Lia Clark, Traemme e Zumbicore expõem barreiras LGBTQIAPN+ no funk: "Hackear o sistema"
Artistas e especialista analisam as barreiras e avanços da comunidade LGBTQIAPN+ em um dos gêneros mais populares do Brasil, o funk. O post Lia Clark, Traemme e Zumbicore expõem barreiras LGBTQIAPN+ no funk: "Hackear o sistema" apareceu primeiro em POPline.
É fato que ainda é preciso lutar para que personalidades LGBTQIAPN+ conquistem seus espaços onde, majoritariamente, pessoas cisgênero o e heterossexuais dominam. A situação não é diferente na música, onde, mesmo com a constante presença da comunidade, episódios de preconceito são frequentemente repercutidos na mídia. Quando o assunto é funk, a constância de personalidades queer é ainda menos notável, e surge a pergunta: você já viu algum artista LGBTQIAPN+ ter a parcela de sucesso que merece?
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Para entendermos a questão por meio dos olhos de quem, de fato, é próximo das nuances que envolvem arte e expressão LGBTQIAPN+ em um ambiente predominantemente heteronormativo, o POPline conversou com personalidades do funk que preservam as características tradicionais do gênero ao mesmo tempo que não escondem suas identidades como maneira de viabilizar o sucesso.
Dificuldades da comunidade queer para se estabelecer no funk
Para Lia Clark, artista drag e fortemente influenciada pelo funk, a sociedade é fator decisivo em seu sucesso na indústria da música. "A maior dificuldade é estar inserida em uma sociedade ainda muito machista, que não apoia artistas LGBTQIAPN+ da mesma forma que apoia artistas cis heterossexuais, especialmente dentro de um gênero musical que históricamente já foi marginalizado. Carregamos muitos preconceitos e estigmas junto com a nossa arte", afirma.
"Aos poucos estamos avançando e conquistando espaços, mas ainda existe uma visão de inferioridade sobre o nosso trabalho, tanto por parte da sociedade quanto, muitas vezes, de pessoas da própria comunidade. Relacionar minha identidade ao material que produzo nunca foi um problema, a minha arte nasce da minha vivência. O desafio é romper as bolhas e alcançar novos públicos sem precisar abrir mão daquilo que eu sou."
Artistas LGBTQIAPN+ no funk: uma nova possibilidade
Para artistas como Zumbicore, a presença de personalidades queer no cenário é uma conquista que abrange mais do que uma realização própria e alcança a comunidade como um todo. Bissexual, o artista explora a sensualidade e sexualidade em uma sonoridade que, em geral, costuma considerar apenas relações heterossexuais e cisgênero: o "funk putaria". De acordo com o artista, sua arte representa uma nova possibilidade em um meio onde sempre se vê mais do mesmo.
"Para mim é muito mais que uma validação, é como se eu estivesse conseguindo chegar onde eu quero chegar junto com as pessoas da minha comunidade. Quando pessoas como eu me param nos backstages, camarins e nos shows pra dizer que veem em mim uma possibilidade de ser e criar dentro de um ecossistema que é tão excludente."
Excludente, sim — porém há brechas. Traemme, artista transsexual e ativista da causa LGBTQIAPN+, aponta para a sensação de não pertencimento compartilhada entre nomes queer que buscam um espaço na indústria, e afirma que a situação vai de contramão com os princípios de identificação da arte: "As pessoas não se sentem pertencentes. Quando a gente consome arte, parte disso é para, justamente, confortar e se identificar". A artista também enxerga uma limitação do gênero a nichos: "Quando se fala sobre algo que ainda há tabu, é natural que se crie uma rejeição e setorização em cima do trabalho".
As brechas? Traemme acredita que a introdução de novos trabalhos, rostos e formas de expressão dentro de gêneros já consolidados — mesmo sobre base preconceituosa — é uma maneira de "hackear o 'CIStema'"e entregar aos artistas LGBTQIAPN+ a mesma parcela de sucesso que trabalhos heteronormativos possuem.
