Sobrevivente do Emerson, Lake & Palmer usa tecnologia para ressuscitar a banda: 'Algo único'
Carl Palmer, virtuoso da bateria que ajudou a tornar o grupo de rock uma referência no gênero, volta ao Brasil com show especial que revive os falecidos Greg Lake e Keith Emerson
"Bem-vindos de volta, meus amigos, ao show que nunca termina", diz uma das letras mais famosas da banda britânica Emerson, Lake & Palmer, oriunda da ambiciosa faixa Karn Evil 9, uma suíte progressiva do álbum Brain Salad Surgery (1973) que trazia influências da música clássica e do jazz ao longo de 29 minutos.
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Mais de 50 anos depois, a frase ganha novo significado para o baterista Carl Palmer, o único sobrevivente do ELP, que carrega o legado do grupo após as mortes do cantor/baixista Greg Lake e do tecladista Keith Emerson, ambas ocorridas em 2016.
De volta ao Brasil após oito anos, ele traz a São Paulo um show "único no mundo", no qual "ressuscita" os ex-colegas por meio da tecnologia. Basicamente, Palmer toca ao vivo com sua banda atual, enquanto telões em sincronia exibem Lake e Emerson em um concerto realizado em 1992, no Royal Albert Hall, em Londres, tocando sucessos como Lucky Man e From The Beginning. Não são recriações por IA, mas sim imagens recuperadas e áudios remixados.
O ELP foi interrompido em 1979, reativado nos anos 90 e, na mesma década, chegou ao fim em meio a uma série de desavenças entre os integrantes. Em 2010, o trio fez uma apresentação isolada em um festival na Inglaterra, mas a reunião não avançou. Em 2026, Emerson, Lake e Palmer finalmente conseguem estar no mesmo palco - mas só por causa de técnicas digitais.
Palmer, o virtuoso das baquetas que também imprimiu seu ritmo nos grupos The Crazy World of Arthur Brown, Atomic Rooster e Asia, deu detalhes do novo espetáculo em entrevista feita por videoconferência. Leia a conversa completa abaixo.
Como o senhor criou esse novo show? Há alguma IA envolvida para recriar as partes de Keith e Greg?
As gravações que usamos no show são todas do Royal Albert Hall, de um DVD lançado oficialmente, mas que não vendeu muito globalmente, cerca de 10 a 12 mil cópias. Poucas pessoas viram essas imagens. Ao revisitar o material, percebemos que algo jogava a nosso favor: as faixas de áudio foram gravadas separadamente das imagens. Isso significava que eu podia remover alguns instrumentos e adicionar bateria ao vivo no local onde estou tocando. Além disso, houve cerca de 8 a 11 semanas de edição, porque tive que me retirar de todos os frames para poder me inserir ao vivo. Temos três telas: Greg à esquerda, Keith à direita e eu no meio. Isso não tem nada a ver com IA. Usamos IA em apenas uma faixa, chamada Tiger in a Spotlight, para melhorar algo que não foi gravado no Royal Albert Hall. No show, toco com Greg e Keith em nove músicas juntos. Com a minha banda, toco coisas como Tarkus e Hoedown. Tudo é cuidadosamente costurado e foi tratado da melhor forma possível. A mixagem é feita de forma tão detalhada que, por exemplo, temos outro órgão Hammond e outro alto-falante Leslie conectados no palco. O som original do órgão que Keith tocava é enviado para esse outro Hammond, criando um som adicional, permitindo mixarmos tudo em tempo real. Não é um holograma com playback, o que eu acho muito artificial. São Greg e Keith no auge.
Parece um processo muito elaborado. Eu sempre fiquei intrigado com o quão complexas são as músicas do ELP — talvez porque eu não seja músico. Mas eu gostaria de entender como era a construção dessas faixas épicas, algo como 'Karn Evil 9' ou 'Fanfare for the Common Man'. Como compunham?
É muito difícil responder exatamente como uma música era construída, porque havia muitos elementos. Não era tudo escrito de uma vez só, era feito em partes. Escrevia-se um trecho aqui, outro ali, e depois buscávamos um som que fizesse aquela seção funcionar. É realmente muito difícil explicar. Vale lembrar que o [poeta] Peter Sinfield também esteve envolvido, especialmente nas letras.
Olhando para trás, quando perceberam que a música progressiva estava se tornando algo grande? Não apenas grande, mas também atraente para os músicos? Foi antes do ELP, talvez com o King Crimson?
O Crimson já era um pouco progressivo, com certeza. O The Nice também era e fazia adaptações de música clássica. Acho que o ELP levou isso mais adiante, usando essas adaptações e estabelecendo a base do prog ao gravar uma peça chamada Tarkus, de 15 minutos, que todo mundo passou a ouvir e a querer tocar. Também usamos os instrumentos mais modernos da época e acho que isso nos deu uma vantagem. Ainda assim, eu gostaria de dizer que não considero o ELP apenas uma banda de prog. Éramos mais ecléticos do que isso, porque tocávamos diferentes estilos musicais. Fizemos adaptações de música clássica, peças progressivas e também baladas como From the Beginning e Lucky Man. Acho que nos chamar apenas de uma banda de prog é um pouco limitante. Nós começamos dentro do movimento progressivo e fomos pioneiros, mas isso não foi tudo o que fizemos.
E o que vocês mais ouviam naquela época, nos anos 70? Ouviam discos do Yes ou do Pink Floyd? Ou mais música clássica?
Nós nunca ouvíamos Yes, com certeza, nem Jethro Tull. Sabíamos o que eles estavam tocando, mas não era algo que eu colocava para ouvir em casa. Ouvíamos música clássica e também Beatles ou Simon & Garfunkel. Gostávamos de coisas que tinham qualidade de produção. O Pink Floyd era muito bom, The Wall é uma obra-prima, mas não era algo que ouvíamos em casa. Quanto ao Jethro Tull, eu também nunca os considerei uma banda de prog. Isso era apenas um rótulo criado por jornalistas. Na época, as pessoas perguntavam: 'o que é música progressiva?'. E alguns jornalistas diziam: 'sabe o que é música progressiva? É quando tem uma introdução de 20 segundos antes de você ouvir a música de fato'. Isso não é verdade, mas era assim que eles definiam.
Já se passaram 10 anos desde que Greg e Keith morreram. Como o senhor superou essa perda dupla? E como vê hoje o seu papel em manter o legado da banda?
Aquele período foi muito difícil, porque o Keith morreu em março, o Greg em dezembro e o John Wetton, que tocou comigo na banda Asia, morreu em janeiro do ano seguinte. Então, foi uma fase bem dura, perdi pessoas muito importantes. Para mim, a questão era o que fazer a partir dali. Comecei a analisar a ideia de usar hologramas com meu empresário. Chegamos a trazer empresas do Canadá para avaliar, mas não ficamos convencidos de que era o caminho certo. O que estamos fazendo agora, eu acredito, é o melhor. Tenho o total apoio das famílias Emerson e Lake para seguir com esse projeto. Sinto que essa é a melhor forma de homenageá-los e acredito que eles gostariam de ser lembrados assim. É o único show no mundo fazendo algo assim, porque não são hologramas. É algo muito especial, realmente singular.
Carl Palmer - An Evening with Emerson, Lake & Palmer
- Quando: 30 de maio de 2026
- Onde: Teatro Bradesco (Rua Palestra Itália, 500 - Perdizes)
- Preços: R$ 127 a R$ 172
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