'Lost Weekend' é uma reflexão audaciosa e melancólica de Phoebe Bridgers sobre a vida e a morte
Após um longo hiato e projetos paralelos, Bridgers retorna ao seu estado mais honesto em uma sequência de 16 faixas imprevisíveis
Seis anos após o lançamento de seu último álbum solo, Punisher, Phoebe Bridgers retorna às plataformas digitais nesta sexta, 14, com Lost Weekend, projeto mais experimental de sua carreira. Ao longo de 16 faixas (um recorde para a cantora estadunidense), Bridgers transita entre músicas curtas, interlúdios, sons distorcidos e reflexões profundas sobre relacionamentos, amadurecimento, morte e luto.
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Apesar de ser sonoramente mais imprevisível do que seus discos anteriores, o PB3 mantém a melancolia no som e no lirismo característicos do indie-folk da artista, que navega por sentimentos complexos com completa honestidade — provando, mais uma vez, sua capacidade impressionante de composição intimista.
Ressoando com o título do álbum (e de quatro faixas), o sentimento de estar "perdida" é uma constante da narrativa de Lost Weekend. Enquanto Bridgers enfrenta essa busca eterna pelo seu lugar no mundo, ela revisita o passado. A artista carrega o ouvinte em um percurso de turbulência emocional, atravessando o fim de um relacionamento, o início de outro e a morte do pai, Tony Bridgers, em dezembro de 2022. Mas é preciso se perder para se encontrar.
Nos anos em que passou sem novidades solo, Phoebe fez parte do grupo boygenius ao lado de Lucy Dacus e Julian Baker (que inclusive tem participações no álbum). Entretanto, a sonoridade de seu novo trabalho retorna a um local mais introspectivo do que os álbuns do trio. Muitas das músicas têm arcos não convencionais, texturas sonoras desconfortáveis, mudanças drásticas no instrumental e fins completamente abruptos.
Mas este pode ser um dos maiores feitos de Lost Weekend: apesar do sucesso estronodoso de Punisher e dos Grammys que venceu com o boygenius, Bridgers se recusa a mudar seu estilo de composição para se encaixar nos moldes comerciais da indústria. Sua essência permanece inteiramente presente aqui, e o público que ela deseja reencontrar é aquele que sempre esteve à sua espera.
Análise faixa-a-faixa
A faixa de abertura, "The Outside", é cantada com o uso de um vocoder, que concede um efeito robótico à voz de Phoebe. "Fists through the drywall / I'm frozen in place / But not afraid" ("Punhos atravessando a parede / Estou paralisada / Mas não sinto medo), canta.
"Kill Me" reflete sobre o envelhecimento e a passagem do tempo, e o instrumental crescente leva o ouvinte a uma espécie de catarse emocional. O single "Lost Boys" eleva o disco a um local mais otimista — apesar da letra melancólica, a melodia é cativante (semelhante a singles anteriores como "Motion Sickness", de Stranger in The Alps, e "Kyoto", de Punisher).
https://www.youtube.com/watch?v=4KXnboPN1p4
Em "The Governors Waltz", Phoebe usa vocais suaves para relembrar o Governors Ball Festival, onde se apresentou em 2021, e seu relacionamento conturbado com o ator Paul Mescal entre 2020 e 2022. A faixa ganhou repercussão por referenciar a atual namorada de Mescal, Gracie Abrams ("She took my place in my bed in that stage", referencia).
Lost Weekend transmite a sensação de estarmos lendo um diário de Phoebe, virando as páginas de suas memórias. Mas nem tudo são lágrimas: o disco também tem momentos dedicados ao seu novo amor, o comediante e músico Bo Burnham. Ele é mencionado em "Kill Me" ("Bobby, you taught me that I know nothing") e protagoniza "Bobby", uma das faixas mais animadas do disco (e de toda a discografia solo da cantora), recheada com as borboletas no estômago do início de uma relação.
Depois da faixa-título, vem um dos destaques do álbum: "Haunted". Com toques sutis de country, a canção remete ao sentimento agridoce de "Graceland Too". "I'm gonna put myself together / You can go or you can stay / I'm gonna put myself together either way" (Vou me recompor / Você pode ir ou ficar / Vou me recompor de qualquer jeito").
