O que faz da Filarmônica de Berlim, que se apresenta em SP, a mais perfeita orquestra do planeta?
Com o maestro Kirill Petrenko, orquestra faz concerto na Sala São Paulo nos dias 18 e 19, no ponto alto da temporada 2026 da Tucca
Após 26 anos, a Filarmônica de Berlim volta a São Paulo nos dias 18 e 19 de outubro, na Sala São Paulo, sob a regência de Kirill Petrenko. Considerada a melhor do mundo, a orquestra se destaca por sua excelência artística, história marcante e modelo de autogestão democrática, no qual os próprios músicos votam na admissão de integrantes, no repertório e na escolha de seus maestros titulares. As apresentações contam com o pianista Víkingur Ólafsson e integram a temporada beneficente da Tucca.
A Filarmônica de Berlim e seu maestro titular Kirill Petrenko desembarcam em São Paulo para dois concertos na Sala São Paulo nos próximos dias 18 e 19, na temporada 2026 da Tucca (veja detalhes do serviço ao final do texto). Assistir ao vivo a esta que é considerada a melhor e mais perfeita orquestra do planeta é privilégio raro. Seu último concerto no Teatro Municipal de São Paulo aconteceu 26 anos atrás.
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Não é exagero colocar esta curta visita no mesmo patamar de "frisson" que sentiríamos todos com a vinda ao Brasil, se isso fosse possível, de um grande museu de arte internacional com seu acervo. Tê-la por aqui corresponde a receber a visita física do Louvre, Hermitage ou do Met. A ideia não é minha. Li num ensaio anos atrás, intitulado O século 20 e a orquestra como museu, de J. Peter Burkholder (no livro The Orchestra, Origins and Transformations, de 1986).
Ele compara a sala de concertos moderna a um museu onde maravilhas naturais ou artefatos criados pelo homem são retirados de seus habitats originais e expostos à apreciação de um público curioso. "Retirar um item de seu contexto e colocá-lo em um museu altera nossa percepção sobre ele, como demonstrou Marcel Duchamp em 1913 ao escolher, ao acaso, uma roda de bicicleta de fabricação industrial entre centenas de outras semelhantes, colocá-la sobre um pedestal, intitulá-la Roda de Bicicleta e expô-la como obra de arte. Ela deixa de estar disponível para uso e passa a existir apenas para ser observada; de fato, somos compelidos a prestar-lhe atenção de uma maneira que não faríamos se ela ainda fizesse parte do nosso cotidiano."
Em meados do século 19, a orquestra já havia se transformado em museu ambulante para exibição de grandes obras de arte do passado. "A música orquestral de Haydn e Mozart era efêmera quando composta; cada sinfonia, abertura ou concerto recebia pouquíssimas apresentações ao longo de um breve período. Contudo, em meados do século 19, essa mesma música foi resgatada e alcançou a imortalidade entre os primeiros 'clássicos' do repertório orquestral", relembra Burkholder.
Foi durante o século 19 que a música tornou-se "clássica", ou seja, começou a cultuar mais obras do passado. Aqui me socorro com William Weber. Ele mostra a evolução histórica dos percentuais de obras de compositores mortos/vivos nas temporadas da Gewandhaus de Leipzig (a mais antiga do mundo, fundada em 1743). Veja como compositores mortos avançaram sobre os vivos: 1786/87: 11% de obras de compositores mortos; 1845-46: 39%; 1910-11: 82% de obras de criadores mortos e só 18% de vivos. Esta proporção deve ter caído muito mais hoje.
Como a bicicleta de Duchamp, na sala de concertos moderna a música "clássica" que ouvimos foi retirada do contexto para o qual foi criada, despojada de suas finalidades originais e revestida de novos propósitos, lembra Burkholder. Como os visitantes de museus, vamos ao concerto para "abordarmos a arte diante de nós com atenção concentrada e avaliarmos cada obra de acordo com a riqueza com que ela nos recompensa pelo nosso esforço. A melhor música de concerto recompensa essa concentração não apenas uma vez, mas repetidamente, não importa quantas vezes a ouçamos novamente ou com que intensidade a estudemos".
