Pedro Salvador renasce com sede de renovação em novo disco homônimo
Cantor alagoano fala sobre novo disco homônimo e destaca o tempo, renovação e a efemeridade da música O post Pedro Salvador renasce com sede de renovação em novo disco homônimo apareceu primeiro em TMDQA!.
A noite parecia silenciosa, e as ruas do bairro do Jaraguá, em Maceió, também estavam um tanto esvaziadas. Exceto um lugar. Ao chegar no ponto de interesse, as luzes difusas me chamavam a atenção para algo curioso: olhando os ingressos de entusiastas, agarrado com uma porção de "batatinha" (como os alagoanos chamam as batatas fritas) e, encostado em um tonel de ferro, estava Pedro Salvador.
Pedro é multitalentoso e já possui passagens nas bandas Necro e Messias Elétrico, onde lançou diversos projetos em grupo. Mesmo já reconhecido, foi na carreira solo que os seus trabalhos deslancharam ainda mais devido a sua fórmula particular de manipular as ondas sonoras entre os instrumentais e vocais fora da vigência comum da indústria (Objetos no céu e Caos Rastejante & Pedro Salvador).
Ele nem cogitou não organizar a bilheteria - que, por sinal, não queria nenhuma ajuda, até mesmo de sua assessora. Salvador apenas saiu dali para fazer a sua apresentação. Catártico, um estrondo musical aconteceu e assustou a todos, mas não de medo. Exclusivamente alegria.
Encerrado o show, nós fomos para um lugar privativo. Em uma mesa de madeira, conversamos sobre o seu disco homônimo de 2026, onde apresenta muitos "novos", como as músicas inéditas. No entanto, há também arranjos renovados e partes adicionais de canções antigas de sua discografia.
O charme do LP é a ousada decisão de retirar quase todos os artistas convidados de sua zona de conforto. Ora, digo quase porque há lendas populares na ilustre lista de participações que fazem disrupções antes mesmo de Pedro existir.
E, logo no início, o nervosismo do cantor em ceder uma entrevista causou um efeito intrigante: o bate-papo que, em meia hora, conseguiu perdurar por horas em nossas mentes.
TMDQA! Entrevista Pedro Salvador
TMDQA: Pedro, você comumente tá nesse papel de muito-instrumentista, mas você também foge dessa ideia de ser apenas um cantor dentro dessa estrutura padrão da indústria musical. E nesse novo disco essa ideia também é ressaltada em diversos momentos. Como você se coloca, enquanto artista, diante de tantas possibilidades que a música te oferece?
R: Acho que, em primeiro lugar, eu tô numa posição e me sinto numa posição de compositor. De pessoa que cria, um indivíduo criativo. E, a partir disso, eu acabo virando as outras coisas também, né? Instrumentista, cantor e tal… mas eu acho que a origem é da composição nesta posição de pessoa criativa.
TMDQA: Enquanto compositor você também cria essas ideias. Suas composições possuem uma rede de significados diferentes que também foge muito desse padrão de composição que a gente conhece. Uma das faixas do disco chamada "Regolito" tem a palavra essa repetidas vezes, mas é uma palavra que normalmente não está nos vocabulários cotidianos.
R: Às vezes a música tem uma letra, mas ela tem um coração de canção instrumental - assim, é como se a letra fosse um outro instrumento ali. E, algumas vezes, não faz nenhum sentido. Uma coisa mais musical mesmo. Porém quando eu componho sigo alguns processos diferentes. Às vezes eu faço a letra primeiro e, em outro momento, componho primeiro a música.
Então realmente é uma coisa que flui na minha cabeça. Depende do momento, de algo que me inspira e que vem de repente. Regolito, por exemplo, é uma palavra que ficou na minha cabeça porque eu vi em algum lugar, sei lá [risos], em algum documentário ou alguma coisa assim. Ela [a palavra] musicou na minha cabeça e já a partir disso virou uma música. Então acho que é isso, um processo meio caótico mas que em algumas ocasiões, vai se convergindo para uma criação que eu vou montando devagarzinho.
TMDQA: Você falou que às vezes cria uma música já pensando na composição ou vem primeiro o instrumento. Hoje em dia, tu prefere estar ali nos instrumentos ou tá na composição? Ou você não tem essa preferência.
R: Eu acho que são dois lugares que eu gosto por igual. A composição é a origem de tudo, mas eu também me divirto tocando os instrumentos - mesmo que eu não seja o mais exímio instrumentista.
TMDQA: Que nada!
