Scissor Sisters se diverte e evolui
Ainda é de tarde, mas as venezianas do estúdios estão completamente fechadas, o que parece perfeito para um ensaio do Scissors Sisters. A noite combina com a banda, que começou tocando na madrugada em Manhattan e Brooklyn, sempre com a ideia de que as melhores coisas sempre acontecem na escuridão da noite, quando tudo, ou todo mundo, parece possível.
E mesmo no ensaio, Jake Shears, vocalista e principal compositor do grupo, esbanja animação dançante, rebolando e saltitando enquanto interpreta as canções de Night Work, o terceiro álbum da banda. "Vou te matar, vou matar você e esses passinhos de dança manés", diz sua companheira como vocalista e líder, Ana Matronic, antes de também começar a dançar ao ritmo disco. "Você pode encontrar sua vida na vida noturna", canta a banda, que inclui o polivalente instrumentista Babydaddy, o baixista Del Marquis e o baterista Ran Real.
Night Work, que chega às lojas na terça-feira, é um retorno às raízes mais humildes do Scissors Sisters nas casas noturnas. O álbum é propelido por baixos dançantes, unidade temática e canções que Shears, nascido Jason Sellards, define como "malévolas, sinistras e soturnas". A banda continua a divertir, mas é uma diversão mais suja.
"É um álbum noturno", diz Babydaddy, ou Scott Hoffmann, na sala de espera do estúdio depois do ensaio. "Queríamos retornar àquela sensação, ao que costumávamos fazer, ou seja, tocar no Luxx às duas da manhã". (O Luxx é uma casa noturna que já fechou, em Williamsburg, Brooklyn, onde era parte da também extinta cena eletroclash.) Foi lá que o Scissors Sisters desenvolveu sua estética como uma banda completamente identificada com o cenário gay de Nova York. E é isso que eles continuam a ser.
Para um grupo que começou tocando para um nicho muito específico, o som deles sempre foi amplo. Agora, depois de quase 10 anos de carreira, a Downtown, sua nova gravadora, espera que Night Work ofereça nova oportunidade para que o grupo se estabeleça diante da audiência de massa norte-americana, que até o momento vê a banda mais como novidade do que como atração capaz de lotar estádios.
Em uma era pós-Lady Gaga e Adam Lambert, com o dance pop e a provocação sexual invadindo a música comercial, "talvez a maré tenha virado", diz Keith Caulfield, analista e gerente das paradas de sucessos da revista Billboard. Ele enfatizou o "talvez",
John Deutsche, presidente-executivo e do conselho da Downtown, disse que o objetivo era criar nos Estados Unidos o mesmo sucesso milionário de vendas conquistado pela banda no exterior, ainda que ele reconhecesse que "essa é uma meta muito ambiciosa".
"Estamos tratando a banda como se fossem artistas novos mas já dotados de uma base firme e leal de fãs", afirmou. "E por isso temos um bom terreno ainda a avançar".
A Downtown obteve sucesso em promover músicos que cruzam gêneros, a exemplo de Gnarls Barkley e Santigold. "Procuramos por músicos que tenham uma visão única, concisa", disse Deutsch. "O novo álbum é uma declaração muito forte de uma banda com lugar único na paisagem".
Com a precisão testada em mercado de um analista político, ele acrescenta que "a campanha será muito longa e envolverá atender com atenção ao nosso núcleo e alargar a audiência por meio de modos múltiplos de distribuição. É um disco altamente licenciável".
Nada disso preocupava a banda quando seus integrantes se uniram pela primeira vez, em 2001. "Eu imaginei que seria algo de divertido a fazer e que jamais tocaríamos em qualquer outro lugar a não ser os bares de Nova York", disse Matronic, 35, em um almoço recente. "Achei que fôssemos esquisitos demais, gays demais, basicamente". (Todos os membros da base da banda são gays. Matronic recebeu as primeiras apresentações de Shears, 31, e Babydaddy, 33, em seu show como drag queen na região central de Manhattan.)
A visão glam do grupo e o som electropop logo encontraram audiência, no entanto, especialmente depois que eles produziram uma surpreendente versão em falsete de Comfortably Numb, do Pink Floyd.
O disco de estreia, Scissor Sisters, lançado pela Universal em 2004, atraiu comparações com Elton John e os Bee Gees e vendeu 320 mil cópias nos Estados Unidos, de acordo com a Nielsen SoundScan. No Reino Unido, foi o disco mais vendido do ano, com 2,7 milhões de cópias, e conquistou muitos prêmios no Brit Awards. O segundo álbum, Ta-Dah, passou quase um ano nas paradas britânicas, e a banda ganhou destaque no circuito de shows, com suas apresentações exageradas (eles recorriam a nudez e figurinos absurdos anos antes de Lady Gaga.)
Nos Estados Unidos, o disco vendeu apenas 181 mil cópias, no entanto. "A Europa recebe muito melhor a música eletrônica, o pop extravagante", diz Casey Spooner, da banda Fischerspooner, amigo do pessoal do Scissor Sisters e músico de formação parecida.
Em entrevista por telefone, o amigo e parceiro Elton John diz que "acredito que a coisa gay tenha atrapalhado um pouco".
