TMDQA! Entrevista: Cameron Picton e o universo do My New Band Believe
Ex-integrante do black midi conversa sobre seu novo projeto, significados e trajetória O post TMDQA! Entrevista: Cameron Picton e o universo do My New Band Believe apareceu primeiro em TMDQA!.
Em 2024, o fim da black midi deixou um rastro de interrogações no cenário do avant-garde britânico. Enquanto muitos esperavam por silêncio ou lamento, Cameron Picton decidiu que sua resposta viria através da precisão cirúrgica - entre gravações em 11 estúdios diferentes de Londres e a colaboração de um septeto de cordas, o projeto (e álbum autointitulado) My New Band Believe nasceu como o registro de uma metamorfose, onde cada segundo de música foi pesado e medido como se o tempo fosse uma matéria sólida.
Pouco tempo se passou desde os primeiros rascunhos, mas a bagagem é densa. O músico, que já rodou o globo com uma das bandas mais experimentais da década, hoje olha para o próprio som com a curiosidade de um cientista. Lançando hoje o registro completo, Cameron se prepara para mostrar ao mundo como a tensão de faixas como "Actress" e o peso poético de "Heart of Darkness" se conectam em uma rede de exatos 177 números que ditam o ritmo dessa nova era.
Nesta entrevista exclusiva para o TMDQA!, mergulhamos nos bastidores dessa "escultura temporal". Tivemos a oportunidade de conversarmos com Cameron sobre como as regras que ele mesmo criou - como o banimento de instrumentos elétricos - foram feitas para serem estraçalhadas logo na primeira faixa, "Target Practice". Discutimos o amadurecimento sonoro que vai do dedilhado acústico à grandiosidade das cordas arranjadas por Kiran Leonard, e como a geografia de Londres assombra cada acorde.
Você pode até achar que conhece o estilo de Cameron, mas a verdade é que, entre 118 cordas e 19 segundos de silêncio, ainda há um universo inteiro para ser decifrado. Bora mergulhar nesses números?
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TMDQA! Entrevista - My New Band Believe (Cameron Picton)
TMDQA!: Cameron, primeiro de tudo, muito obrigado por nos receber, é um prazer, cara. Você forneceu dados extremamente precisos sobre a produção do álbum e sobre o projeto - em "Numerology", você repete a palavra "ass" 53 vezes e "night" 27 vezes. Essa obsessão estatística é uma forma de impor ordem ao caos após o fim do black midi, ou os números em si são uma forma de composição abstrata?
Cameron Picton: A ideia era basicamente ligar o single ao álbum, e também conectar muitas das informações sobre o disco e sobre o processo de produção - tudo de forma coerente através de números. Digo, você pode inventar números para justificar qualquer coisa, ou forçar a conexão entre duas coisas aparentemente desconexas através da matemática. Foi apenas uma maneira de unir tudo de um jeito que não fosse, tipo, muito louco ou incoerente.
TMDQA!: Ótima resposta. O fato de o disco durar exatamente o mesmo tempo que levou para ser escrito (dias x segundos) sugere uma simetria quase mística. Você sente que o álbum é uma "escultura temporal" onde cada segundo foi projetado para ocupar um espaço físico na sua vida?
Cameron Picton: Não exatamente, não sei quanto a isso. Mas, sabe, obviamente ele teve uma grande presença na minha vida, mesmo nos momentos em que eu estava dando um tempo do trabalho nele para seguir em outra direção! Estava sempre lá no fundo, meio que marinando.
TMDQA!: Interessante demais. Cara, você estabeleceu duas regras rígidas no início: zero instrumentos elétricos e zero músicos que tocaram em discos do black midi - e aí você quebrou ambas logo na primeira faixa, "Target Practice". Seu novo projeto é sobre criar limites apenas pelo prazer de vê-los desmoronar?
Cameron Picton: Bom, sabe… acho que foi apenas uma forma de tentar explicar que o álbum é basicamente um disco acústico. Havia uma meta flexível de tentar fazer isso o máximo possível.
E também, é uma curiosidade engraçada, mas a regra sobre músicos do black midi era só uma ideia de tentar trabalhar com gente nova. Porque, obviamente, se eu quisesse teclas eu poderia pedir ao Seth [Evans] e ele faria um ótimo trabalho, ou pedir ao Kaidi [Akinnibi] se ele quisesse tocar sax. Mas uma das coisas que eu queria tentar com o álbum era trazer muita gente nova para o grupo e ter a chance de trabalhar com pessoas diferentes, basicamente.
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TMDQA!: Você mencionou que estava tentando dar importância ao "pequeno" para que o "grande" parecesse real. Em "Love History", passamos de escolher entre batatas ou arroz para um espeto de metal cainou do céu. Por que a rotina doméstica é o cenário perfeito para o horror ou a perda repentina?
Cameron Picton: Eu acho que o que eu tentei fazer na música foi que… muitos desses artistas pop tipo "cantor e compositor" que estavam por aí quando comecei a pensar no álbum faziam essa coisa de descartar um evento trágico como se não fosse nada - e você não sentia que o peso do que estava acontecendo na música era real, ou você se identificava menos com eles por causa disso.