R: Muitas vezes eu penso em uma música primeiramente a imagino na bateria. Vejo o ritmo e a base rítmica da coisa e, a partir daí, eu vou montando. Esse é um dos caminhos, né? Atualmente eu não sei, estou em uma fase de transição; experimentando coisas novas. Principalmente depois desse disco que tem umas músicas antigas e eu meio que me livrei delas e me sinto aberto pra começar coisas novas.
TMDQA: Essa questão de novos repertórios se casa com a parceria de Bárbara Castelões e Tiago Araújo ("O Êxtase de Santa Tereza") que tem alguns elementos de funk e até mesmo o ritmo que a Bárbara canta é bem interessante. Então, você além de estar ali na questão do rock progressivo - como algumas pessoas falam - que vai nessa pegada setentista, Você também pega gêneros recentes que estão aí na boca do povo e estão tocando em todos os lugares possíveis ou já tá aí no seu núcleo?
R: Eu pego! Não tem como eu deixar de pegar porque eu sou habitante daqui da cidade e essa é a trilha sonora de Maceió. Toca em todo canto e eu tô ouvindo e absorvendo isso. Também estou gostando de ouvir o contexto de rock lá na minha origem.
Nas bandas que eu tive, o contexto do rock é muito fechado para o som que não seja do gênero, e eu passei por um processo de me livrar disso. Assim, eu não gostava dessa posição que o rock tem, sentia que eu tinha que me abrir para essas coisas. Eu acho que tô tentando, mas também com muito cuidado para não ser aquela coisa de pastiche ou de folclorizar, tipo como se eu pegasse e escolhesse um gênero, por exemplo, e falar: "ah vou vou tocar funk porque funk é uma coisa popular e eu quero ficar popular". Não é por aí, sabe? É algo que vem naturalmente da vivência mesmo. Das ruas, das pessoas com quem eu me relaciono nesses lugares. A música viva… música da cidade mesmo. Eu acho que tô introduzindo isso de uma forma orgânica.
TMDQA: A colaboração com o Chau do Pife fala muito sobre essa questão de folclorização mesmo, né? O Chau já é um artista que foge dessa folclorização do pife enquanto tradição aqui de Alagoas. E com a música "Gênese e Destruição pt. 2" acho que é a música definitiva para mostrar que ele manipula o instrumento tão bem a ponto de você falar "caramba não é o pife de Alagoas, é o pife do Chau. Na audição eu lembro que você disse que ele só chegou e tu descreveu um pouco como que era a música e ele só simplesmente fez da maneira dele. como que foi fazer essa parceria e também como que é para você ter essa questão da instrumentação tirar essa folclorização de lado e colocar algo inédito novo que soe novo e ainda amplie a percepção de música para muitos ouvintes de Pedro Salvador?
R: Eu acho que o contato que eu tive com o Chau ressoou com algo que eu já tinha dentro de mim, que é eu não buscar um som antigo - e nem tô buscando inspiração nos anos 70. Eu tô buscando criar uma linguagem que eu acho que é nova porque eu penso em um futuro desta maneira. Quando eu tive contato com ele [Chau] houve a oportunidade de estudar e conhecê-lo. Pessoalmente sinto que ele estava nisso também, apesar dele ser uma pessoa que tem a origem na música de raiz, no pife, que é esse instrumento ancestral.
Antes de eu ter se apresentado ao Chau eu o via tocando em show de forró, mas no cara a cara eu pude ver que ele também tem um pensamento como o meu, que ele também tá pensando na música como algo para frente, sem ficar nessa posição de ser um folclore, de música ser uma eterna homenagem ao que é ancestral. Claro que o ancestral vem junto, só que é assim que eu vejo o show do pife, e é assim que se deu também essa nossa parceria, como algo olhando para o futuro.
Tanto que você falou que a gente não sente que as canções dele são coisas regionais. Eu também sinto isso! É algo que vai para o universal, mesmo ele não possuindo esse hype. Tipo, o Hermeto Pascoal, por exemplo, conquistou ao longo de muitos anos. Já o Chau do Pife ainda tá nesse processo de mostrar para as pessoas que ele faz um som futurista.
Eu acho que essa música [Gênese de destruição] mostra bastante isso. Além do trabalho que ele tem feito com a Ana Gal que é um projeto que vai muito por isso. Eles tocam os dois sozinhos no palco, que é muito interessante e muito futurista.
TMDQA: Além do Chau do Pife, você fez a música "Beijo do Lagarto" com a May Honorato e é uma coisa surpreendente porque ela fez uma canção com o Chico Torres, que é um forró, e você jogou ela pra fazer vocais completamente diferentes do que ela casualmente canta. Porque você tem essa proposta também dentro do seu cerne enquanto músico?
