Milo J define João Gomes como 'gênio' e se encanta com o Brasil: 'É muito louco que me escutem aqui'
Cantores se encontraram nos bastidores do Rock in Rio, onde o argentino se apresentou pela primeira vez no País. Ao Estadão, ele falou sobre sucesso de seu último álbum, feat póstumo com Mercedes Sosa e saúde mental: 'Vivemos uma geração hipercansada emocionalmente'
Em sua primeira visita ao Brasil, o rapper argentino Milo J, de 19 anos, encantou-se com a energia do público no Rock in Rio e em São Paulo. Impulsionado pelo álbum La vida era más corta e pelo sucesso no Tiny Desk, o artista celebrou a conexão com os fãs locais, que cantaram faixas com samples brasileiros. Milo elogiou a cultura do país, chamou João Gomes de "gênio", manifestou o desejo de gravar uma parceria com o cantor pernambucano e destacou o resgate das raízes latino-americanas em sua música.
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O argentino Milo J não vai esquecer tão cedo sua primeira viagem ao Brasil. No último sábado, 12, o cantor subiu ao palco Supernova do Rock in Rio, mas foi nos shows solo de domingo, 13, e terça, 15, em São Paulo, que sentiu o impacto dos fãs brasileiros. "É muito louco que me escutem por aqui, que abracem minha música", afirmou o rapper em entrevista ao Estadão.
Seu álbum mais recente La vida era más corta, lançado em 2025, e uma elogiada participação no Tiny Desk, projeto da National Public Radio (NPR), rádio pública dos Estados Unidos, foram o combo para que a música de Milo atravessasse a fronteira de vez e ganhasse admiradores por aqui. A participação no programa já soma 17 milhões de visualizações.
"A energia do Brasil é outra coisa", diz o cantor, que se impressionou com o canto do público em Recordé [faixa de seu disco mais recente que leva um sample brasileiro na introdução]. "Parecia o hino nacional", brinca o artista, de apenas 19 anos.
Nos bastidores do Rock in Rio, ele se encontrou com outra jovem estrela, o pernambucano João Gomes, apenas quatro anos mais velho. E fãs fizeram questão de pedir um feat entre os dois. "Eu adoraria. Ele é um gênio", elogia Milo.
As apresentações de Milo em São Paulo fazem parte da programação do festival MUCHO! Ciudad Sonora, que celebra a música latino-americana. O projeto teve início com um show de Manu Chao na última Virada Cultural e ainda vai trazer atrações como o grupo de cumbia peruano Los Mirlos e os percussionistas argentinos de La Bomba Del Tiempo à capital paulista até o fim do ano.
No dia de intervalo entre os dois shows em São Paulo, Milo J atendeu o Estadão por cerca de 20 minutos no escritório do Podpah, zona oeste de São Paulo. Confira o vídeo no topo da página e, a seguir, a íntegra da entrevista.
Obrigado por falar conosco. Queria te perguntar sobre suas primeiras impressões do Brasil. O que achou do público no Rock in Rio e aqui em São Paulo?
Incrível. Estou passando dias incríveis aqui. Eu acho que a energia do Brasil é outra coisa. Literalmente, energicamente, é diferente. O Rock in Rio foi incrível, mas era um festival. E o show de ontem [apresentação de domingo na Audio Club em São Paulo] foi uma loucura completa... Voltaria mil vezes.
Alguma parte em especial? Alguma canção?
Recordé. Parecia o hino nacional. Uma loucura.
Recordé é uma canção especial para nós brasileiros, por ter um sample em português [Meu Labor das Matas, do Morro da Crioula]. Acredito inclusive que você apresentou este canto a muita gente aqui no Brasil, que não o conhecia…
Ah, aqui no Brasil mesmo?
Sim, aqui no Brasil. Curiosamente um argentino que apresentou essa canção aqui a muitos brasileiros. Pode me contar como chegaram a esse sample e o porquê da escolha?
Queríamos muito ter algo brasileiro no álbum. Tínhamos escolhida uma primeira música, que acabamos sacando por não conseguir autorização para o uso. E, bem, eu sou muito algorítmico para escutar música. E eu estava às 3 da manhã procurando coisas brasileiras para samplear no Spotify, para ver o que eu gostava... E cruzei com o disco Festa no Morro, de cantos de umbanda, que me pareceu incrível. Encaixou perfeitamente na introdução de Recordé. Eu mandei ao Tatool [produtor do álbum La vida era más corta], que também adorou. A sonoridade tinha todo o sentido para a canção.
Voltando a falar de Rock in Rio, você se encontrou com João Gomes no backstage do festival. Do que conversaram?
Falamos de coisas da vida. Ele é de Pernambuco e me contou sobre sua terra, sobre o chapéu de vaqueiro que usa, das questões culturais, de como ia sua turnê atual. E, de verdade, acho que ele é um gênio.
Muitos fãs pediram um feat entre vocês. O que acha da ideia? Seja com ele ou com outros artistas brasileiros...
Sim, eu adoraria. Eu sou muito fanático pela música brasileira. Na verdade, é um universo muito louco porque são da América Latina, mas ao mesmo tempo diferentes. Sempre fui fã da cultura brasileira. O João Gomes tem altas músicas... E faz pouco tempo também falei com o MC Hariel, quando nos cruzamos num evento no México. É outro gênio, um 'capo'.
Você começou sua carreira em uma cena mais urbana, do rap, e com La vida era más corta, voltou-se para algo mais folclórico, de cantos de origem. O retorno às raízes e à cultura local é algo que outros artistas também estão fazendo, como Bad Bunny, por exemplo, mas também cantores brasileiros. Qual foi a sua motivação específica para este movimento?
