Vitor Kley e as músicas que sobram dos grandes álbuns: 'Talvez seja tão interessante quanto o que foi lançado'
Cantor lança "O Que Sobrou das Pequenas Grandes Coisas", deluxe com cinco inéditas gravadas em casa, e diz que prefere o projeto ao álbum original
O que sobrou de Abbey Road (1969), dos Beatles? E de The Dark Side of the Moon (1973), do Pink Floyd? Ou de Thriller (1982), de Michael Jackson? Vitor Kley sempre se fez essa pergunta. Sempre quis saber o que ficou nas sessões desses discos gigantes, o que não entrou no corte final, o que poderia ter sido tão interessante quanto as músicas que todo mundo conhece hoje. "Talvez seja tão interessante quanto certas coisas que a gente conhece hoje, que foram lançadas, que foram para o mundo, ou não", reflete o cantor em entrevista à Rolling Stone Brasil.
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No caso dele, tinha 31 músicas. As Pequenas Grandes Coisas (2025), seu quarto álbum de estúdio, recebeu 11. Ficaram 20 de fora. Entre essas, havia músicas completas, interlúdios, introduções e partes mais instrumentais. E, desde o princípio do álbum, Vitor e a equipe já sabiam: "Pô, vai ter coisa que vai sobrar. E o que nós vamos fazer com isso?".
A resposta veio antes mesmo do álbum sair: um ano depois, mais ou menos, do lançamento, vamos botar essa sobra no mundo. "Essa sobra entre aspas, né? Porque, cara, na verdade, eu talvez achei tão interessante quanto as próprias que foram selecionadas para o álbum".
Das 20 músicas que ficaram de fora, Vitor escolheu cinco. Produziu elas valendo. E agora, em abril de 2026, lança O Que Sobrou das Pequenas Grandes Coisas (2026), um deluxe que não segue a fórmula "tradicional" — uma versão ao vivo aqui, um remix aqui e uma demo para encher espaço. Só as músicas que não entraram, finalizadas como se sempre tivessem pertencido ao álbum.
https://www.youtube.com/watch?v=XqV69b8S7_0
Sem taxímetro rodando
Mas o processo foi diferente. Vitor não voltou para o estúdio profissional onde gravou o álbum original. Gravou em casa, no estúdio embaixo do quarto. E chamou a banda que toca com ele na estrada: Léo Beltrão, Guto Vieira e Peter Ferreira. Mais o amigo Victor Amaral, engenheiro de gravação de Jundiaí, que já trabalhou com Lagum e Chitãozinho & Chororó.
"A gente se divertiu, cara. Era como se tivesse juntado os brother, mas que são profissionais, incríveis. E, velho, vamos curtir. Não tem taxímetro rodando, não tá ali cobrando horas de estúdio. Se a gente queria apertar o play, ou jogar Tony Hawk's Pro Skater (1999), a gente parava, jogava e depois voltava a gravar".
A diferença estava na ausência de pressão, na possibilidade de errar, de tentar de novo, de parar para jogar videogame e voltar quando a vibe estivesse certa. "Acho que isso passou muito nas músicas. Por isso que talvez eu prefiro até mais do que o próprio álbum".
Ser humano tocando
As músicas já tinham pré-produções que Vitor havia feito em casa, mais digitais, via MIDI. Mas, na hora de gravar a edição de luxo, a decisão foi clara: "Pô, mas tá animal isso aqui. Vamos gravar agora nós tocando, vamos botar o ser humano nisso".
Bateria real, baixo real, guitarra real. Arranjos de piano gravados com atenção. Vozes captadas com calma, sem a pressa das pré-produções onde ele gravava rápido só para não perder as ideias. "Vamos gravar uma bateria, o baixo, a guitarra, fazer os arranjos de piano valendo e gravar as vozes com mais atenção".
E, num mundo cada vez mais digital, cada vez mais dependente de inteligência artificial, Vitor fez questão de remar contra a maré. "A gente deu muito valor para tirar timbre dos instrumentos, gravar com atenção: isso aqui é com a Les Paul, isso aqui é com som acústico, isso aqui no amplificador, isso aqui no Kemper com a simulação. É meio à moda antiga, mas é legal sentir que o ser humano tá ali". As músicas se transformaram. Cresceram, mas, como ele mesmo explica: "O principal a gente não deixou ir embora… a essência".
https://www.youtube.com/watch?v=iAYfDSQyopM&pp=0gcJCdQKAYcqIYzv
Última dança
O Que Sobrou das Pequenas Grandes Coisas (2026) funciona como despedida. O álbum original começa com a criança interior — o Eric, nome do meio de Vitor — dizendo: "Cara, não esquece de mim". Até a sombra da capa: a sombra da criança é maior que a do adulto. E aí ele conta aquela narrativa, entre coisas reais da vida real e coisas lúdicas que uma criança pensa.
Agora, na edição de luxo, a criança olha pela janela, olha pela porta que aparece na arte, vê a última nuvem no céu e fala: "Olha, eu acho que eu tô pronto para ser livre. Eu vou atravessar essa porta e vou me jogar no mundo".
"Então, O Que Sobrou das Pequenas Grandes Coisas (2026), além de ser um conceito coerente amarrado, é uma despedida mesmo: 'Cara, agora é hora de entregar para o mundo'. É a última dança das Pequenas Grandes Coisas (2024)".
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A narrativa se completa pelas cores usadas — o azul, o céu —, pela direção criativa de Rafael Correa, pela ilustração de Amanda Emerim. Tudo mantendo coerência com o álbum original. "Sou muito feliz. Essa fase foi muito legal, mas chegou a hora de dar tchau".
Mas, afinal, o que sobra disso tudo?
Vitor sente que o que satisfaz agora é fazer música, contar as histórias que ele quer contar, colaborar com as pessoas em que acredita, dar oportunidade para outras pessoas botarem DNA delas nas criações. "Eu evoluí nessa verdade criativa, nessa liberdade artística. E vou te falar: não tem nada no mundo que me dê mais paz do que isso. Entrar no estúdio, fazer um show e estar fazendo o que eu gosto, da maneira que eu e os companheiros e companheiras decidiu fazer".
E essa liberdade aparece nas cinco músicas da edição de luxo. "Abalo Psicológico", com Joyce, abre com leveza. "O Vento" traz potência, resiliência e busca por paz interior. "Da Minha Natureza" segue introspectiva, madura. "Desacostumei" reflete sobre perdas. E "Vivão e Vivendo" fecha com horizonte mais luminoso, olhar otimista para o futuro.
O que sobrou dos grandes clássicos da música? Não temos como saber. Mas, agora, a gente sabe o que sobrou de As Pequenas Grandes Coisas (2024). São cinco músicas gravadas em casa, no estúdio embaixo do quarto, com a banda da estrada, entre partidas de Tony Hawk's Pro Skater (1999) e sem taxímetro rodando. Músicas que Vitor talvez goste até mais que do álbum original. Músicas que completam a despedida da criança interior, que olha a última nuvem no céu e se joga no mundo. "Acho que a galera vai curtir essa continuação, esse golpe final", resume.
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