Ravell Nava transforma experiência em método para ajudar empresários a faturar mais
Ele passou a aplicar o conhecimento adquirido em vendas e gestão, em uma estratégia para negócios que buscam crescer em meio aos juros altos, à inadimplência e às mudanças tributárias previstas para 2027
O ambiente para quem empreende no Brasil combina crédito caro, inadimplência empresarial elevada e mudanças importantes no sistema tributário. Nesse cenário, aumentar o faturamento deixou de ser suficiente: transformar vendas em margem e geração de caixa passou a ocupar posição central nas estratégias das empresas.
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Mais de 9 milhões de empresas brasileiras estavam inadimplentes em maio de 2026, um recorde, acumulando R$ 229,9 bilhões em dívidas negativadas, segundo dados da Serasa Experian. Paralelamente, mesmo após o início do ciclo de redução dos juros, a taxa Selic permanece em 14% ao ano.
A combinação aumenta o custo dos erros operacionais justamente quando as empresas também precisam se preparar para uma nova etapa da Reforma Tributária.
É nesse ambiente que o empresário Ravell Nava, fundador da Brl Educação, concentra sua atuação. A companhia trabalha com formação empresarial e busca ajudar empreendedores a identificar gargalos comerciais, melhorar a gestão e encontrar oportunidades de geração de receita.
"Durante muito tempo, o empresário brasileiro conseguiu compensar problemas de gestão trabalhando mais, vendendo mais ou colocando dinheiro na operação. Com juros altos, crédito mais caro e mudanças tributárias chegando, essa margem de erro diminuiu", afirma Nava.
Mais de 9 milhões de empresas enfrentam inadimplência
Os números ajudam a dimensionar o desafio. Entre os mais de 9 milhões de CNPJs inadimplentes registrados em maio, micro e pequenas empresas representam a maior parcela. Cada negócio negativado acumulava, em média, aproximadamente sete contas em atraso.
O problema evidencia uma diferença fundamental entre faturamento e saúde financeira. Uma companhia pode aumentar suas vendas e, mesmo assim, continuar enfrentando dificuldades caso os custos avancem na mesma velocidade ou o crescimento exija mais capital de giro.
"Faturamento sozinho não resolve uma empresa. É possível vender mais e continuar sem dinheiro. O empresário precisa entender margem, conversão, custo de aquisição, produtividade da equipe e capacidade de geração de caixa", explica Nava.
Na avaliação do empresário, analisar esses indicadores permite identificar se existe espaço para crescer dentro da própria operação antes de recorrer a empréstimos ou novas fontes externas de capital.
Juros altos tornam ineficiência mais cara
A permanência da Selic em patamar elevado adiciona outra camada de pressão. Quanto maiores os juros, mais caro se torna financiar expansão, antecipar investimentos ou utilizar crédito para sustentar necessidades recorrentes de capital de giro.
Nesse ambiente, problemas que poderiam permanecer parcialmente escondidos durante períodos de crédito barato passam a aparecer diretamente no fluxo de caixa.
"Quando o dinheiro era mais barato, algumas ineficiências ficavam escondidas. Com juros nesse nível, elas aparecem rapidamente no caixa. Antes de pensar em buscar capital, muitas empresas precisam descobrir quanto dinheiro já estão deixando de gerar dentro da própria operação", afirma.
Isso exige que decisões comerciais sejam acompanhadas por indicadores como margem de contribuição, custo de aquisição de clientes, taxa de conversão, ticket médio, produtividade e geração de caixa.
A lógica é evitar uma situação comum em negócios em expansão: aumentar receita sem que esse crescimento resulte em maior disponibilidade financeira.
Reforma Tributária coloca fluxo de caixa no centro das decisões
Além dos juros e da inadimplência, o segundo semestre de 2026 funciona como período de preparação para uma transformação estrutural na tributação brasileira.
O ano de 2026 marca a fase de testes da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS). A partir de 2027, está prevista uma nova etapa da transição, incluindo a extinção de PIS e Cofins, a cobrança efetiva da CBS e a entrada do Imposto Seletivo.
Para as empresas, isso significa que decisões sobre preço, custos, contratos, sistemas e planejamento tributário precisam começar antes da entrada definitiva das novas regras.
"2027 não pode começar em janeiro. O empresário que esperar a mudança chegar para entender o impacto no caixa estará atrasado. Este segundo semestre precisa ser usado para revisar preço, margem, estrutura comercial, custos e planejamento tributário", avalia Nava.
Split payment pode mudar dinâmica financeira das empresas
Entre as novidades acompanhadas pelo mercado está o split payment, mecanismo previsto na Reforma Tributária que permitirá a separação do valor correspondente ao tributo durante o processo de pagamento de uma operação.
A implementação do modelo exige atenção porque pode alterar a dinâmica financeira de diferentes negócios. Parte dos recursos envolvidos em uma venda poderá ser direcionada ao recolhimento tributário antes de permanecer disponível no caixa da empresa.
Por isso, projeções de fluxo de caixa, formação de preços e necessidade de capital de giro ganham importância ainda maior durante a transição.
Empresas que atualmente utilizam temporariamente valores destinados ao pagamento posterior de tributos poderão precisar adaptar sua gestão financeira a uma realidade na qual essa parcela do dinheiro não permanece disponível pelo mesmo período.
De vendedor de roupas a empresário da educação
A atuação de Ravell Nava na formação de empresários nasceu da experiência adquirida na construção de seus próprios negócios.
Ainda jovem, enquanto estudava Propaganda e Marketing e fazia estágio no Ministério da Defesa, Nava identificou uma oportunidade comercial ao revender uma jaqueta. A experiência evoluiu para a venda de roupas e para uma pequena operação cujo estoque chegou a ser transportado no porta-malas de um carro.
As vendas passaram a ocupar espaço central em sua trajetória profissional. Anos depois, o conhecimento acumulado em operações comerciais e gestão seria transformado em uma empresa direcionada à formação de outros empreendedores.
Atualmente, a Brl Educação alcançou faturamento na casa dos R$ 80 milhões e trabalha com uma metodologia voltada à aplicação de conceitos de vendas e gestão na rotina das empresas.
Crescer exige mais do que aumentar faturamento
Para Nava, um dos principais desafios é fazer o empreendedor separar crescimento de faturamento de crescimento econômico efetivo do negócio.
Uma empresa que aumenta vendas, mas perde margem, eleva excessivamente seu custo de aquisição ou passa a depender de crédito para financiar a própria expansão pode apresentar números maiores sem necessariamente se tornar financeiramente mais saudável.
"Meu trabalho hoje é fazer o empresário olhar para a empresa como negócio, e não apenas como uma máquina de vender. A venda é fundamental, mas precisa gerar caixa, margem e capacidade de reinvestimento", afirma.
Com juros ainda elevados e a transição tributária avançando, essa distinção tende a ganhar importância. O desafio das empresas brasileiras não será apenas encontrar maneiras de vender mais, mas determinar quanto de cada nova venda efetivamente permanece no negócio.
Para quem pretende crescer em 2027, decisões sobre margem, precificação, custos, produtividade e fluxo de caixa começam, portanto, ainda em 2026. Em um ambiente no qual capital permanece caro e as regras tributárias estão mudando, aumentar o faturamento continua sendo importante — mas crescer sem controle pode custar cada vez mais.
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