"A música tem o poder de transformar, e se a gente conseguir normalizar alguns segmentos, muita coisa pode mudar na indústria e na forma que as pessoas no geral consomem música."
Expressões de sensualidade e sexualidade
Para Lia Clark, a falta de apoio à comunidade queer no ramo artístico pode justificar a diferença em que manifestações de sensualidade e sexualidade são recebidas pelo público que consome o trabalho. "Parte disso acontece pela falta de apoio que artistas LGBTQIAPN+ recebem até mesmo dentro da própria comunidade. Muitas vezes somos julgados justamente quando falamos sobre a nossa sexualidade de forma aberta e explícita."
"O curioso é que o mercado já aceita esse discurso quando ele vem de artistas heterossexuais. As músicas mais consumidas do país estão cheias de referências sexuais e relacionamentos. O problema não é o tema. O problema é quem está cantando. Enquanto não houver o mesmo acolhimento e a mesma disposição para consumir narrativas LGBTQIAPN+ com naturalidade, essa discrepância continuará existindo."
A explicitude das canções, porém, pode também significar um reflexo do cotidiano comum — comum para artistas de dentro ou fora da comunidade, porém, socialmente aceito para apenas um deles. Zumbicore afirma que suas canções são explícitas como sua maneira de, por meio do processo criativo e quando compreendido como um todo, narrar uma realidade e transmitir um significado.
"Minhas músicas são explícitas por um motivo: a minha realidade é dessa forma, e as minhas músicas retratam a minha realidade e a realidade de pessoas que são como eu. Para além da música, todo meu processo criativo envolve várias outras formas de arte que separadas podem significar coisas completamente diferentes, mas, juntas, contam uma história."
O que é preciso mudar para que novas identidades possam pertencer ao funk?
Para Tamiris Coutinho, Mestra em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense e doutoranda pesquisando sobre manifestações culturais do funk e trap no Rio de Janeiro, a principal barreira enfrentada pela comunidade LGBTQIAPN+ no funk ainda é estrutural. Coutinho aponta para o que é observado nas paradas de sucesso do Brasil atualmente: homens heterossexuais e cisgênero continuam ocupando os espaços de maior visibilidade dentro do mercado — seja fonográfico, de trabalho em outros espaços da sociedade
"Tudo acaba se relacionando à forma como a gente tem que mobilizar os variados aspectos da sociedade. Porque é importante ter mulheres e artistas LGBTQIAPN+ no palco, cantando e dançando, mas a gente também tem que ter essas mesmas pessoas ocupando posições de liderança em empresas de música, em gravadoras, em selos, em pautas jornalísticas, no backstage do mercado da música como um todo."
Questionada sobre o que julga necessário para abrir espaço para artistas queer no cenário, Lia Clark foi categórica: "É preciso acabar com esse falso moralismo". A artista afirma enxergar hipocrisia ao analisar as paradas de sucesso brasileiras e o discurso que invalida a explicitude que artistas LGBTQIAPN+ também buscam explorar em seu trabalho. "O Top 200 do Brasil está cheio de músicas de diversos gêneros que falam sobre sexualidade, muitas delas de forma bastante explícita", afirma, e aponta que a presença do "funk putaria" não é tema de debate moral: "Existem inúmeros funks com letras totalmente explícitas tocando em festas, rádios e espaços populares sem qualquer questionamento".
"A diferença é que, quando essas mesmas narrativas vêm de artistas LGBTQIAPN+, de pessoas que desafiam as normas de gênero impostas pela sociedade, elas passam a ser tratadas de outra forma. Existe um filtro moral que não é aplicado igualmente. Enquanto a sociedade heteronormativa muitas vezes já nos rejeita, parte da própria comunidade também reproduz esse julgamento. No fim, a música sobre sexualidade do artista heterossexual é celebrada, mas a nossa é constantemente colocada em debate."
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