Hit em 2 segundos? Entenda a nova pressão do streaming
Compositora expõem bastidores da era viral
As letras de um hit assumiram protagonismo absoluto na música digital. Para a compositora Maegan Cottone, o peso emocional das palavras é decisivo na conexão com o público.
"As letras são muito importantes para a música moderna, porque as pessoas sentem isso profundamente - e têm muita dificuldade em expressar isso … as letras podem ser muito profundas, e nos conectamos muito bem com elas." Esta declaração resume como o texto se tornou peça central no consumo contemporâneo.
Com experiência ao lado de Kylie Minogue, Little Mix, Sigala e Becky Hill, Cottone levou essa discussão ao palco do Music Ally Connect, evento que reuniu profissionais da indústria para analisar o impacto das letras na experiência de streaming.
Cottone: 'Você tem que alcançar alguém em dois segundos!', diz sobre hit
Ao lado de John Oberbeck, executivo do YouTube Music, e com mediação de Rio Caraeff, copresidente da Musixmatch, o painel explorou como palavras, algoritmos e atenção caminham juntos na era digital. Oberbeck destacou o valor das letras como ferramenta de construção de universo artístico para a criação de um hit.
Caraeff reforçou: "As letras das músicas são uma poderosa superfície visual para envolvimento e atenção". E completou: "Então você está ouvindo música, mas também está assistindo à música. Você está vivenciando a música, você está acompanhando a música. As letras são um veículo para isso."
Para Cottone, o desafio atual vai além da criatividade tradicional. Ela explicou que encara cada faixa como narrativa completa: "Eu sempre penso nisso como um filme de três minutos". No entanto, a pressão por viralização é constante. "Tudo bem, entendi o objetivo, mas todo mundo está tentando fazer isso", afirmou. E detalhou: "Talvez em uma sessão de DJ que busca viralização, você precise encontrar uma frase de efeito e acertar a pessoa em dois segundos. Em dois segundos!"
Outro ponto sensível envolve testes prévios nas redes sociais. "Outra dificuldade é que você pode compor músicas com outras pessoas, e talvez o artista diga: 'Gostei muito disso, posso testar nas redes sociais?'" O dilema aparece rapidamente: "Você fica tipo, 'bom, é muito bom, sei lá!' . Porque se não viralizar, já era. O artista não vai lançar, você não pode apresentar para mais ninguém e ninguém recebe até o pagamento final … como compositor, a gente não recebe para ir a uma sessão de gravação"
Ela acrescentou: "Então, esse tipo de coisa, queimar músicas, é mais um desafio para um compositor hoje em dia, porque você está procurando aquela pequena semente, aquele pequeno gancho que pode dar certo. E ninguém sabe realmente o que é isso."
Do lado das plataformas, Oberbeck ponderou: "Não precisamos de todo esse contexto e toda essa história para que seja algo como 'Ei, Maegan, por favor, conte-nos tudo sobre cada música que você já escreveu e, por favor, disponibilize tudo isso em cada plataforma de streaming'. Isso é uma taxa injusta para muitos artistas". Ele completou: "Queremos garantir que haja um equilíbrio entre dar oportunidade a essa voz autêntica que vem do artista e, ao mesmo tempo, poder contar com o apoio da comunidade de fãs." Para ilustrar, afirmou: "Se você observar o mundo da moda, verá que não somos nós que dizemos a Christian Dior o que queremos vestir! É ele quem nos diz."
No encerramento, Cottone reforçou a importância da autenticidade: "Faça a música que você quer fazer, porque quando você tem pessoas ao seu redor dizendo 'soa assim, diz isso', tudo fica artificial. Eu adoro grupos femininos e masculinos, mas não estou buscando verdade e autenticidade neles, sabe?" E concluiu: "Mas para quem quer ser artista… se você quer dizer algo e criar à sua maneira, você tem que fazer isso. Se você olhar para a moda, nós não dizemos a Christian Dior o que queremos vestir! Ele nos diz. "
Ela ainda brincou sobre um refrão viral: "Ah, não? Isso não é uma música. É uma legenda para o seu post 'Meu filho acabou de se cagar a caminho da escola'. Desculpe, estou sendo um pouco grosseira! Mas acho que você tem que deixar a arte guiar. Somos apenas um instrumento, sabe…"
Ao final, Caraeff resumiu: "Isso me parece muito verdadeiro. Todos nós conseguimos sentir quando algo é autêntico, quando está repleto de entusiasmo ou compaixão genuínos… simplesmente sabemos que parece real, que podemos nos identificar com aquilo. E também conseguimos perceber quando algo é forçado, quando não é autêntico. Aí soa falso, e não nos conecta com a alma." E permanece a reflexão: "Você fica tipo, 'bom, é muito bom, sei lá!' . Porque se não viralizar, já era. O artista não vai lançar, você não pode apresentar para mais ninguém e ninguém recebe até o pagamento final … como compositor, a gente não recebe para ir a uma sessão de gravação".