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Patti Smith desnuda memórias e traumas em livro lapidado com generosidade e movido pela urgência

Na obra, cantora traz revelações sobre a família, reafirma o talento na escrita autobiográfica e celebra os encontros da vida - mesmo que breves

9 mar 2026 - 18h12
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Em Pão dos Anjos: A História da Minha Vida, livro que acaba de chegar às livrarias brasileiras pela Companhia das Letras, Patti Smith lembra quando visitou um museu pela primeira vez. Em uma exposição de Picasso, teve uma epifania: seria artista. Para ela, a arte era a manifestação humana mais próxima do divino. Anos depois, arrumou as malas, saiu da casa dos pais levando um livro de Rimbaud a tiracolo e partiu para Nova York para atender ao chamado.

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Décadas depois, Patti Smith pode dizer que realizou o que almejava: aos 79 anos, se expressa na poesia, na música, na fotografia. Na literatura, mergulhou nas próprias lembranças sem perder o olhar atento para o presente. Venceu um National Book Award e agora lança seu sétimo livro em duas décadas - considerado o livro de memórias mais abrangente de sua vida.

Patti Smith lança 'Pão dos Anjos', pela Companhia das Letras
Patti Smith lança 'Pão dos Anjos', pela Companhia das Letras
Foto: Steven Sebring/Companhia das Letras/Divulgação / Estadão

Mesmo prolífica, a escrita de Patti é lapidada sem pressa. Dez anos separam as primeiras palavras que escreveu para Pão dos Anjos desta edição final. Entre lembranças de infância, traumas e o chamado para a arte, o livro é movido pela urgência em não deixar que pessoas amadas sejam esquecidas.

Sua incursão pela narrativa memorialística começa em 2010, pouco antes da autoficção virar uma moda editorial. O que Patti faz é biografia mesmo: em Só Garotos, Linha M e O Ano do Macaco (também lançados pela Companhia das Letras), registra passagens e pessoas ilustres de sua vida artística, além de reflexões sobre o presente, a política, a religião.

Em Devoção (2018), faz um interessante ensaio metalinguístico, tomando como inspiração uma patinadora (a imagem da patinadora é recorrente em suas obras), para mostrar ao leitor suas inspirações e processo criativo. A obra é mais uma demonstração da generosidade em compartilhar com o mundo o seu encantamento diante das coisas.

Já no novo livro, a tentativa de memória fica clara logo no prefácio, ao citar a irmã, única pessoa viva que compartilha com ela as lembranças de infância: Enquanto a irmã estiver no mundo, a memória das duas estará salva. "Mas e o futuro, quando ambas tivermos partido?", questiona. Ela escreve vislumbrando esse porvir.

'Três acordes fundidos ao poder da palavra'

Embora o mundo tenha conhecido Patti Smith como a "princesa do punk" - "costumavam me chamar de 'princesa', mas fiquei velha e de repente virei a 'avó do punk'", disse, em entrevista à Harper's Bazaar em 2023 - foi na poesia que encontrou a primeira vocação para a arte.

O verso que abre seu disco de estreia, Horses (1975) - "Jesus morreu pelos pecados de alguém, mas não pelos meus", entoado em Gloria - foi retirado de Otah, poema que escreveu aos 20 anos. O álbum, híbrido de punk e spoken word, nasceu das noites em que declamava poemas em Nova York, acompanhada na guitarra por Lenny Kaye. Influenciado por nomes que vão de Rimbaud ao Velvet Underground, o disco tornou-se um marco rock'n'roll.

A poesia move Patti Smith desde o princípio. O amor pela palavra foi seu primeiro pão dos anjos. O segundo foi a benevolência das pessoas que cruzaram seu caminho.

Just kids

As memórias de infância ocupam páginas consideráveis do livro e abrem espaço para experimentos descritivos mais interessantes, ao narrar as primeiras descobertas. Isso porque a autora não perdeu o olhar de criança sobre o mundo que a cerca: é nesse território que se move com maestria. Como disse o amigo Michael Stipe, do R.E.M. para a mesma matéria da Harper's Bazaar: "Ela consegue transformar o mundano em algo mágico".

A Patti-criança retratada Pão dos Anjos é tão imaginativa quanto Alice no País das Maravilhas, tirando que não havia muitas maravilhas na vizinhança onde cresceu, na Filadélfia. A falta de recursos básicos fez com que contraísse uma série de doenças, passando parte da infância acamada - uma "infância proustiana", como ela define -, mas também possibilitou inventar outros mundos para si, que se tornariam palco das brincadeiras juvenis.

Ela lembra quando se deparou com o livro clássico de Lewis Carroll, permitindo viver as próprias fábulas imaginárias, ou com uma biografia de Diego Rivera, percebendo que sempre havia um autor por trás da obra. Outro momento marcante foi quando encontrou uma pilha de revistas Vogue no lixo, ainda criança. A maioria tinha Lisa Fonsagrives-Penn na capa. Considerada a primeira supermodelo, Lisa era chamada de "belo cabide para roupas", mas Patti a credita como "escultora", carreira que seguiu após sair das passarelas.

Para Patti, o encanto pela fotografia nasceu com essas capas da Vogue, que lhe transmitiam autoconfiança. Ela adota uma postura semelhante na capa de Horses, ao olhar fixamente para a câmera de Robert Mapplethorpe.