Filarmônica de Berlim está um degrau acima
É nesta moldura que recebemos a Filarmônica de Berlim. Suas características a tornam, de fato, uma orquestra um degrau acima de todas as demais no planeta. Nasceu e permanece como cooperativa autogerida, em que os músicos votam secretamente para escolher o maestro titular e a admissão de novos músicos, dão pitacos no repertório e nas gravações. Não dependem, portanto, do poder público, como 99,99% das orquestras no mundo.
Os candidatos a ocupar uma estante têm de tocar diante da orquestra inteira. Todos os músicos votam em cada candidato. Um deles foi direto ao ponto: "É como cobrar um pênalti numa final de campeonato. Às vezes o seu antecessor ao mesmo posto fez o rubato que você tinha imaginado. E aí, o que você faz?". O sofrimento não termina aí. Depois dos primeiros dois anos tocando na orquestra, todos os músicos votam novamente para decidir se o novato deve ou não ser efetivado.
O crítico inglês Tom Service, no livro Música como Alquimia, de 2014, conta que em Berlim "os músicos de cordas não sabem onde vão se sentar antes do primeiro ensaio de cada semana. Cada um procura um lugar que considera melhor naquele momento, ou porque um parceiro tocou diferente e quer aprender com ele, ou então afastando-se de outro que não foi muito bem na semana anterior. Por isso cada músico toca como se sua vida profissional dependesse daquela performance".
Apenas oito maestros em 144 anos de história
O russo siberiano Kirill Petrenko, 54 anos, eleito na temporada 2019/20, é apenas seu oitavo maestro titular em 144 anos. O primeiro, Hans von Bülow, ficou só seis anos, entre 1887 e 1892. Arthur Nikisch consolidou o prestígio da orquestra nos 27 anos seguintes. Wilhelm Furtwängler (1886-1954), titular entre 1922 e 1945, liderou um período ao mesmo tempo de altíssima qualidade musical e tenebroso, em que a orquestra tornou-se "garota-propaganda" do regime nazista. "Desnazificado" pelo tribunal dos Aliados no pós-1945, retornou à orquestra entre 1952 e 1954.
Durante o período nazista a orquestra não tocou compositores judeus. No pós-guerra, quando teve como titular o maestro romeno Sergiu Celibidache (1912-1996), que assumiu a direção em 1945, trocou a suástica pela águia norte-americana a mando do Comando Aliado, durante o processo de desnazificação. Com ênfase maciça numa penca de compositores norte-americanos, Copland e Barber à frente. Em 1954, quando Furtwängler morreu, Celibidache teve seu tapete puxado pelo ex-nazista Herbert von Karajan.
Cada vez mais tornava-se evidente que a autogestão da orquestra não garantia liberdade de princípios ou resistência às investidas do poderoso de plantão. As orquestras sinfônicas estiveram historicamente atreladas ao jogo político vigente, por causa do alto grau de investimento que exigem; o grande contingente de mão de obra especializada necessária, o staff administrativo, além dos músicos, e os vínculos mais ou menos espúrios com o Estado, velados ou não. Ao assumir em 1954, Karajan iniciava o mais longo reinado de um maestro à frente da orquestra: 34 anos, entre 1955 e 1989.
Além de sua genialidade como maestro, perpetuou-se em vida porque transformou-a em um fenômeno de fato global, planetário. Consolidava-se, na década de 1950, o "long play", lançado em 1948 pela Columbia norte-americana: dos 3 a 5 minutos do 78 rotações passava-se para dois lados de 23 a 26 minutos cada. Ideal para grande parte do repertório sinfônico. Karajan abraçou o LP, tornou a orquestra campeã de vendas no mundo todo. A ponto de ter sido consultado sobre a minutagem ideal do compact disc, criado em 1979 pela Sony. Foi o maestro que definiu sua duração máxima a partir dos 75 minutos da Nona Sinfonia de Beethoven.
