Levitation chega ao Brasil apostando na contramão dos megaeventos
André Barcinski revela os bastidores da vinda do cultuado festival de Austin e defende uma experiência focada em curadoria e fãs
Depois de anos acompanhando de perto o Levitation em Austin e na França, o jornalista, produtor e curador André Barcinski finalmente concretiza o antigo projeto de realizar a primeira edição brasileira do festival. A estreia acontece em 23 de janeiro de 2027 (sábado), no Komplexo Tempo, em São Paulo. Os ingressos podem ser adquiridos aqui.
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Com um formato enxuto e oito atrações, a edição brasileira nasce com a ambição de crescer gradualmente, mantendo-se fiel aos princípios que transformaram o evento em uma das principais referências da música alternativa mundial.
Segundo Barcinski, a ideia de trazer o Levitation para o Brasil remonta ao período anterior à pandemia, mas só recentemente as condições permitiram que o projeto saísse do papel. À frente da produtora Maraty, criada em 2023 em parceria com Leandro Carbonato, ele retomou a realização de shows internacionais e intensificou as conversas com Rob Fitzpatrick, um dos fundadores do festival norte-americano.
“O Levitation sempre foi um festival que eu quis trazer. Mas a logística não é simples. Em Austin, as bandas estão muito mais próximas e circulam naturalmente pelo circuito musical da cidade. Para trazê-las ao Brasil, os custos e a estrutura necessários são muito maiores”, explica.
Após dois anos de negociações, os organizadores encontraram uma fórmula sustentável para a estreia do festival em território brasileiro. O evento ganha um dia único de programação com quatro atrações internacionais e quatro nacionais. A expectativa é ampliar o formato nos próximos anos.
Para Barcinski, o momento também é favorável. Apesar dos desafios econômicos que afetam o mercado de shows, ele acredita que a cena independente brasileira atravessa uma fase de fortalecimento. “O mercado para música alternativa está aquecido. Existe um público interessado e muito conectado ao que acontece lá fora”, aposta.
Um festival na contramão dos grandes eventos
A ligação de Barcinski com o Levitation começou em 2014, durante sua primeira visita ao festival em Austin. O que encontrou ali o impressionou não apenas pela programação, mas pelo ambiente.
Ao contrário dos grandes festivais corporativos, o Levitation se consolidou como uma celebração da cultura alternativa, construída em torno da música e da comunidade que a cerca. A ausência de ativações de marcas, áreas exclusivas e barreiras entre artistas e público tornou-se uma das marcas do evento.
“O que mais me chamou atenção foi o clima. Não existia aquela separação gigantesca entre bandas e público. Os músicos estavam circulando normalmente entre as pessoas. Era uma grande celebração da música.”
Essa filosofia será mantida no Brasil. Não haverá áreas VIP, camarotes ou setores premium. Além disso, os shows não serão simultâneos.
“A gente quer valorizar cada apresentação. Quando uma banda estiver tocando, será a única atração naquele momento. O público não precisa escolher entre ver um show e perder outros quatro.”
Descoberta musical como essência
Mais do que reunir artistas consagrados, o Levitation construiu sua reputação como uma plataforma de descoberta. Barcinski lembra que, em sua primeira experiência como espectador, conhecia apenas uma pequena parcela das bandas escaladas.
“Muitos grupos que vi pela primeira vez no festival acabaram se tornando algumas das minhas bandas favoritas.”
Para ele, essa capacidade de apresentar novos nomes ao público é uma das características centrais do evento e deverá ser reproduzida na edição brasileira.
“A curadoria sempre foi um diferencial do Levitation. A ideia é justamente proporcionar descobertas e apresentar artistas que muita gente ainda não conhece.”
Muito além do psicodélico
Embora tenha sido criado por integrantes do The Black Angels e tenha raízes na cena psicodélica, o festival expandiu significativamente seu alcance ao longo dos anos.
Barcinski destaca que o Levitation nunca se limitou a um único estilo musical. Em suas diferentes edições, o evento reuniu artistas ligados ao pós-punk, metal, música africana, rock experimental, industrial e inúmeras outras vertentes.
“O que conecta os artistas não é necessariamente o gênero musical. É uma visão de mundo ligada à cultura alternativa e ao espírito independente.”
Essa lógica orientou a montagem do line-up brasileiro.
Melvins abre caminho para o line-up
A escolha dos Melvins como principal atração da primeira edição foi estratégica. Barcinski havia trazido a banda ao Brasil pela última vez em 2008 e buscava um nome que representasse o espírito do festival.
“Depois que os Melvins confirmaram, muita coisa ficou mais fácil. É uma banda respeitada por praticamente todos os artistas que convidamos.”
Segundo ele, a presença do grupo ajudou a consolidar uma programação formada por bandas com sonoridades bastante distintas, mas inseridas no mesmo universo cultural. “O que une todas elas é o compromisso com a música alternativa, experimental e autoral.”
Espaço para festivais de nicho
Em um cenário dominado por festivais com dezenas de milhares de pessoas, Barcinski acredita que existe espaço para eventos menores e mais especializados.
A expectativa para a primeira edição gira em torno de 3,5 mil a 4 mil espectadores, número considerado ideal para preservar a proposta de proximidade entre público e artistas.
“A ideia não é criar um festival para 20 mil ou 30 mil pessoas. Queremos que as pessoas vejam os shows de perto, tenham uma experiência mais humana e mais confortável.”
Valorização da cena brasileira
Outro compromisso dos organizadores é garantir forte presença nacional na programação. Nesta primeira edição, metade das atrações é formada por artistas brasileiros, uma proporção que deverá ser mantida no futuro.
Barcinski vê no festival uma oportunidade de ampliar a visibilidade de grupos independentes que já vêm desenvolvendo trajetórias sólidas dentro e fora do país.
“Tem muita banda brasileira excelente surgindo. Queremos que o festival também seja uma vitrine para essa produção.”
Planos para o futuro
A intenção é expandir o Levitation Brasil já na próxima edição. O plano prevê um festival de dois dias, com pelo menos 12 atrações divididas entre artistas nacionais e internacionais.
O crescimento, porém, não deverá significar um aumento proporcional de público.
“Queremos ampliar a programação sem perder aquilo que faz o Levitation ser especial. O foco continua sendo a experiência, a curadoria e a conexão entre as pessoas e a música.”
Com essa proposta, Barcinski aposta que o festival pode ocupar um espaço único no calendário brasileiro.
Levitation é um evento internacional de grande prestígio que preserva a escala, a comunidade e o espírito underground que lhe deram origem.
Serviço
Levitation com Melvins, Osees, Boris, Frankie and the Witch Fingers, Test, Bike, Ema Stoned e Bufo Borealis
Quando: Sábado, 23 de janeiro de 2027 - das 13h (abertura da casa) às 23h59
Onde: Komplexo Tempo - Avenida Henry Ford, 511, Parque da Mooca, São Paulo
Ingressos: https://fastix.com.br/events/levitation-brasil
Ingressos físicos sem taxa
Loja 255 da Galeria do Rock (R. 24 de Maio 62, Centro)
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