste exato momento, exista algum best-seller milionário sendo impresso com participação significativa de IA, sem que seus autores admitam isso.
Talvez o caso de Thélyson Orélien seja justamente esse escândalo. Talvez não. O problema é que, daqui para frente, pode ser impossível saber ao certo.
Pressão por mais regulação
Enquanto a discussão sobre autoria continua, o foco político segue voltado para as grandes empresas de tecnologia. Curiosamente, até elas demonstram preocupação em relação à perda de controle sobre os sistemas que ajudam a desenvolver.
Na abertura da Feira do Livro de Frankfurt, a Associação Alemã do Comércio Livreiro lançou um novo apelo aos governos da Alemanha e da União Europeia para que reforcem a regulamentação da inteligência artificial. O documento já foi assinado por 140 editoras.
Por enquanto, no entanto, trata-se apenas de um apelo. E a discussão sobre o que autores podem ou não fazer ao utilizar inteligência artificial parece estar longe do fim.
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