Capa de 'Horses': disco de estreia de Patti Smith foi gravado no mítico Eletric Lady Studios e lançado em 1975 sob a produção de John Cale (Velvet Underground) e fotos de Robert Mapplethorpe
Capa de 'Horses': disco de estreia de Patti Smith foi gravado no mítico Eletric Lady Studios e lançado em 1975 sob a produção de John Cale (Velvet Underground) e fotos de Robert Mapplethorpe
Foto: Reprodução / Estadão

Esse início da carreira, quando viveu no hotel Chelsea, em Nova York, perde fôlego na narrativa - talvez por ter sido muito revisitado em livros anteriores. Mas a autora passeia com carinho por lembranças com o próprio Robert, além de Bob Dylan, Allen Ginsberg, William Burroughs, Annie Leibovitz e Susan Sontag, amigos que a ajudaram a se reerguer em momentos difíceis.

Por exemplo: quando tocou com o Patti Smith Group na Itália, nos anos 1970. Ela foi cercada por mulheres que imploravam ajuda para libertar os maridos, presos políticos. Já sem esperanças, buscavam na artista um último lampejo de sorte. Aquilo a imobilizou.

Foi quando teve uma nova epifania. Dessa vez, não pelo deslumbre, mas pela percepção da própria incapacidade: era apenas uma cantora de rock, não tinha influência política. A experiência mudou para sempre a forma de ver o mundo — e de reavaliar o seu papel nele. Sentia-se como cantou em Dancing Barefoot, dançando descalça, inebriada. Vislumbrou um outro caminho para si, decidiu interromper a carreira musical. Se dedicaria à vida com o marido, Fred "Sonic" Smith, do MC5, aos dois filhos, aos estudos e à escrita.

Aprendizado no luto

A narrativa alterna passado e presente, lembrando que há uma escritora diante de um caderno registrando lembranças à medida que elas emergem. Há recordações doces, como quando ela e Fred andaram a cavalo juntos pela primeira vez: "Se fosse uma cena de filme, ficaria feliz em fazer durar pra sempre", escreve.

Fred e Patti não passaram uma vida inteira juntos. Ele morreu por insuficiência cardíaca em 1994, aos 46 anos - o que a fez viúva aos 47. Para cada pai de família que parte cedo, há uma mulher que fica, com um império íntimo para reerguer. Com ela, não foi diferente.

Em poucos anos, Patti Smith viveu uma sucessão de lutos: antes do marido, foi o amigo de uma vida, Robert Mapplethorpe, que morreu em decorrência da Aids, perda que inspirou Só Garotos. Depois, o irmão mais novo, Todd, produtor e companheiro de turnês, se foi vítima de AVC. Todos ainda eram muito jovens, com menos de 50 anos.

Patti teria uma vida inteira pela frente sem as pessoas que caminharam com ela. Mas, de alguma forma, carrega todos eles consigo. Em uma entrevista ao editor da The New Yorker, David Remnick, esclarece: "Pão dos Anjos é sobre gratidão e gentileza. Queria que essas pessoas fossem lembradas da forma como as conheci".

Assim, Patti se estabelece como guardiã da memória: mantém objetos que lembram pessoas, registra tudo com uma câmera sempre a tiracolo. Comprou a casa reconstruída onde Arthur Rimbaud escreveu Uma Temporada no Inferno para virar um espaço cultural e inspirar novos artistas. O faz olhando para o passado, mas projetando o futuro.

O historiador Pierre Nora trabalha um conceito muito bonito, o da "vontade de memória". Ele conclui que, para haver um lugar de memória, é preciso que haja desejo de preservá-la. Sem querer relativizar conceitos complexos, fica claro que Patti Smith se guia por uma vontade semelhante.

Como guardiã da memória, Patti não escreve apenas sobre os seus, mas sobre uma geração nascida no pós-guerra, símbolo da contracultura, que viveu da esperança de paz do Woodstock aos horrores do Vietnã, passou pela epidemia da Aids e, no caso dela, seguiu firme para contar essa história. "Morrerei me lembrando de vocês", ela escreve, projetando a mensagem à sua geração.

Com o tempo, Patti Smith se viu entre momentos inspirados e bloqueios criativos. Voltou aos palcos e mergulhou na militância, especialmente pelos refugiados, lembrando a menina que ela mesma fora quando escolheu, em um trabalho de escola, escrever sobre o Tibete, inspirada pelo budismo.

Pão dos Anjos ainda inclui revelações que, a esta altura, já não são mais spoilers: Patti descobre que não é filha biológica do homem que sempre acreditou ser seu pai e vai atrás de responder à pergunta que se fez desde criança: de onde veio? Esses pontos são trabalhados da forma poética que lhe é característica, mas não deveriam ser o chamariz do livro: a beleza da obra mora na singeleza com que narra as diferentes passagens de sua vida.

Deparar-se com uma obra inédita de Patti Smith é sempre um presente, mas ler um livro de memórias mais abrangente, quando ela está prestes a completar 80 anos, é um privilégio. Me pergunto se ela mensura o impacto que exerceu na vida de tantas pessoas quando fechou a porta da casa de seus pais pela última vez, sem olhar para trás, querendo ser artista.

Recorrendo à minha própria memória, reencontro uma breve anotação que fiz em 2019, sobre um show que vi dela em São Paulo: "Quando entoa 'People Have The Power', canção que compôs com Fred Smith em 1988, todos cantam em uníssono. Naquele espaço-tempo não existia nenhum problema, nenhuma guerra, nenhuma tirania. Ver a força dela no palco, com seus longos cabelos brancos, é mais que motivacional: nos lembra que o mundo é bonito, apesar de triste, e que não podemos perder a fé nas pessoas".

Talvez seja esse o gesto que move Pão dos Anjos: lembrar. Lembrar de quem passou por nós, de quem deixou marcas. E lembrar também que a vida precisa seguir em frente, mesmo quando muitos já partiram.

Pão dos Anjos

  • Autora: Patti Smith
  • Editora: Companhia das Letras (272 págs.; R$ 89,90)
Estadão
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