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O Lirismo Humano de Rodrigo Ogi

9 nov 2023 - 08h46
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Texto por: Natália Ferreira

Rodrigo Ogi, após 6 anos, lança seu álbum "Aleatoriamente" repleto de narrativas que somente um bom contador de histórias poderia proporcionar. Apesar do título, as faixas do álbum não soam nada aleatórias. A começar por Rotina, onde Ogi descreve o cotidiano de um trabalhador desde o momento em que pega o ônibus, toma chuva e sente milhares de sensações incômodas até chegar ao seu serviço.

A narrativa aqui é relacionável a qualquer ser humano que vive no sistema capitalista, passando pelas mazelas do dia a dia, convivendo com a raiva de não conseguir se ver fora desse contexto e com a frustração de não poder fazer o que verdadeiramente gosta, pois "suas rimas não pagam as contas".

Em Aleatoriamente, faixa-título do álbum, Ogi nos leva para um passeio descritivo da nossa própria mente. Como desistimos das nossas ideias brilhantes, como nos distraímos com os milhares de catálogos que nos são apresentados pelas telas, em como buscamos prazeres práticos e rápidos e como eles também podem gerar pensamentos não necessariamente condizentes com a realidade após. E a viagem se perpetua, a ansiedade é o maquinista que rapidamente perde a mão e faz com que a mente entre nos túneis mais desconexos.

Por mais particular que soe essa viagem, é muito fácil se identificar com o que Ogi proclama nesse som. Todos já estivemos em situação de abas que vão se abrindo na mente, como um navegador de internet, a ponto de te fazer querer voltar as casas do raciocínio para lembrar de como chegou ali.

Chegou Sua Vez, com Juçara Marçal, é sobre omissão. Ou melhor, o prazer na omissão. O conforto do egoísmo humano e o quanto ele abraça o ego a ponto de gerar deleite.

João de Queiroz Muniz é um típico cidadão brasileiro que acredita que o inferno são os outros. Para ele, tudo é preto no branco, 8 ou 80, de modo que após se abster tanto, os fantasmas da antipatia o buscam na porta de casa, com todo o ódio que sua isenção acumulou.

De forma fácil de absorver, Ogi nos faz lembrar daquele parente, vizinho ou conhecido que encarna o ceifador do afeto ao próximo. Aquele que esquece de olhar uns aos outros como seres humanos, imerso nas verdades superficiais que o sistema capitalista implantou nas nossas mentes. De fato, os humanos parecem rascunhos encontrados no lixo.

Na faixa seguinte, Ogi nos leva para um passeio no inferno. João, da faixa Chegou Sua Vez, recebe as consequências de seus atos em Valha-me, participação com Siba.

Ao cair num buraco, João sofre uma fratura. Nesse momento, sente um medo profundo de ser atacado por uma ninhada de ratos que rondavam seu corpo. Sem conseguir se mover, ele visualiza o ambiente claramente após um raio iluminar o lugar e então percebe onde se encontra.

De prontidão conseguimos entender que Ogi nos trouxe duas partes de uma mesma história, com o mesmo personagem. Com detalhes, Ogi canta que João, que era ateu, clama a Deus para tirá-lo da sauna na câmara de gás, onde anjos choram sangue nos vitrais da catedral de Satanás. As ratazanas se unem formando um gigante que o mastiga e cospe diversas vezes soltando uma gosma nojenta. João não terá anistia.

Para quem se indigna com as atitudes de João na faixa anterior, Valha-me nos traz a perspectiva de que, hora ou outra, pessoas de atitudes condenáveis terão suas dívidas cobradas, mesmo que não seja em vida. O tom tétrico da música nos coloca no lugar de incômodo que João habita, gerando um certo medo e desconforto no ouvinte, por mais que não sejamos nós que nos encontramos naquela situação. Essa narrativa se encerra aqui.

Em Eu Mudei Pra Esse Prédio, mais uma vez Ogi traz uma perspectiva psicológica, mas dessa vez se trata da depressão. A tristeza, enquanto visitante, começa a assombrar Ogi. Mesmo após colocar Jimmy Cliff para tocar e um drink para beber, a tristeza se incomoda ao quase dar espaço para a alegria e leveza, e agarra no pescoço do nosso narrador de forma sufocante.

O perigo, que sempre andou ao lado de Ogi, fica a espreita, se deliciando com a cena do entrave entre o sentimento e a vítima. A coragem aparece, dando corda para a tristeza, porém logo é interceptada pelo seu marido, o medo, que a espanca. Entretanto, a tristeza já estava armada e se torna ira, disparando contra o medo.

