'Reign in Blood': uma autópsia da obra-prima do Slayer e do thrash metal
Disco lançado em 1986 é o manifesto definitivo do estilo e mantém legado incontornável para a ramificação e compreensão da música extrema
O ano de 1986 foi o epicentro do thrash metal. Diversos expoentes do gênero contribuíram com álbuns que se tornaram clássicos — de Master of Puppets, do Metallica, a Pleasure to Kill, do Kreator, passando por Darkness Descends, do Dark Angel. Entre tantos lançamentos grandiosos, porém, nenhum foi tão cirúrgico, violento e transformador quanto Reign in Blood, do Slayer. Insuperável em sua velocidade, brutalidade e morbidez, o terceiro disco da banda de Los Angeles (EUA) é o manifesto definitivo do estilo.
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Para compreender o impacto de Reign in Blood, é preciso resgatar o cenário fonográfico de meados dos anos 1980. O thrash emergia do circuito de fitas cassete para o mainstream, liderado por Metallica e Megadeth, mas o Slayer continuava caminhando na direção oposta à domesticação comercial.
Nada de aliviar seu repertório com introduções acústicas, mudanças de andamento pretensiosas ou melodias mais acessíveis. Kerry King (guitarra), Jeff Hanneman (guitarra), Tom Araya (baixo/vocal) e Dave Lombardo (bateria) mantiveram-se radicais — atrelados às raízes do movimento —, privilegiando agressividade, contestação e raiva de espírito.
https://open.spotify.com/album/2DumvqHl78bNXuvU9kQfPN
Com apenas 28 minutos e 55 segundos, distribuídos em 10 faixas implacáveis, Reign in Blood alcançou o que havia de mais urgente e cruel em termos de riff, bateria e vocal. Apesar de levar todos esses elementos às últimas consequências, o conjunto da obra funciona de forma rigorosamente harmoniosa, num encaixe meticuloso de fúria e rara precisão.
A própria intensidade do álbum denuncia que não há excessos ou acomodação. Só entraram as composições mais inspiradas, executadas à perfeição.
Uma análise de 'Reign in Blood', do Slayer
A abertura com "Angel of Death" estabeleceu um novo patamar de excelência no thrash metal. Escrita por Jeff Hanneman, a letra sobre os experimentos humanos do médico nazista Josef Mengele, em Auschwitz, gerou acusações imediatas de simpatia pelo nazismo — algo que a banda sempre negou, alegando interesse puramente documental pelo horror da ocasião. Musicalmente, o grito agudo de Tom Araya no início e o pedal duplo de Dave Lombardo no interlúdio de bateria tornaram-se momentos icônicos.
https://www.youtube.com/watch?v=TnRZhLRv6eM&list=RDTnRZhLRv6eM&start_radio=1&pp=ygUVc2xheWVyIGFuZ2VsIG9mIGRlYXRooAcB
Em seguida, o entrosamento milimétrico entre as guitarras de Hanneman e Kerry King em faixas como "Piece by Piece", "Necrophobic" e "Altar of Sacrifice" funcionam como um rolo compressor contínuo na metade inicial do disco, sem espaço para massagem. Seus riffs imponentes e solos caóticos, caracterizados pelo uso da alavanca de trêmulo e por digressões atonais, mimetizam o pânico e o desespero da guerra, tal como na arte do australiano Larry W. Carroll para a capa, uma espécie de Guernica blasfema adaptada para o submundo de Satã.
Se no debut Show no Mercy (1983) Jeff Hanneman e Kerry King ainda estavam completamente imersos em Iron Maiden, Judas Priest e Mercyful Fate, aqui a dupla praticamente ignora as melodias do heavy metal tradicional europeu e injeta o ímpeto herdado do hardcore/punk de bandas como Verbal Abuse, D.R.I. e Minor Threat, devidamente homenageadas 10 anos depois no disco de covers Undisputed Attitude (1996).
https://www.youtube.com/watch?v=PiyZkC6iV7U
O primeiro momento de relativo respiro em Reign in Blood vem apenas na quinta faixa, "Jesus Saves", que começa cadenciada antes de explodir em mais desgraça no formato de música. Nela, entretanto, fica claro que, apesar das conotações satânicas distribuídas ao longo do álbum, a temática lírica do Slayer agora soa menos fantasiosa e mais palpável, no sentido de abraçar uma crônica real sobre fanatismo religioso, morte, psicopatia e decadência humana.
"Criminally Insane" e "Postmortem" também são exemplos valiosos dessa predileção por temas que envolvem disfunções mentais e crimes motivados pelo fascínio macabro diante da morte. Qualquer correlação com o desenrolar de gêneros ainda mais perversos, sobretudo o death metal, não é mera coincidência. O legado de Reign in Blood para a ramificação e compreensão da música extrema é incontornável. Bandas seminais como Possessed, Death, Morbid Angel, Autopsy e Cannibal Corpse foram e serão eternamente tributárias ao Slayer dessa fase — incluindo o antecessor Hell Awaits (1985).
https://www.youtube.com/watch?v=0FOoCz4qxxU
O ápice conceitual do disco vem em seu encerramento com "Raining Blood". A introdução com o som de uma tempestade e três pancadas isoladas no tom da bateria prepara o terreno para um dos riffs mais famosos da história do thrash metal. A música sintetiza a atmosfera apocalíptica do trabalho, culminando em um colapso que simula uma chuva infernal antes de silenciar abruptamente. Em Still Reigning, DVD lançado em 2004, a banda fez questão de realmente fazer "chover" sangue no palco para celebrar a execução na íntegra de sua obra-prima.
https://www.youtube.com/watch?v=t2htZJDY4_c&list=RDt2htZJDY4_c&start_radio=1&pp=ygUUc2xheWVyIHJhaW5pbmcgYmxvb2SgBwE%3D
Produtor inesperado
A gênese de Reign in Blood também está intrinsecamente ligada à parceria com o produtor Rick Rubin e a gravadora Def Jam Recordings. Rubin eliminou os excessos de reverberação comuns na época, "limpando" o som das guitarras e destacando a bateria, o que resultou em um impacto sonoro sem precedentes no underground do metal.
O peso e a violência das palhetadas continuaram lá, mas de forma cristalina. Dessa forma, foi possível ouvir detalhes e nuances que, muitas vezes, se perdiam em meio ao caos de informações.
Repercussão
Lançado em 7 de outubro de 1986, Reign in Blood quebrou barreiras e alcançou a 94ª posição das paradas americanas mesmo sem grande apoio das rádios ou da MTV. Aclamado como um lançamento brutal, porém cativante em sua beleza funesta, o álbum forçou até mesmo a crítica dita especializada a olhar para a ala radical do thrash metal não como uma piada barulhenta, mas como movimento estético legítimo, capaz de dar significado artístico à sua produção.
Quatro décadas após o parto, o suposto filho bastardo na verdade reina absoluto no império do thrash metal. Não há semelhantes, apenas súditos perante Reign in Blood, e talvez somente o Sepultura no auge — Beneath the Remains (1989) e Arise (1991) — tenha esboçado algum tipo de ameaça ao trono do Slayer.
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