"Panorama", com dois minutos instrumentais, funciona como uma espécie de interlúdio, e assim Phoebe entra na segunda metade do álbum (com talvez a música mais triste de todas). "Still Standing" é uma reflexão profunda sobre o luto por seu pai e os sentimentos conflitantes que surgiram com ele — arrependimento, tristeza, raiva, alívio —, devido à relação complexa dos dois e as lembranças negativas da infância de Phoebe. "Feeling indifferent wearing black / Sometimes I want you back / But not today" (Me sentindo indiferente vestindo preto / Às vezes quero você de volta / Mas não hoje"), canta.
Bridgers contou que teve muita inspiração na ambient music (música ambiente) para compor o álbum. "A canção que mais ouço por prazer é, provavelmente, ambient music, mas nem percebi a quantidade de elementos que havia no disco até que ele estivesse pronto", disse à imprensa. "O que adoro na música ambiente é que, ao ouvi-la, é impossível não sentir aquilo que ela tenta transmitir. A forma de transferência emocional do compositor para o ouvinte é totalmente diferente daquela que depende de uma letra para contar ou informar algo."
"Liberty Tree" volta ao tema de seu relacionamento com Bo, e "Never Going Back" mantém a energia no alto. Mas a música curta termina com uma mensagem de voz do falecido pai (Phoebe é especialista em deixar o público com um aperto no coração).
Depois de "Other Plans", uma das mais lentas do disco, e o interlúdio "Lost Parade", "I Can't Wait" traz uma sensação de esperança: Phoebe canta não sobre estar bem, mas sobre estar melhorando aos poucos. A canção inclui vocais masculinos que despertaram a curiosidade do público (creditados como Son-John Johnson, mas há especulações de que este seja um pseudônimo para Cameron Winter).
"As Above" começa introspectiva e escala para gritos da cantora no final — ressoando canções como "I Know The End", de Punisher. Em "Lost Weekend - Reprise" (outro recurso amado da cantora), Phoebe encerra o disco com excelência, transmitindo a aceitação do luto e da vida após a perda. "My dream comes true / A fantasy dies / But we're gonna be alright". O fim, como muitas outras faixas — e talvez como na vida —, é abrupto.
Processo criativo
Segundo Bridgers, um de seus maiores aliados na criação do álbum foi permitir-se o tempo necessário para executá-lo."O álbum é muito diferente de como era quando comecei. Não se parece em nada com o que eu havia imaginado", afirmou. "Há certos elementos que agora parecem ser o coração do álbum, mas que não faziam parte dele por muito tempo".
"Acho que a maioria dos músicos indie — pelo menos os que conheço — compõe por dois anos e lança um álbum, depois compõe por mais dois anos e lança outro; mas, se eu tivesse parado depois de dois anos ou algo assim, teria a sensação de estar caindo de um precipício", continuou. "Eu estava um pouco cansada do mundo. Queria me afastar da vida pública. Eu tinha a sensação de que, se escrevesse mais músicas, isso significaria fazer o oposto, e havia algo nisso de que eu não gostava nem um pouco".
Eu precisava de uma relação diferente com a música que estava criando e com o mundo onde ela seria lançada. De certa forma, o álbum trata disso. E ele só poderia ter sido feito depois de encarar essa realidade de frente.
Nesse sentido, a proposta de Phoebe de fazer shows sem celular faz total sentido. Lost Weekend pressupõe uma imersão do ouvinte em seu universo, e, ao vivo, a cantora pode construir um ambiente de intimidade inigualável com os seus fãs.
Produzido por Tony Berg, Ethan Gruska, Jack Antonoff e a própria Bridgers (com produção adicional de Alex G), este é um trabalho contemplativo e poético, que se apoia nos mesmos pilares da obra anterior de Phoebe — mas não deixa de ser ousado à sua própria maneira. E, embora Lost Weekend seja extremamente íntimo e pessoal, a artista trata aqui de sentimentos universais. É um retorno triunfal e ambicioso, que não abre mão da maior potência de sua obra: a conexão.
Nota: ★★★★½
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