Dessa forma, Ogi encontra a morte, que o leva para beber tentando seduzi-lo. Após uma noite infinita, o tédio vem e ele decide que não é hora de deixar a morte invadir. Esperou ela descansar para sair fora. Ao dobrar a esquina, Ogi se encontrou com a vida que sorriu para ele. Ele sorriu de volta.

Ogi é genial ao utilizar a conotação sexual na sua relação com seus sentimentos, partindo do princípio que o sexo é o ato mais vulnerável que um ser humano poderia consumar. Nu na frente do outro, em um contato direto e intenso. É assim que Ogi se sente em relação ao que permeia sua mente e seu coração: vulnerável, evitando o contato intenso para não se afundar durante uma crise depressiva decorrente da solidão.

Na sexta faixa do álbum, temos uma lovesong… mas não. Em PQ? Ogi canta sobre uma relação que lava sua alma. Um amor bandido, onde ele era temido pelos seus inimigos e somente ela sabia de seus segredos e vulnerabilidades. Quando a moça anuncia a ele que está grávida, o destemido se vê com medo da morte pela primeira vez. Decidem então, fugir.

No horário e local marcado, ela não estava lá. Aviões o sobrevoam, ele sente o desespero de perceber que sofreu traição. A moça que o conhecia do avesso o havia entregado. "Logo a Ruth tornou-se Raquel / Abraçada com Caim, me chamando de Abel / O que ontem era lua de mel / Hoje é um Smurf trucidado por Gargamel", canta. As analogias bíblicas e a referência ao desenho infantil indicam que Ogi visualizava a relação como algo abençoado, divino e, ao mesmo tempo, puro. Ao passo que, da mesma forma que ocorre nas histórias citadas, os personagens sofrem na mão de seus algozes. Neste caso, o algoz de Ogi é o amor.

Na sétima faixa, Ogi fala sobre a Saudade de uma ex. A princípio ele acordou bem, leve. Flutuando como há muito não fazia, tudo desmorona quando ele se depara com um fio de cabelo no travesseiro. O sentimento o invade e em um refrão com Russo Passapusso, vemos a representação da saudade pós término onde há pitadas orgulho. Você não quer chorar, só quer esquecer, e para isso você cantará o mais alto que puder em uma tentativa de seguir em frente.

Porém, inevitavelmente, a frieza vai crescendo e as lágrimas são incontroláveis. E é aí que vem o ponto alto de tudo o que Ogi proclama na faixa:

"Mas da lamúria vem a melodia que é tipo milagre de Fátima

E eu consigo a elevação

Pelo ar eu me levo são

Não é contando vitória, mas tava curtindo a minha evolução"

Ou seja, somente quando as lágrimas vieram, Ogi conseguiu descongelar suas asas e sentir que poderia voar novamente. Não há como evoluir a partir de uma perda sem sentir tudo o que a situação lhe causa. Entretanto, o processo não é linear. A brisa bate e o relembra do cheiro dela, fazendo com que a queda ocorra novamente.

Porém, no final, o caminho precisa ser percorrido novamente: as lágrimas lavam o peito e só assim é possível seguir como se gostaria. Ao ignorar o que está no coração, o peito fica mais pesado não é possível voar.

Em Cupido, Ogi traz uma narrativa sobre como o querubim pediu seu coração emprestado e custou muito para devolver. Vagou por diversos lugares, tentou contado, mas o anjo havia sumido com seu coração e Ogi não sabia mais o que faria.

Até que então, se encontrou com alguns amigos que disseram que o cupido estava enrolado em um jogo de azar com o diabo. Ao perder o coração de Thiago França e Maria de Lurdes, o cupido foi até Ogi para pedir seu coração emprestado já que sabia que o narrador não iria negar. Porém, em mais um golpe de azar, acabou perdendo o terceiro.

Desta forma, agora, o coração de Ogi está na posse do cramulhão, o que, abrindo completamente a interpretações, pode ser uma analogia a maldade que está no peito humano. A descrença no amor, transformada no peso que se carrega, foi decorrente do jogo que azar que o cupido perdeu inúmeras vezes com muitos de nós.

Em Eu Pergunto Por Você, com Don L, Ogi segue a busca pelo seu coração e vai direto ao diabo fazer um desafio. O anjo caído lhe faz uma charada para tentar buscar, mas como pai da mentira, foi uma busca cansativa e inconclusiva.

Em certo momento, Ogi acerta numa palavra dourada e acredita ter desvendado o mistério, porém percebe que a exaustão de tanto tentar já o havia consumido. Pediu tanto a Deus, sem retorno, leiloou a bilionários sua condição, mas não curtiu a proposta e então abraçou suas desilusões e desistiu da busca.

