Olivia Rodrigo e Brandi Carlile estão desmistificando a ideia de que mulheres não podem liderar festivais
Com o evento esgotado Daisy Chain Fields, de Rodrigo, e o consagrado Girls Just Wanna Weekend, de Carlile, a igualdade de gênero pode finalmente estar chegando aos palcos
Há alguns anos, Olivia Rodrigo convidou Brandi Carlile para tomar um café. Elas estavam em Los Angeles ao mesmo tempo, e Rodrigo queria conversar com Carlile, que organiza seu próprio festival exclusivamente feminino, o Girls Just Wanna Weekend, desde 2019, sobre como ela poderia impactar a igualdade de gênero nas programações e nas turnês.
🎧 Do universo de fã ao universo da música: tudo que você ama em um só lugar. Siga @centralsonora.
"Foi como um encontro às cegas", disse Carlile à Rolling Stone, que ficou comovida com o compromisso de Rodrigo em desmistificar os mitos comuns da indústria de que mulheres não vendem ingressos tão bem quanto homens, não devem ser escaladas para shows consecutivos e são incapazes de serem a atração principal de um festival — muito menos ocupar todo o cartaz. Carlile tinha a sensação, ela lembra, de que Rodrigo iria muito além das palavras. "Lembro-me de ter percebido e pensado: 'É ela'. Eu sabia que ela queria fazer mais com sua ascensão e fama do que apenas se empoderar."
Carlile estava certa: em junho, Rodrigo anunciou seu festival inaugural, Daisy Chain Fields, que acontecerá em 29 de agosto em Irvine, Califórnia. Inspirado no festival original exclusivamente feminino de Sarah McLachlan, o Lilith Fair, e em eventos como o de Carlile, o line-up é composto inteiramente por mulheres de diversas gerações: a própria McLachlan, Chappell Roan, Bikini Kill, Stevie Nicks, Mitski, Doechii e muitas outras. E o mais notável: todo o lucro será destinado a organizações "dedicadas ao avanço e à defesa dos direitos de mulheres e meninas". Os ingressos para o festival esgotaram instantaneamente durante a pré-venda.
"Acho que existe essa ideia de que as meninas devem competir entre si pelo primeiro lugar, ou que os recursos são limitados para todas", disse
Rodrigoem entrevista ao programa
Good Morning America. "Acho que experiências como o Lilith Fair e, espero, o Daisy Chain, vão nos mostrar que somos muito mais fortes quando nos unimos e nos apoiamos mutuamente."
Somado a um novo relatório da
Luminateque mostra como as mulheres da Geração Z estão superando os homens na venda de ingressos para shows, surge a pergunta: será que a indústria de shows finalmente está disposta a investir permanentemente em festivais e públicos voltados para o público feminino? Festivais como
Daisy Chain Fields,
Girls Just Wanna Weekende outros com lineups predominantemente femininos neste verão estão provando que sim.
"Esses festivais exclusivamente femininos, como o Daisy Chain Fields e o Girls Just Wanna Weekend, estão refutando de forma clara e comprovada por dados o mito ultrapassado de que artistas mulheres não conseguem vender ingressos de forma consistente ou serem atrações principais lucrativas", afirma
Leslie Fram, da
FEMco, uma consultoria musical focada no público feminino. "Eles demonstram que lineups compostos apenas por mulheres não são apenas viáveis, mas podem ser extremamente bem-sucedidos quando cuidadosamente selecionados. O mito sempre foi mais fruto de inércia e preconceito do que da realidade do mercado. Eventos como esses estão acelerando seu fim."
Esse mito — o ditado de que turnês e festivais com artistas exclusivamente, ou mesmo predominantemente, mulheres não são um bom negócio — existe há muito tempo, bem antes do
Lilith Fair. Faz parte da premissa que motivou
McLachlana lançar seu evento em 1996, um empreendimento recentemente relatado no excelente documentário
Lilith Fair: Building a Mystery - The Untold Story.
McLachlanestava cansada de ouvir que a ideia de duas mulheres em um mesmo evento era vista como um risco financeiro muito grande e fundou o
Lilithpara provar que as mulheres podiam ser as atrações principais de festivais, vender ingressos para shows e se unir para além da competição — além de lucrar com isso. No ano de seu lançamento, o
Lilithacabou sendo a turnê de maior bilheteria da temporada.
Misoginia antiga, porém, é difícil de matar.
Carlilese lembra de uma época, no início de sua carreira, em que foi retirada de um show com outra mulher porque "eles queriam uma banda com vocalista masculino e guitarrista em vez de mim". O
Girls Just Wanna Weekend, um festival de vários dias que acontece todo mês de janeiro no México, foi criado para provar que, se as mulheres estavam dispostas a viajar até o México e gastar milhares de dólares para assistir ao seu evento, não fariam o mesmo por uma banda formada só por mulheres em uma casa de shows ou arena de rock em sua cidade natal? O
Daisy Chain Fields, com seus ingressos esgotados instantaneamente, fez exatamente isso.
"Girls Just Wanna Weekend foi algo que foi feito no sentido de um diorama", diz
Carlile. "Foi feito em um espaço controlado com o objetivo de alcançar visibilidade, para que outras pessoas possam ver que funciona."
Daisy Chain Fields oferece isso para uma nova geração que cresceu com superestrelas femininas como
Rodrigo, Taylor Swift e Beyoncé, mas que ainda se depara com festivais com lineups dominados por homens. O festival de
Rodrigoestá programado para acontecer durante um verão que inclui lineups com predominância feminina em festivais como
All Things Go, Newport Folk Festival e Lollapalooza (que ostenta uma alta porcentagem de mulheres como headliners, mesmo que não haja igualdade em todos os níveis). Cada um deles defende a ideia de que escalar mulheres para um lineup não é apenas moralmente correto, mas também um bom negócio.
