Todos do Big 3 — Kendrick Lamar, Drake e J. Cole — lançaram seus álbuns, mas, afinal, qual é melhor?
Os três lados do Power Trio do rap finalmente responderam musicalmente ao que aconteceu em 2024
Em 2024, Drake e Kendrick Lamar travaram a batalha do hip-hop mais assistida desde Tupac e Biggie. Tudo começou em "First Person Shooter", do próprio Drake, em que ele declarou Cole e Kendrick como seus únicos iguais. Kendrick não gostou do enquadramento e respondeu com "Like That", e a coisa escalou rápido. A troca de golpes culminou em "Not Like Us", com K-Dot chamando Drizzy de pedófilo, e "Meet the Grahams", atacando a família do canadense. Drake respondeu com "Family Matters" — talvez a melhor das diss —, mas o dano já estava feito. Kendrick venceu, não só no debate dos fãs, mas nos números, nos Grammys e no Super Bowl de 2025, em que cantou "Not Like Us" para 100 milhões de pessoas, ao vivo — com direito a um sorrisinho maldoso, olhando diretamente para a câmera. No meio de tudo isso, J. Cole entrou do lado de Drake, lançou "7 Minute Drill" contra Kendrick, mas, dias depois, recuou e pediu desculpas publicamente, tirou a música do ar e saiu da briga. (Foi um dos momentos mais constrangedores da carreira dele.) A internet não perdoou. E então, com a poeira baixando, os três foram ao estúdio — em momentos diferentes, com motivações diferentes. O resultado foram os álbuns que estamos discutindo agora.
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Kendrick foi o primeiro a responder musicalmente. No fim de 2024, lançou GNX (2025) do nada, sem aviso: 12 faixas em 44 minutos. Poderia ter feito "O Disco", grandioso, o capítulo definitivo sobre a vitória, mas fez um trabalho para seus amigos, com um Kendrick mais acessível, menos artístico em sentido conceitual, mas com a mesma precisão lírica de sempre. "Luther", com SZA, é uma das músicas mais bonitas que ele já gravou. "squabble up" e "tv off" são hits de verdade, e "reincarnated" tem um dos melhores storytellings recentes. É deliberadamente um presente para a Costa Oeste, mas soa menor do que qualquer trabalho anterior (de To Pimp a Butterfly à Section.80). Ainda assim, é um disco coeso, intencional e, sobretudo, livre. Kendrick fez o que quis porque podia, e isso aparece em cada faixa.
Meses se passaram e, no começo de 2026, J. Cole finalmente lançou The Fall-Off — disco prometido há anos que chegou carregando o peso de tudo o que aconteceu. O que ele fez em 24 faixas e quase duas horas é raro: uma autobiografia completa, honesta e tecnicamente impecável de uma carreira inteira. O conceito gira em torno de duas viagens para Fayetteville, sua cidade natal, uma aos 29 e outra aos 39 — e ele honra esse conceito do começo ao fim. O tema central não é raiva, não é revanche, não é celebração vazia: é aceitação. Cole entendeu que está na descendente, que a nova geração ocupou os espaços que eram seus e, em vez de brigar com isso, fez as pazes. "Safety" é formada por mensagens de voz de amigos da cidade, com esses amigos falando sobre como suas vidas mudaram desde que ele estourou como rapper. "I Love Her Again" personifica o hip-hop como mulher e narra o relacionamento de Cole com o gênero com humor — um pouco clichê, mas ainda válido. Em "Quik Stop", ele narra o encontro com um fã que o fez lembrar por que é apaixonado por rap. Construções GNX não precisa e Iceman nem tenta.
