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Novo álbum do Mastodon, 'Marrow Deep', pode ser seu 'Shine On You Crazy Diamond'

Gravado uma semana após morte do ex-integrante Brent Hinds, banda americana de metal transforma sua dor em álbum emocionante

27 ago 2026 - 18h11
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Resumo
O nono álbum do Mastodon, Marrow Deep, transforma o luto pela trágica morte do cofundador Brent Hinds e perdas familiares em um trabalho maduro e catártico. Com a chegada do tecladista brasileiro João Nogueira e do guitarrista Nick Johnston, o disco aprofunda influências do rock progressivo e sintetizadores à la Pink Floyd. Produzido com Kurt Ballou e repleto de participações estelares, a obra entrega uma sonoridade pesada e visceral, marcada por angústia, técnica apurada e intensa emoção.
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Ao ouvir apenas alguns minutos de Marrow Deep, o tempestuoso nono álbum de estúdio do Mastodon que chega nesta sexta-feira, 28, fica claro rapidamente que eles simplesmente não sabem mais como se sentir. O álbum chega aproximadamente um ano após a morte do guitarrista, vocalista e fundador Brent Hinds, demitido de forma conturbada alguns meses antes, além da morte da mãe do baterista e vocalista Brann Dailor em fevereiro de 2025. Compor um disco nessas circunstâncias não era novidade para o grupo.

Mastodon em 2026
Mastodon em 2026
Foto: William Lacalmontie / Loma Vista Recordings / Rolling Stone Brasil

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Quase todos os álbuns da banda retratam o luto dos integrantes: eles lamentaram a morte do empresário Nick John em 2018 em seu álbum mais recente, Hushed and Grim (2021), a perda da mãe do guitarrista Bill Kelliher em Once More 'Round the Sun (2014), a tragédia do irmão de Hinds em um acidente de caça em The Hunter (2011) e o suicídio da irmã de Dailor, quando ele era adolescente, em Crack the Skye (2009) e Remission (2002). Hinds morreu em um acidente de moto cerca de uma semana antes de a banda entrar em estúdio para gravar Marrow Deep.

https://www.youtube.com/watch?v=94Cr7eKDZbA&list=RD94Cr7eKDZbA&start_radio=1&pp=ygUUbWFzdG9kb24gbWFycm93IGRlZXCgBwE%3D

Então, quando o vocalista e baixista Troy Sanders rosna "We don't get over this" ["Não dá pra superar isso"] em "In the Ruins", uma dor genuína ressoa em sua voz. De certa forma, Marrow Deep é a "Shine On You Crazy Diamond" do Mastodon. Uma homenagem a um companheiro de banda crucial para o início do grupo, mas que se perdeu, como eles explicaram recentemente de forma eloquente em um vídeo, além de um reconhecimento da fragilidade da vida.

Quando Dailor canta "I saw your ghost again, followed by crushing feelings of regret" ["Eu vi seu fantasma de novo, seguido por uma sensação esmagadora de arrependimento"] para Hinds em "Ghost Again", sua voz soa crua. E após um breve alívio musical, a canção se consolida nos riffs estridentes, cortantes e mordazes que a encerram. É pesado. E também estranhamente emocional, pelo menos para um álbum de metal.

Marrow Deep carrega todas as características sonoras da discografia do Mastodon — vocais roucos e potentes, riffs variando entre encorpados, viscosos e irregulares, ritmos excêntricos e solos em abundância — mas há algo na maneira como eles executam as músicas que permite sentir sua angústia. Isso não é algo ruim. Eles estão tocando no auge de suas habilidades, com o tecladista brasileiro João Nogueira e o guitarrista solo Nick Johnston, que se juntaram ao grupo este ano, mantendo o trio original sempre alerta. Mas seus instrumentos frequentemente choram, uivam e ululam tanto quanto os vocais.

