Voz de 'The Last of Us', Shawn James toca no Brasil e conta transformação de música rejeitada em hit
Cantor faz show em Porto Alegre, São Paulo e Curitiba para divulgar seu novo álbum 'Passage'; nesta entrevista, ele fala ainda sobre IA, composições, inspirações e tatuagem feita para registrar conexão com o público brasileiro
Shawn James alcançou fama internacional ao se deparar com uma de suas músicas como parte da trilha sonora de um dos principais universos de videogames já feitos. The Last of Us Part II trouxe em sua trilha Through The Valley, uma balada que não era mais tocada e acabou por se tornar um dos maiores sucessos do artista.
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Americano, criado em Chicago, James, de 39 anos, tem uma identidade sonora única ao misturar elementos do blues rock, folk e soul. Ao mesmo tempo que traz composições intensas e cruas, o músico é dono de uma sensibilidade tocante.
Em visita ao Brasil, Shawn James inicia, nesta quinta, 6, em Porto Alegre, sua turnê de divulgação do álbum Passage, lançado em junho. Na sexta, 7, ele toca no Cine Joia, em São Paulo. No sábado, 8, se apresenta em Curitiba, na sua despedida do Brasil. No domingo, 9, ele já estará em Buenos Aires.
Em entrevista ao Estadão, o multi-instrumentista compartilhou a história por trás de sua participação no videogame, falou sobre seu novo lançamento e revelou memórias curiosas com o Brasil. Leia a seguir.
Após um álbum conceitual com narrativa de velho oeste, 'Honor and Vengeance', você optou por não ter um tema central em 'Passage', tratando cada música como uma história independente. O que te fez tomar essa decisão?
Ao fazer um álbum conceitual como Honor and Vengeance, a pessoa precisa ouvir o trabalho inteiro para captar a ideia. Eu adoro isso, mas para algumas pessoas pode ser demais. Quando concluo um álbum assim, me sinto inspirado a voltar às histórias individuais e a contar a narrativa completa em uma única música. Ao planejar um álbum conceitual, preciso estruturar a história com antecedência para depois executá-la; é um projeto maior. É diferente de simplesmente ter um momento de inspiração, pegar aquela ideia de música e seguir em frente.
Depois de tantos anos na estrada e centenas de músicas lançadas, a inspiração se tornou mais fácil de buscar ou você ficou mais exigente com o tempo?
Um pouco dos dois, dependendo do contexto. É mais fácil, no sentido musical, encontrar inspiração para compor, porque aprendi a buscá-la melhor e entendi os métodos que funcionam para mim. Na maioria das vezes, não costumo compor enquanto estou em turnê.
No entanto, tenho ideias na estrada, então anoto essas estruturas de músicas. Depois, quando estou sozinho em casa, sem ninguém por perto, desenvolvo tudo, pois não preciso me preocupar se há alguém escutando ou julgando.
Quanto à motivação para continuar na estrada ou fazer shows, a resposta são as pessoas. Ver o impacto que a música causa no público me inspira e me dá um propósito de vida que pensei que nunca teria.
Eu classificaria seus shows quase como um ritual pagão, onde a plateia não está apenas assistindo, mas expurgando suas emoções junto com você.
Essa é uma forma bonita de colocar. Gostei.
Qual foi o momento mais bizarro ou bonito em que você sentiu que a barreira entre o palco e a plateia desapareceu por completo?
Há alguns shows que se destacam na minha memória. Isso pode acontecer em qualquer lugar onde eu sinta que o público é parte da apresentação, e não apenas espectador.
Existem algumas plateias — nunca no Brasil — que parecem estar apenas assistindo ao show. Ao final da música, batem palmas contidas e esperam a próxima. Não parece haver uma troca ativa de energia. Meus momentos favoritos de conexão são quando essa troca de energia é alta.
Sei que você não é fã de inteligência artificial em campos criativos. No mundo atual, a perfeição sintética está se tornando a norma. Você vê o erro humano e a vulnerabilidade vocal como uma nova forma de luxo ou de resistência?
Não vejo como algo novo. Em certo sentido, sim, por causa do perfeccionismo, mas essa é uma questão complexa. Quando eu era mais jovem, buscava constantemente a perfeição na performance, na habilidade vocal e na composição. Com os anos de turnês e apresentações, percebi que a beleza reside nas imperfeições. Trata-se de ser vulnerável, honesto e real o suficiente para cometer um erro, se recuperar e continuar.