Voltar às raízes é voltar-se para si mesmo. Eu sinto que estamos em uma geração hipercansada emocionalmente. E que, portanto, é muito nostálgica. Eu gosto de sempre que possível de voltar à música que escutava desde pequeno, ou que escutei em momentos felizes. E talvez o que acontece muito com os artistas, como por exemplo comigo, é que isso acaba desembocando no seu folclore, na sua própria cultura. Em La vida era más corta, eu uso muitas interpolações, samples e registros de pessoas mais velhas, artistas experientes, para trazer uma nova mensagem. E acho que atingi meu objetivo. Tenho muito orgulho deste álbum.
Você mencionou as canções que ouvia na infância. Imagino que havia muita música na sua casa. O que você escutava naquela época em Morón [cidade argentina onde Milo nasceu]?
Sim. Minha mãe escutava muito um grupo punk, de ska, rock, esses ritmos, que se chamava punk, ska, rock, que se chama Kapanga. Bersuit Vergarabat [banda de rock argentina] também, Ramones... E, no folclore, ouvia-se muito Horacio Guarany, Mercedes Sosa... Mas como eu te disse, eu só fui virar fã da música mais folclórica depois de grande.
La vida era más corta tem uma colaboração póstuma inédita de Mercedes Sosa, na faixa Jangadero. Como aquela gravação chegou a vocês e qual foi a sensação de gravar algo com a voz original dela?
Nós levamos o disco aos Estados Unidos para que Afo Verde, CEO da Sony América Latina, ouvisse. Ele gostou, se emocionou e nos disse que havia alguns registros de Mercedes que nunca haviam sido usados. São gravações que ela fez com Soledad Pastorucci, cantora argentina, em 2006, que é o ano em que eu nasci, inclusive. Ele enviou o projeto a Tatool e nós decidimos que só ouviríamos quando voltássemos para a Argentina. Foi a música mais difícil de gravar na minha vida. Cantar algo de Mercedes uma oitava abaixo foi uma dissociação da realidade. Foi tudo muito enérgico, muito espiritual. Eu fui para um outro lado nesse momento.
O debate sobre racismo na Argentina ganhou muita força aqui no Brasil durante a última Copa do Mundo. Você acredita que sua música e seu discurso podem fortalecer essa discussão sobre a identidade argentina e o apagamento das questões de raça e da cultura originária no país?
Eu acredito que nós vendemos uma imagem ao mundo de que a Argentina é só Buenos Aires, uma imagem 'portenho-centrista' como costumamos chamar. E isso não é verdade. A Argentina é Santiago del Estero, Salta, é Chaco, é Tierra del Fuego, é Formosa. Buenos Aires é, na verdade, onde menos se conhece a cultura folclórica argentina. E acho que com o último álbum, de alguma maneira, isso ficou demonstrado. Eu imagino que o mesmo deve acontecer com a imagem que se vende do Brasil, por exemplo. Desta vez eu vim ao Rio e a São Paulo, mas eu adoraria viajar o seu país, conhecer a cultura, a música, conhecer pessoas. Seria muito bom.
O Brasil tem uma fronteira linguística com os países hispanofalantes, mas temos ouvido cada vez mais canções em espanhol por aqui. Você acredita que essa barreira de entrada tem diminuído?
Acredito. E para mim, é muito louco que as pessoas do Brasil me escutem, que abracem a minha música, o meu idioma. Porque, obviamente, tanto o brasileiro quanto o argentino são completamente amantes de sua nacionalidade e de sua terra. E muitas vezes, talvez, é difícil abrir o ouvido para artistas de fora e, por isso, eu agradeço muito a gente do Brasil, aos fãs que estão ouvindo o último álbum, que abraçaram o último projeto, o amor que deram ao Tiny Desk. Foi incrível.
Como veio o convite para participar do Tiny Desk?
Foi um pouco antes de lançarmos o álbum [que saiu em setembro de 2025]. Recebemos a proposta para gravar em Washington, mas a primeira tentativa foi cancelada porque meus músicos não tinham visto. A segunda também se cancelou porque aconteceu algo com os voos nos EUA. E finalmente, na terceira, conseguimos fazer. E tudo isso nos deixou com ainda mais gana de fazer acontecer. E acho que o Tiny Desk se tornou algo como uma é versão alternativa do álbum também. É muito louco. É como uma 'guitarreada', como se estivéssemos todos aqui nesta sala. Sem fone de ouvido, sem edição. E nós ainda levamos alguns integrantes do Agarrate Catalina [grupo de murga uruguaia]. Eles são mais de dez pessoas, mas só nos deixaram levar cinco, por conta do espaço.
Você é muito jovem, tem só 19 anos, acabou de fazer um tour pela Europa, e agora aqui no Brasil. Quais precauções você toma para manter o equilíbrio mental?
Eu levo meus amigos e minha família nas agendas de turnê. Eles são meu time de trabalho. Isso é uma realidade. E isso facilita muito manter os pés sobre a terra ou ter alguém com quem falar. Minha mãe é minha gerente, por exemplo. Estou em família o tempo todo. E no meu tempo livre eu passo a maioria das vezes com minha namorada. Isso me ajudar a ficar tranquilo. Mas, no geral, sou uma pessoa bastante relaxada. Tento ver as coisas objetivamente o tempo todo. É muito difícil me deixar levar por algo. Não me caracterizo por isso.
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