A participação de Don L na faixa traz uma atmosfera lúdica que a música pede. Uma aposta com o diabo abre precedente a muitas interpretações e por que o coração seria tão valioso em um contexto social onde os sentimentos são tão banalizados? Fácil… O sentir é justamente o que nos torna vivos.

A décima faixa, Peixe, é com certeza a mais elétrica do álbum. A potência de Tulipa Ruiz no refrão somados aos versos do Ogi sem dúvidas trouxeram outro tom para uma narrativa sobre a morte de um… peixe.

Encurralado por um tubarão branco, um golfinho, uma arraia e preso por um polvo, o peixe interpretado por Ogi se encontra com a morte mesmo após pedir ajuda a Netuno.

Porém o peixe habilidoso consegue escapar e com analogias a um jogo de futebol, dribla, se esquiva e delira a torcida ao fugir da morte. Após a fuga bem sucedida, o peixe sente fome. Encontra um pedaço de carne, saboreia, mas sente o anzol o puxando pela boca quando percebe que mordeu uma isca de pesca.

Ao pensar no seu filho órfão, o peixe se debate com força tremenda e consegue mais uma vez escapar dos braços da morte, que fica possessa e o avisa que a hora dele chegará, pela voz única de Tulipa Ruiz, que encaixa perfeitamente no tom eletrizante da música, repleta de dinamismo.

Após nos falar sobre o inferno, o cupido, o dia a dia do trabalhador e a morte de um peixe, Ogi nos apresenta mais uma narrativa inusitada sobre um desconforto imenso.

Uma dor imensa invade seu estômago e o narrador fica visivelmente abalado. A uma quadra de casa, ele pede ajuda aos céus e um alívio repentino bate. Porém, após 18 passos, a dor volta. Ele corre e alcança a porta de casa, só que sente dificuldades em abrir. Procura a chave loucamente, a encontra, se perde na pequena kitnet que parece um labirinto, mas chega ao banheiro e solta o que o agonizava tanto.

Ogi fez um rap de 2 minutos e 27 segundos sobre a vontade de cagar quando está na rua. Ele canta, nós rimos, mas ao mesmo tempo pensamos "é foda quando isso acontece", porque acontece mesmo! Obviamente, em um contexto alarmista neste, porém é completamente humano ao mesmo tempo. É fácil se relacionar, e mesmo assim ele consegue tornar lírico um momento assim em versos como "Suando em bica / Pois o inferno por dentro avança". É essa a mágica da narrativa que Ogi traz em seus álbuns, lirismo humano em seu estado puro.

Por fim, chegamos a Ufa!, com participação de Juçara Marçal. A faixa retrata um enquadro sofrido por Ogi. Após ser obrigado a limpar o coturno do guarda com sua própria camiseta, Ogi é obrigado a vesti-la suja e vomita na cara do policial por conta do cheiro que sua blusa emana.

O refrão é uma súplica pela vida, novamente. Bem como ocorre em outras músicas do álbum. O guarda, no entanto, parecia ler a mente de Ogi e retruca dizendo:

"Como se lesse a minha mente, ele me diz

Eu sou seu Deus

Seu infeliz, cê já morreu

Quer que eu seja um machado ou seja um cajado?

E aí, seu fariseu?"

Ogi escolhe o machado, mas em um ato de vilania o policial pega o cajado. Os demais guardas jogam Ogi no chão e arrancam sua bermuda. Ele descreve pavor e o lógico seria o ouvinte sentir o desespero pelo fone de ouvido, subindo aquele aperto no peito de quem não crê no que está escutando. Quando Ogi conclui que o fim está próximo, alguém diz "corta!", e o alívio passa de Ogi para o ouvinte.

"Muito bem, Rodrigo

Que atuação primorosa

Vamos para a próxima cena

Vocês todos estão de parabéns

Vamos, vamos, vamos"

A vida imitando a arte, a arte imitando a vida. É assim que o álbum se encerra. No final, com esse fechamento, podemos assimilar que Aleatoriamente de Rodrigo Ogi é justamente isso: a vida enquanto arte.

E quando dizemos vida, incluímos aqui os sentimentos mais puros e os mais pavorosos, a rotina massacrante que não traz nada de extraordinário e, ainda assim, a transformação dessa mesma rotina em extraordinário. Quando falamos sobre vida, no álbum de Ogi, isso também inclui a morte. O fim dos ciclos, o encerramento.

Como dito no início do texto, apesar do título, o álbum não é nada aleatório. Muito pelo contrário, é o que somos.

AUR
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