Falando nele, Drake foi o último a chegar. Na madrugada de 15 de maio de 2026, lançou não um, mas três álbuns simultaneamente — Iceman, Habibti e Maid of Honour — numa estratégia que mistura teatro, desespero e ambição em partes iguais. Iceman, o principal dos três — e que responde a tudo isso, tendo em vista que os outros dois seriam para, supostamente, se livrar do contrato com a UMG —, começa bem: "Make Them Cry" é o Drake mais vulnerável em anos, falando do câncer do pai, da solidão do sucesso, dos amigos que viraram as costas. Por alguns minutos, você lembra por que ele se tornou Drake. E então, o disco cai no piloto automático. Dezoito faixas de raiva distribuídas em tantas direções — Kendrick, Jay-Z, Rick Ross, LeBron James, J. Cole, Dr. Dre, DJ Khaled, A$AP Rocky — que nenhum ataque individual fica na memória. Você termina Iceman com a sensação geral de um homem de 39 anos que ainda não aceitou que perdeu, cercado de processos e acusações, confundindo quantidade com argumento. Mas há coisas genuinamente boas em Iceman que merecem crédito. A produção de Boi-1da e Conductor Williams empurra Drake para um território mais cru e minimalista — longe do apelo às tendências de Certified Lover Boy (2021) ou For All the Dogs (2023). "Whisper My Name", com flauta sinuosa e bateria pesada, soa como uma marcha pelo deserto. "What Did I Miss?" mistura trombetas e flautas com grandiosidade genuína. "National Treasures" tem sintetizadores sinistros que mudam no meio para uma batida industrial caótica. São beats que exigem atenção, que não deixam Drake relaxar — e, quando a produção o força a trabalhar, ele entrega. Mesmo assim, o forte do canadense nunca foi sobre lírica ou construções narrativas complexas. Seu talento sempre esteve na melodia, no refrão grudento, na capacidade de fazer uma música simples parecer inevitável. E, em Iceman, ele abre mão exatamente disso em nome do revanchismo. O resultado é um Drake mais rapper do que nunca — e, paradoxalmente, menos Drake do que nunca. Por isso, abrindo o ranking, ele fica com o terceiro lugar.
Sobram GNX e The Fall-Off — e aqui a disputa fica interessante. GNX entrega um Kendrick muito bom em tudo que tenta. A lírica é precisa, o flow é impecável, a produção serve ao propósito. Mas o propósito é limitado. GNX não tem conceito no sentido profundo. É uma coleção de músicas muito boas feitas por alguém que não precisava provar nada. E é exatamente aí que The Fall-Off se separa. A diferença mais chamativa entre os dois está no uso das referências. GNX homenageia a Costa Oeste de forma ampla e afetiva. The Fall-Off vai fundo. Cole constrói o disco sobre alicerces do rap que o criou e os honra com precisão cirúrgica: Mobb Deep, Nas, DMX, Common, The Isley Brothers, Marvin Sapp e OutKast — todos são honrados.
Em relação às participações, The Fall-Off foca em nomes consolidados: Erykah Badu, Future e Tems, artistas que entendem o peso do que Cole está fazendo e entram no espírito dele. GNX faz o oposto —, mas é igualmente coerente. Kendrick passa o disco inteiro ao lado da nova geração: Dody6, Peysoh, Hitta J3, Young Threat. Nomes que a maioria do público não conhecia antes do álbum. No fundo, os dois álbuns compartilham um espírito parecido: os dois olham para o passado e para o futuro ao mesmo tempo; ambos usam as colaborações para dizer algo sobre o momento da carreira. A diferença é que Cole está encerrando um ciclo e convida quem viveu esse ciclo com ele. Kendrick está inaugurando o próximo e convida quem vai viver o que vem depois.
Entretanto, Jermaine fez o melhor álbum que podia, já Kendrick segurou a mão. O flow de Cole ao longo de The Fall-Off não tropeça uma vez em 24 faixas. O disco 29 é fome pura — agressivo, urgente, cada sílaba no lugar certo. O disco 39 é mais lento, mais contemplativo, e Cole ajusta tudo: dicção, cadência, respiração. J. Cole perdeu a briga, mas ganhou no projeto. Saiu da treta sem glória, foi chamado de fraco, virou meme, e foi fazer o disco da vida. Kendrick ganhou tudo o que havia para ganhar e usou GNX para respirar, o que é completamente legítimo. Drake gastou dois anos de silêncio para responder a uma derrota com quantidade em vez de qualidade. Quando os três forem revisitados daqui a uma década, a narrativa vai ser a mesma: Cole chegou atrasado, calou a boca quando importava e entregou o trabalho. The Fall-Off é o melhor álbum do Big 3.
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