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Como o tempo fez de 'Amnesiac' mais que um álbum de sobras do Radiohead

Gravado nas mesmas sessões de gravação que 'Kid A', disco era a segunda metade de um planejado lançamento duplo que só se realizou em 2021

30 mai 2026 - 07h09
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O quarto álbum de estúdio do Radiohead, Kid A (2000), é visto por público e crítica com um dos álbuns de rock mais importantes do século 21. Amnesiac (2001), fruto das mesmas sessões de gravação, não causou a mesma reação na época de seu lançamento.

Radiohead — 'Amnesiac'
Radiohead — 'Amnesiac'
Foto: reprodução / Rolling Stone Brasil

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Originalmente, o plano era lançar tudo como um disco duplo, mas a ideia logo foi descartada devido à densidade do material. Entretanto, por Amnesiac ter saído depois, a percepção do público e crítica na época era que se tratava de um álbum de sobras.

Essa impressão perseguiu o disco por muitos anos, mesmo quando a realidade não era essa. Tratava-se de uma obra com identidade própria, como todo lançamento do Radiohead.

https://open.spotify.com/album/1HrMmB5useeZ0F5lHrMvl0

Sessões de gravação

O Radiohead fechou o século 20 entre as bandas mais importantes do rock. Seu álbum OK Computer (1997) foi saudado como uma obra prima existencial que capturava o mal-estar da sociedade daquela época: a desumanização causada pela tecnologia e o capitalismo. O sucesso foi tamanho que os integrantes não gostaram da experiência - especialmente o vocalista e guitarrista Thom Yorke.

Quando chegou a hora de trabalhar no sucessor, o cantor e principal compositor da banda estava completamente desinteressado em rock ou qualquer forma de música que envolvesse guitarras. Começou um processo árduo no qual os outros integrantes do Radiohead - Jonny Greenwood (guitarra), Ed O'Brien (guitarra), Colin Greenwood (baixo) e Philip Selway (bateria) - desconstruíram não só o som, mas também seus próprios papéis e responsabilidades dentro do grupo.

Nisso, a banda começou a se influenciar por rock experimental alemão dos anos 70, um movimento comumente chamado de krautrock, além de música eletrônica, compositores clássicos contemporâneos e jazz. Em entrevista à Rolling Stone EUA na época do lançamento, Phil Selway comentou sobre a identidade de ambos os álbuns:

"Existem dois pontos de vista ali. Uma tensão entre a abordagem antiga de todos nós estarmos no mesmo lugar tocando juntos e o outro extremo de fabricar música no estúdio. Acho que Amnesiac é mais forte no quesito arranjo de banda. Em alguns aspectos, algumas das melhores músicas dessas sessões estão em Amnesiac."

Outro lado da moeda

Enquanto Kid A soa gélido, Amnesiac é suntuoso. Músicas como "Pyramid Song" e "You and Whose Army?" são construídas em cima de pianos com forte influência jazz - a sequência de acordes da primeira já foi comparada a "Olé", composição de John Coltrane - enquanto "I Might Be Wrong" se sustenta em cima de um riff de guitarra grooveado enquanto a percussão parece agir como acento e não fundação.

"Dollars and Cents" se desenrola na tensão entre o groove tenso da banda, reminiscente do conjunto alemão Can, e o arranjo orquestral feito por Jonny Greenwood, executado pela Orchestra of St. John's. O momento mais perverso talvez seja a regravação de "Morning Bell", que já havia aparecido em Kid A. Em Amnesiac, ela se torna uma cantiga de ninar sem abrir mão do desconforto.

Quanto às letras, Thom Yorke aqui explora temas não de desumanização, mas de pequenas resistências contra as maneiras que a sociedade moderna trata as pessoas. Enquanto seu álbum irmão pode ser interpretado como niilista, é possível interpretar Amnesiac como absurdista. Coisas acontecem, independente de serem boas ou ruins. Os personagens seguem em frente. Em entrevista à Mojo Magazine (via Citizen Insane), o vocalista atribuiu especificamente a inspiração de "I Might Be Wrong" à sua então companheira, Rachel Owen:

"A canção vem muito de algo que minha companheira Rachel me falou, como faz o tempo inteiro: 'Tenha orgulho do que fez. Não olhe para trás e continue em frente como se nada tivesse ocorrido. Deixe as coisas ruins no caminho'."

Legado

Apesar de ser tratado como uma obra menor quando saiu, ao longo dos anos uma parcela cada vez maior de fãs começou a concordar com a opinião expressada por Philip Selway à Rolling Stone EUA em 2001. Amnesiac passou a ser visto não como um irmão menor de Kid A e sim seu gêmeo.

Tanto que o Radiohead esperou o aniversário de 20 anos do disco para cumprir seu plano original. A banda comemorou a ocasião com Kid A Mnesia (2021), uma reedição de ambos os trabalhos, juntos.

Rolling Stone Brasil Rolling Stone Brasil
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