Não é algo com que se possa relacionar, é apenas absurdo, mas não de um jeito interessante. Então eu tentei fazer algo que fosse tipo… na verdade, o que importa são os pequenos momentos da vida, não só no amor ou em qualquer tipo de relacionamento ou amizade. O que importa são as partes "entre" as coisas, e a perda é sentida nas pequenas coisas. Isso é tão poderoso quanto todos esses sentimentos grandes e impotentes que acontecem em algumas daquelas músicas.
TMDQA!: Resposta maravilhosa. Suas letras mencionam frequentemente não acreditar na história de outra pessoa, como em "Actress", ou não ser o homem que a outra pessoa achava que você era, como em "One". Quanto da instabilidade do narrador neste disco é um escudo contra a exposição de ser um cantor e compositor moderno?
Cameron Picton: Bem, eu só acho que é uma coisa interessante brincar com a perspectiva de quem está cantando e brincar com o quanto você revela sobre uma narrativa, e acho que tem essa coisa de não precisar ser necessariamente uma coisa ou outra; pode ser as duas ao mesmo tempo. Foi isso que tentei fazer.
TMDQA! : O envolvimento de membros e músicos como Steve Noble traz uma textura muito específica ao som. Você tem músicos que variam de 21 a 66 anos no mesmo disco. Como essas diferentes gerações interpretam seu desejo de fazer a grandiosidade parecer irrelevante e o pequeno parecer real?
Cameron Picton: A faixa etária dos músicos no álbum é basicamente entre 21 e 35 anos, e o Steve é uma exceção nisso - mas tive uma das experiências mais recompensadoras trabalhando com o Steve. Ele é um baterista incrível e foi tão aberto, generoso e leve, mas muito focado seriamente no que estava fazendo naquele momento. Então, sim, foi incrível poder trabalhar com ele!
TMDQA!: Você escreveu sobre a arte visual deste projeto, que nasceu de um sonho envolvendo fotos de infância e uma explosão em uma montanha. Se você pudesse entrar naquela pintura de 65 pássaros, qual seria o som ambiente daquele vale? Seriam os 19 segundos de silêncio que você deixou no disco?
Cameron Picton: Talvez o silêncio da primeira música, talvez… ou um pouco da distorção em parte de "Heart of Darkness" ou "Numerology"… partes de "Actress"… qualquer coisa poderia contribuir para isso, eu acho.
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TMDQA!: Gostei das escolhas! Cameron, o Alex MacKenzie nasceu 200 anos após o início da construção do edifício (Horse Hospital) onde a foto da capa do álbum foi tirada. Você acredita que o álbum carrega uma "assombração geográfica" de Londres?
Cameron Picton: Sim, e acho que isso é uma representação de apenas uma pequena parte do mundo musical interconectado de Londres, obviamente vai muito além do que está no disco. Londres é sentida de uma forma e ouvida diretamente de outras.
Então, sim, eu concordo!
TMDQA!: Sua ideia para a banda funciona como o King Crimson: um ciclo, um ano, e então a decisão coletiva de continuar ou não. Se este projeto foi desenhado para morrer ou se transformar radicalmente após cada ciclo, isso tira o peso das expectativas de um "difícil segundo álbum"?
Cameron Picton: Eu acredito que é apenas uma questão de sempre tentar explorar coisas diferentes e fazer as coisas de uma forma apropriada para aquele momento. Veremos o que acontece, não sei o que vai acontecer.
Existem várias direções diferentes para seguir, tenho muitas ideias e não quero me comprometer agora…
TMDQA!: O disco sai nessa sexta, 10 de abril. Se você pudesse escolher apenas um dos 177 números mencionados na história do disco para as pessoas tatuarem ou guardarem na memória, qual seria e por quê?
Cameron Picton: [risos] Acho que vai ser o que estiver na primeira posição da parada!
TMDQA!: Cameron, meu nome é Eduardo, e eu estou representando um site brasileiro chamado "Tenho Mais Discos Que Amigos!". Primeiramente, queria saber: você também considera ter mais discos do que amigos?
Cameron Picton: Olha, eu devo ter uns 500 ou 600 discos e CDs em casa. Não acho que seja possível ter 500 ou 600 amigos, então, com certeza é o caso! [risos]
TMDQA!: Perfeito! E se pudesse escolher cinco álbuns para falar sobre o significado deles para você e sua vida, quais seriam e por quê?
Cameron Picton: Bom, eu escolheria o Songs of Rapture and Redemption: Rarities & Live da Judee Sill, o Bert & John de Bert Jansch e John Renbourn, o álbum de estreia do Augustus Pablo (This Is Augustus Pablo), Let My Children Hear Music do Charles Mingus e escolheria algum álbum dos Novos Baianos, eu acho,
TMDQA!: Ótimo, encerramos aqui. Cameron, muito obrigado por me receber, sou um grande fã. Sucesso com o álbum, obrigado!
Cameron Picton: Eu quem agradeço pelas ótimas perguntas. Até uma próxima!
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