R: Eu vejo essa galera como grandes instrumentistas, apesar de não tocarem, mas a voz é um instrumento e são pessoas que tem uma técnica apuradíssima. a voz é um instrumento de perfeição. a May [Honorato], por exemplo, na trajetória dela a gente vê que ela sempre está atrelada a uma canção , seja em colaborações ou no próprio trabalho solo também. No entanto, eu já via essa possibilidade nos vocais dela de ser um instrumento e, enquanto instrumento, ser possível de ir para outros lugares que ela não estava indo ainda. Eu via de longe, mas aí quando eu pude a conhecer pessoalmente aí tive certeza que eu vi que ela era uma pessoa também de uma criatividade imensa. Então acho que talvez não tenha sido um lugar tão fora da zona de conforto dessas pessoas. É um lugar que elas já estavam meio preparadas para ir. Só não estavam indo quem sabe vão mais agora também.
TMDQA: Sobre os novos arranjos das suas músicas, você também criou novas partes de canções antigas. "Flores Mortas" tem duas partes e uma dessas partes seria da faixa original de 2019, só que é completamente diferente da atual. Ela tem uma outra pegada. Então como você pensou em fazer essas partes?
R: Elas [as partes] já vinham de antes desse disco.
Já era uma coisa que pensava originalmente nas canções ou elas vieram agora nesse novo ciclo nessa nova fase?
R: Algumas músicas eu já tinha lançado antes, mas, ao longo dos anos, eu fui fazendo shows, fui tocando ao vivo e fui fazendo essa movimentação do palco. Essas canções foram se transformando no palco junto com a presença do público e, assim, ela vai virando uma coisa maior do que já é. Eu senti a necessidade de colocar isso novamente no disco porque as versões anteriores já estão meio defasadas. Pensei que ainda desse para espremer mais alguma coisa, e acabei fazendo uma divisão nelas porque elas já tinham essas partes dentro. Por exemplo, "Flores Mortas" tinha sei lá… uns sete minutos. Então dividi em duas partes.
TMDQA: Você acredita que essas canções não te representam mais quanto artista ou ela ainda te representa mas de um sentido diferente?
R: Acho que representa um retrato da época que eu gravei e o Pedro do passado. Aquele momento foi importante ter gravado essas músicas, porém o tempo passou e eu tô em outro lugar. É como se fosse uma atualização da programação que, consequentemente, tive que renovar as faixas também.
TMDQA: E Pedro, hoje em dia como que você se vê como artista? Uma coisa que foi falada ao longo do tempo é que você não categoriza ele em algum gênero, né? Tem muita gente que tenta categorizar o disco como um gênero específico mas você fala que ele não tem, pois é múltiplo, plural. Então enquanto artístico você também se vê como um artista de pluralidades?
R: Me vejo sim, porque eu não estou bebendo de uma fonte única, estou sendo influenciado de vários lugares diferentes. Atualmente passo por um processo de desenvolver uma linguagem própria - talvez, enquanto artista, seja muito arrogante falar isso pois acho que todos queiram isso - mas eu acho que depois de tanto tempo, ter gravado tanta coisa, eu imagino conseguir chegar em um lugar mais particular e que fuja do que eu já fiz no passado. Realmente, eu já fiz projetos que você podia dizer que eram especificamente rock ou de um certo gênero. No entanto, agora eu acho que eu tô conseguindo pisar nesses outros lugares que são difíceis para me dizer onde estão.
TMDQA: Esse disco vai te fazer repensar no futuro. Será que você acha que o álbum vai te representar ao longo desses anos ou ele vai acontecer a mesma coisa que aconteceu com os outros LPs?
R: Talvez aconteça, não é? Porque quem sabe como vai está a minha cabeça daqui a dois anos. Tudo é um ciclo. A gente grava e trabalha num álbum e espreme o disco até a exaustão. Faz shows, divulga e a gente fica meio enjoado do projeto. Foi o que aconteceu um pouco com os meus LPs anteriores, eu passei muito tempo não querendo ouvi-los. Porém o tempo passa e ainda tem coisas do passado que eu não consegui ouvir no presente.
Hoje em dia eu já escuto com mais carinho e percebo que isso é um retrato de uma época e de um processo de desenvolvimento que eu estou tendo. Eu acho que vai ser a mesma coisa com isso também tá me retratando agora e é um registro desse tempo.
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