"Barbarian's Blood" abre o álbum com um riff que evoca a sensação de afogamento, oscilando como ondas quebrando enquanto Sanders clama por socorro: "We're in danger, losing everything" ["Estamos em perigo, perdendo tudo"]. "Golden Spires", um dos destaques do álbum, vibra com uma guitarra rítmica visceral, tal qual o cenário de uma peça teatral desmoronando para revelar um palco vazio. "Free yourself to live, all I know" ["Liberte-se para viver, é tudo o que sei"], grita Sanders. "Liberte-se para viver". Enquanto isso, em "They're Coming for You", a música dá a sensação do mundo estar desabando sobre você, com riffs de guitarra rastejando como aranhas antes de saltarem de paraquedas sobre o ouvinte; em "Out Like a Lamb", o órgão de Nogueira mergulha em uma espiral mortal.

https://www.youtube.com/watch?v=3PQx9KUH5RQ&list=RD3PQx9KUH5RQ&start_radio=1&pp=ygUUbWFzdG9kb24gbWFycm93IGRlZXCgBwE%3D

Embora a linguagem do rock progressivo tenha sido uma parte importante do som do Mastodon nos últimos 20 anos, os solos ousados do grupo ganham ainda mais destaque em Marrow Deep. Nogueira assume tantos solos quanto Kelliher e Johnston. E ecos de bandas com forte presença de sintetizadores e teclados, como Pink Floyd, Deep Purple e até mesmo Yes, são muito mais proeminentes no álbum do que anteriormente.

Nogueira consegue evocar sintetizadores analógicos sombrios, à la John Carpenter ("Barbarian's Blood", a balada "Moth and Bone") e melodias sedutoras à la Dream Theater ("Snakes for Dinner"), às vezes adicionando elementos às músicas (sons reminiscentes de sinos em "In the Ruins") e de vez em quando deixando a coisa fluir livremente (a faixa de encerramento "The Three Fates", basicamente uma jam progressiva).

Os guitarristas exploram seus sentimentos com motifs de blues, explosões pirotécnicas e, seguindo a alusão a "Shine On", frases longas e sussurradas, à la David Gilmour. Mas eles não fazem tudo sozinhos. Como de costume, a lista de convidados do Mastodon neste álbum é extensa. Com Kurt Ballou, do Converge, coproduzindo o disco com a banda e Patrik Berger (Lana Del Rey, Charli XCX), não é surpresa que Ben Koller e Nate Newton, também do Converge, façam participações especiais, tocando percussão e contribuindo com vocais guturais, respectivamente. O álbum também conta com participações de peso de bandas como Gojira, Lamb of God, Queens of the Stone Age e Clutch.

Mas é a introdução de "The Vanishing", tocada por Geezer Butler, do Black Sabbath, que define a atmosfera geral do álbum. Ele improvisa e desenvolve ideias como se estivesse se aquecendo, até seu recitativo se transformar em um tema sombrio. A música se torna uma das melhores do disco, com uma levada envolvente, enquanto Dailor imita o efeito vocal de Ozzy em "Planet Caravan", do Sabbath, e canta: "Watch the universe expand romantically/I see my mother join beloved sister" ["Observe o universo se expandir romanticamente/Vejo minha mãe se juntar à minha amada irmã"]. Em seguida, Sanders canta versos que parecem capturar todo o remorso paralisante sentido por ele e seus companheiros de banda: "The more we love we suffer in it/Stays with us 'til the end" ["Quanto mais amamos, mais sofremos/Isso nos acompanha até o fim"]. Ele pergunta: "Can we bear the wound that never mends?" ["Podemos suportar a ferida que nunca cicatriza?"] A música termina com ele gritando… simplesmente gritando.

Marrow Deep, por vezes, soa turbulento, ornamentado, ponderado, caótico e catártico. Acima de tudo, maduro. Sumiu a raiva imatura e as aspirações de rebeldia que os levaram a escrever Leviathan (2004) sobre Moby Dick. Podem até tentar disfarçar algumas músicas com referências a tragédias gregas, mas os destinos e as fúrias aqui são próprios do Mastodon, incontroláveis e únicos. Tudo o que você pode fazer é ouvir e se perguntar: "Quanto uma banda consegue aguentar?", enquanto você uiva junto com eles.

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