O
All Things Gocomeçou a promover uma programação mais equitativa em 2018, quando
Lizzy Plapinger, também conhecida como a artista
LPX, organizou, em parceria com Maggie Rogers, uma programação com quase todas as artistas principais mulheres, e tem mantido essa tradição desde então. O festival cresceu de 10.000 participantes em dois dias em 2018 para 130.000 em oito datas em três cidades. Este ano, todas as três datas contam com mais da metade de artistas mulheres e não-binários, com a edição de Nova York atingindo 95,7% de mulheres, segundo dados da organização
Book More Women. (
Carlileé a atração principal em duas das três datas.)
"Isso é profundamente pessoal para mim como artista queer que surgiu no início da década de 2010, fazendo turnês por festivais e palcos ao redor do mundo, onde eu era frequentemente a única mulher, ou uma das poucas, na programação", diz
Plapinger, que ainda é curadora do festival. "Isso é limitante não apenas para o público, mas também para os artistas."
Plapingerconcorda com
Carlileque visibilidade não se trata apenas de cumprir requisitos. "Representatividade não é apenas simbólica, e não se trata apenas de justiça", diz ela. "É significativo quando o público passa um fim de semana em comunidade, cercado por artistas mulheres, queer e não-binárias liderando, criando, sendo as atrações principais e dominando o palco, porque isso silenciosamente recalibra o que parece normal, possível e ao nosso alcance."
Pesquisas também corroboram essa ideia. Os dados da
Luminatemostram que "as mulheres consistentemente superam os homens em público em shows, tanto no passado quanto no futuro", principalmente quando se trata da Geração Z. Por anos, as mulheres têm definido o mercado de turnês, com
Swifte
Beyoncécomo líderes do setor. Mesmo assim, isso ainda não se traduziu em eventos com artistas exclusivamente femininas.
"Os dados dão à indústria todos os motivos para avançar com confiança", afirma
Thayer Lavielle, da
The Collective, a divisão de consultoria e defesa de direitos voltada para mulheres da
Team, cujo estudo recente, Her Frequency, mapeou a influência e o impacto das frequentadoras de shows no mercado. "64% das mulheres no mundo todo se identificam como fãs de música ao vivo, e mais da metade gasta mais de US$ 100 (cerca de R$ 508) além do ingresso em cada evento. Ainda mais convincente, 86% afirmam estar dispostas a gastar mais quando a experiência for fluida, envolvente e gratificante. Eventos liderados por mulheres não são apenas uma oportunidade de equidade, mas também uma oportunidade significativa de público e crescimento."
Tudo aponta para o mesmo fim: "Uma programação com diversidade de gênero pode atrair mais ingressos", diz
Abbey Carbonneau, fundadora da
Book More Women. "[Esses festivais] estão fornecendo exemplos em grande escala para desafiar a suposição de que mulheres e artistas não binários são atrações principais arriscadas ou produtos de nicho. Eles estão demonstrando que o público está animado para apoiar programações centradas em mulheres quando de fato tem a oportunidade."
Na edição deste ano do
Newport Folk Festival, cujas atrações principais de sexta-feira no palco principal foram quase inteiramente femininas, o foco é não apenas superar os mitos, mas também ir além da influência do algoritmo, em direção a uma curadoria intencional baseada na descoberta de artistas e na construção de comunidade. "Já participei de reuniões de programação de outras pessoas e a pergunta é literalmente: 'Quantos seguidores eles têm no Instagram?'", diz
Jay Sweet, produtor executivo do
Newport Folk. "Muitas vezes, eles avaliam os artistas, especialmente as artistas mulheres, em termos de capacidade de atrair compradores de ingressos com base no número de seguidores, e não na música."
Nem todos estão otimistas de que as lições serão duradouras, no entanto. "As pi****** só têm uma chance a cada 20 anos", disse uma fonte feminina da indústria à
Rolling Stone, pontuando sua observação com uma risada sarcástica. A questão não é que as mulheres não devam dominar os festivais — é que, apesar das evidências que comprovam o quão comercializável pode ser um line-up liderado por mulheres, como o
Lilith Fair,
Daisy Chain Fieldse
Girls Just Wanna Weekend, os preconceitos enraizados na indústria ainda prevalecem. Em 2025, de acordo com a
Book More Women, a porcentagem de mulheres no geral nos nove principais festivais, incluindo Coachella, Governors Ball e
ACL Fest, ainda era pouco menos de 22% (embora tenha sido o melhor ano em termos de atrações principais desde que a organização começou a monitorar os dados em 2018).
"Acho que o clima na indústria está mudando, e o sucesso de festivais, turnês e line-ups com artistas femininas está se tornando cada vez mais difícil de ignorar", diz
Plapinger. "Dito isso, não acho que possamos considerar o progresso como garantido. A única coisa que gera mudanças duradouras é continuar praticando o que pregamos, construindo palcos, festivais e espaços que valorizem as vozes femininas. Nunca é algo que acontece uma vez e pronto."
Infelizmente,
Carlilenão poderá comparecer ao
Daisy Chain Fields: ela será a atração principal de seu próprio show em Nashville na mesma noite. Mas ela está animada para ver o impacto do festival de
Rodrigo.
"Ver essas jovens agarradas ao topo da montanha neste espaço de festivais é genial para c******", diz ela. "É incrível presenciar isso agora, criar meninas e pensar: 'Meu Deus, que isso dure para sempre. Que isso dure para sempre'".
+++ LEIA MAIS: Festival de música Daisy Chain Fields, de Olivia Rodrigo, esgota em 30 minutos
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.