Buscar a perfeição é irreal e anti-humano. Diante dessa nova era de IA e de falsificação de conteúdos, considero que ser autêntico, genuíno e original é uma forma absoluta de resistência. Essa luta entre o perfeccionismo e o real sempre existiu. É comum que artistas mais jovens não percebam que ser perfeito não é o melhor caminho. Obviamente, deve-se aprimorar a técnica e dar o melhor de si, mas existe um meio-termo.
A música 'Through the Valley' não era conhecida antes de 'The Last of Us Part II'. Qual foi a sensação de ganhar reconhecimento mundial por uma música que você já tinha parado de tocar por achar que ninguém queria ouvir?
Você pesquisou bem, ou me ouviu ao vivo! Essa foi uma das primeiras músicas que compus, sendo uma reinterpretação do Salmo 23. Fui criado na Igreja Pentecostal — uma experiência intensa que é história para outro dia.
Quando lancei essa música, eu tocava em bares para cerca de 10 pessoas que não estavam lá para me ver, apenas para beber. Eu tentava tocar baladas emocionais como Through the Valley, mas a mensagem não fluía porque aquele não era o público adequado.
Eles queriam se divertir. Rapidamente precisei me adaptar e passei a tocar mais covers, blues e sons mais agitados e rasgados, aumentando a potência vocal para chamar a atenção. Funcionou. Embora tenha ficado triste por ver que a música não ressoava como eu gostaria, entendi a situação. O momento não era o certo.
Quando o trailer do jogo saiu, foi o maior choque do mundo.
Meus amigos começaram a me ligar. A Sony PlayStation não havia avisado como usaria a faixa. Eu tinha recebido um e-mail em 2014 que parecia golpe, respondi tipo "ah, sim, claro, vocês querem usar a minha música em um grande jogo", mas eles não informaram o título nem a forma de uso.
Descobri ao mesmo tempo em que todo mundo, durante a transmissão do evento da PlayStation. Ver uma música que antes não era valorizada se tornar a mais expressiva da minha carreira é impressionante. Foi algo inesperado, mas muito bonito por ser uma canção tão importante para mim.
Esta não é sua primeira visita ao Brasil. Além dos shows, o que você mais gosta no País?
As pessoas, a cultura, a paixão e a comida. É difícil aproveitar tudo como gostaria porque venho a trabalho durante as turnês. Há prós e contras: você conhece novos países e experimenta a culinária local, mas o tempo é sempre escasso devido à rotina corrida.
Em visitas anteriores, gostei muito de ir a casas de shows locais para ver músicos brasileiros tocando estilos que eu não conhecia. Fizemos muitos amigos aqui que possuem negócios locais ou atuam em outras áreas, e é ótimo reencontrá-los e acompanhar o trabalho deles.
Rio de Janeiro é uma das minhas cidades favoritas. Não iremos ao Rio desta vez, o que é uma pena, pois é uma cidade única. Existe algo especial em cidades que possuem uma certa atmosfera de perigo.
Eu cresci em Chicago, que também pode ser perigosa. Percebo que em lugares assim as pessoas e a cultura são extremamente ricas e vibrantes. A sensação é de que as pessoas vivem com mais intensidade. Espero explorar mais o Brasil e ter mais tempo livre em futuras visitas.
Outra experiência marcante foi em Minas Gerais. Fomos para o interior na minha primeira vinda ao Brasil. Fiz dois ou três shows em São Paulo e depois me levaram para uma propriedade rural. O proprietário organiza apresentações intimistas para cerca de trinta pessoas: acampamos, ele cozinha ao redor da fogueira, tocamos música e fazemos passeios a cavalo à noite sob as estrelas, passando por colinas e matas. É uma das minhas melhores memórias.
Você inclusive fez uma tatuagem aqui no Brasil, certo? Um sabiá...
Exatamente! Na minha primeira vinda, ouvi o canto desses passarinhos e perguntei o que era. Depois dos shows… vocês são a plateia mais apaixonada que já vimos. Ver sua música ser acolhida dessa forma em uma cultura diferente, do outro lado do mundo, onde o inglês não é o idioma nativo, demonstra a força da música e da conexão humana. Após a apresentação, conversei com centenas de pessoas que compartilharam o impacto das minhas músicas em suas vidas. Foi um momento perfeito, e eu precisei registrar essa experiência com a tatuagem.
Serviço
Shawn James em São Paulo
- 07 de agosto (sexta-feira)
- Cine Joia
- Abertura das portas: 19h30; Show: 21h
- Ingressos disponíveis no site da Livepass
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