Pois maestro e músicos de Berlim encheram as burras com quatro integrais das sinfonias de Beethoven, uma versão em cada década de reinado do maestro, dos anos 1960 aos anos 1980.
Não seria justo atribuir a Karajan apenas tino comercial. Ele foi, claro, um músico extraordinário. Sua megalomania era tamanha que, na cena final de um precioso documentário dirigido por Georg Wübbolt, ele aparece sentado no sofá, muito doente, envelhecido, bem próximo da morte, que veio de fato em 1989. Encara a câmera e diz com convicção: "Estou convencido de que as pessoas têm várias vidas. Asseguro que voltarei. Goethe disse acertadamente: 'Se minha vida interior tem tanto a dar e meu corpo se recusa a servi-la, a natureza tem que me oferecer um novo corpo'. Concordo integralmente com Goethe."
De volta à realidade
Os dois maestros que o sucederam - pela ordem, o italiano Claudio Abbado (1989-2002) e o britânico Simon Rattle (2002-2018) - tiveram pela frente a dura tarefa de "humanizar" a orquestra.
Abbado rejeitou o modelo ditatorial de Karajan. "Para todos vocês, sou Claudio": foi assim que se apresentou à orquestra quando subiu ao pódio para o primeiro ensaio, em 1989. Aliás, nos ensaios, falava em voz baixa, pouco mais que um murmúrio, obrigando os músicos a se inclinarem para ouvi-lo. O silêncio em torno de Abbado nunca era opressor, mas de concentração, expectativa e partilha. Quando algo não ia bem, ele parava, olhava para a orquestra, sorria gentilmente e dizia algo como: "Vamos tentar novamente, talvez com um pouco mais de respiração". Impactava mais os músicos com sua decepção muda do que as explosões de raiva de seu antecessor.
Sua relação com Mahler não era apenas musical. Era ética. Ele acreditava que Mahler exigia verdade, humildade e honestidade existencial. Durante os ensaios da Nona Sinfonia de Mahler, Abbado certa vez fez uma pausa e disse: "Não se trata de som. Trata-se de como nos desapegamos". Quando lhe perguntavam por que seu Beethoven soava tão diferente do de Karajan, ele respondia simplesmente: "Porque eu não sou Karajan — e Beethoven permite muitas verdades."
A escolha de Simon Rattle em 2002 levou para ainda mais distante a atmosfera tensa dos anos de Karajan. Rattle incluiu obras de compositores contemporâneos como Wolfgang Rihm, a russa Sofia Gubaidulina e o britânico Thomas Adès. Lançou o Digital Concert Hall, portal de transmissão dos concertos ao vivo da Filarmônica, com acesso ao riquíssimo acervo digital de concertos e gravações.
Petrenko foi eleito pelos músicos como sucessor de Rattle em 2015, mas só assumiu efetivamente na temporada 2019-2020. Em fevereiro de 2022, protestou contra a invasão da Ucrânia pela Rússia, chamando-a de "facada nas costas de todo o mundo pacífico".
Há sete anos no comando da Filarmônica, representa, de certo modo, um movimento de afirmação dos pilares básicos que a tornaram paradigma das orquestras do planeta: excelência nos repertórios clássico e romântico.
Filarmônica de Berlim em São Paulo
- Regida por Kirill Petrenko, com a participação do pianista russo Víkingur Ólafsson, a Filarmônica de Berlim apresenta dois programas. No dia 18/10, Concerto para piano nº 1R., de Brahms, e Assim falou Zaratustra, de Strauss. No dia 19/10, Variações Enigma, de Elgar, e Sinfonia nº 4, de Tchaikovsky. As apresentações fazem parte da série Música pela cura do Tucca. Quando: 18/10, 18h; 19/10, 20h30. Onde: Sala São Paulo. Pça. Júlio Prestes, 16, Luz. Quanto: R$ 1.600/R$ 5.000
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