Se faltava foco criativo ao segundo disco -"um disco quebradiço", diz Shears, e seus colegas de banda o definem como "apressado", "desorganizado" e "meio Muppet"-, Night Work representa uma virada importante. É a primeira vez que o Scissor Sisters colabora com um produtor de fora da banda, Stuart Price, de Londres, que trabalhou com Madonna em Confessions On a Dance Floor. Deixar de lado a responsabilidade pela produção, que nos discos anteriores couberam a Babydaddy e Shears, foi uma decisão difícil.
"Sempre nos sentimos seguros trabalhando como unidade, e eu me preocupava por não saber quem era essa pessoa vinda de fora", disse Marquis (Derek Gruen), 32.
"Tínhamos certo orgulho pela produção de nossos discos", disse Babydaddy. "O primeiro foi gravado na sala de meu apartamento".
Mas a essa altura da carreira, Shear diz, "queremos melhorar tudo".
"Evolução total", disse Babydaddy, completando o pensamento do colega. (Os dois costumam se comportar assim.)
"Melhoramos muito", acrescenta Matronic. "Somos músicos melhores agora".
Fora do palco, eles compartilham de uma camaradagem firme desenvolvida em turnês e festas. "Alguém sempre trazia os piores filmes pornô", diz Shears, com um sorriso terno. Também compartilham do gosto por reality shows ruins. Falar sobre The Swan, um reality show de transformação completamente fracassado, causa gargalhadas.
Mas a criação do novo disco foi um sacrifício, ainda assim. Shears compôs dezenas de canções em sua casa de Nova York, mas não estava satisfeito com elas. Decidiu, por capricho, viajar a Berlim e passar a primavera na cidade, curtindo a noite. "Adoro virar noites dançando, sair, ouvir os DJs e curtir a luz estroboscópica", ele disse em entrevista em seu elegante apartamento em Tribeca, entre os livros, discos e os objetos de arte ready-made criados por seu namorado, um artista plástico. "A vida noturna sempre teve lugar no meu coração. É isso que sou, e creio que fiquei meio à deriva nos últimos anos quando deixei de lado esse aspecto da minha vida".
No Reino Unido, ele foi apresentado a Neil Tennant, do Pet Shop Boys, que sugeriu Price como produtor. Price, que tem uma banda e fez uma turnê com o Scissor Sisters, sugeriu que eles abandonassem o material já composto e começassem do zero.
Quando está gravando seu primeiro disco, disse o produtor, o músico muitas vezes tem um emprego horrível, vive em um mau apartamento, "e talvez esteja envolvido em um relacionamento com alguém que não agrada tanto assim. Tudo isso é ótima inspiração para compor". Mas depois dos sucessos, "a pessoa tem um bom apartamento, compra belos quadros, e provavelmente sai com muita gente interessante. No caso do Scissor Sisters, boa parte disso se aplica. E esses elementos não ajudam a compor boas canções".
"O que queríamos no terceiro disco", prosseguiu, "era restaurar algum equilíbrio na situação, sem nos levarmos a sério. Creio que o ponto de equilíbrio do Scissor Sisters sejam ótimas composições com um espírito despreocupado, que fazem o ouvinte sentir que está se divertindo, curtindo os discos". Há referências à disco music e ao rock clássico, mas também a composições menos clássicas, de bandas como Frankie Goes to Hollywood e ZZ Top. "Decidimos tentar prover esse tipo de sabor", disse Price.
O resultado, segundo Elton John, é "um pop disco ao modo dos anos 70 e 80, divertido o tempo todo".
"Esse disco realmente mostra o som que a banda tem ao vivo", a acrescenta.
E ainda que para concorrer na era pós-Lady Gaga o Scissor Sisters esteja adotando um look mais discreto -"Ana não usa mais lagostas vivas na cabeça", diz Shears-, eles continuam forçando os limites, com referências a metedrina, a heterossexuais usados para fins de procriação, e com uma canção toda, Whole New Way, dedicada ao sexo anal. A faixa final, Invisible Light, tem uma fala sombria de Ian McKellen -"nada é melhor que um clima gótico-gay-boatye-Ian McKellen", diz Spooner. "É como uma nova faceta de homossexualismo da qual todos precisamos".
Para a capa do disco, Shears selecionou a foto de um homem com as nádegas tensas, em uma calça de oncinha apertada, trabalho de Robert Mapplethorpe. (O modelo foi Peter Reed, bailarino que morreu de Aids em 1994.)
"Ninguém da banda queria aquela capa", disse Shears. "A gravadora tampouco. Os nossos empresários não a queriam. Diziam que era gay demais, excludente demais, explícita demais". Elton John avalia que "não creio que a escolha os tenha beneficiado".
Perguntado sobre isso, Deutsch, da gravadora, ri. "É uma declaração vigorosa", diz. "Uma provocação". (Para as lojas mais pudicas, há uma versão com a imagem coberta por um carão.) Mas Shears insistiu, diz, porque é um símbolo da era a que o álbum faz referência, e por representar certa devassidão diante do desespero, ou desvantagem ou luz diurna, que ele testemunhou em Berlim e compreendeu como universal. Os demais membros da banda por fim passaram a gostar da foto, e ela se tornou a imagem do cartaz da turnê.
"Não pensamos pequeno", diz Marquis.
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