Héloa questiona estereótipos sobre o sertão em novo álbum: 'Ele não é nada seco'
Em entrevista à Rolling Stone Brasil, cantora apresenta disco que une ancestralidade afro-indígena, ritmos brasileiros e memórias dos territórios
Em seu novo álbum, Árida, a cantora e compositora sergipana Héloa desconstrói os estereótipos de escassez ligados ao sertão brasileiro para exaltar sua riqueza e resistência cultural. O trabalho encerra uma trilogia sobre identidade, unindo ancestralidade afro-indígena e ritmos como forró, afrobeat e rap. Com produção de Yuri Queiroga e colaborações de nomes como Luedji Luna e Mestrinho, o projeto celebra a vitalidade do semiárido e propõe um novo olhar sobre a imensidão criativa da região.
A cantora e compositora Héloa prepara um novo capítulo de sua trajetória musical com Árida, álbum que propõe um olhar sobre o sertão brasileiro para além dos estereótipos de seca e escassez.
🎧 Do universo de fã ao universo da música: tudo que você ama em um só lugar. Siga @terrasonora
Em entrevista à Rolling Stone Brasil, a artista fala sobre a construção do disco, suas referências ancestrais e a importância de valorizar os povos que mantêm vivas as tradições culturais do semiárido.
O trabalho marca o terceiro capítulo de uma trilogia iniciada com Opará e aprofundada em ID, projetos que acompanham sua investigação sobre identidade e território.
Se o primeiro álbum, Eu, nasceu de um processo de descoberta pessoal após sua chegada a São Paulo, os trabalhos seguintes representam um movimento de retorno às próprias raízes.
"Eu saí de Sergipe para cá e aí logo depois eu voltei para Sergipe entendendo que lá era onde estava aquilo que explicava o meu caminho na minha música", conta.
Em Árida, essa busca ganha novos contornos a partir das vivências da cantora no sertão de Sergipe e em regiões do Cariri. A artista questiona a associação do semiárido à ausência de vida e destaca a riqueza cultural e a resistência presentes nesses territórios.
"O Árida é dedicado a esses povos, a essa tecnologia de fazer, de resistência, de manter a vida em meio à aridez", afirma.
Ver esse post no Instagram
Ancestralidade e criação coletiva
A pesquisa musical de Héloa atravessa as sonoridades do candomblé, dos povos indígenas e das diferentes matrizes culturais que formam a identidade brasileira.
Os tambores dos terreiros e os cantos do povo Kariri-Xocó, ligado à história de sua família, aparecem como referências importantes na construção do álbum.
A criação coletiva também ocupa um lugar central no projeto, que reúne participações de artistas como Luedji Luna, Mestrinho, Jorge do Peixe, Maestro Spok, Thiago Santana e integrantes de grupos indígenas. O disco estabelece ainda conexões com Angola por meio das participações de Jéssica Areias e Lil Kid.
"Eu sou uma artista solo, coletiva", resume Héloa, que considera o compartilhamento de experiências parte essencial de sua trajetória.
O primeiro single, "Dança Nixi Dança", celebra a dança como expressão cultural e reúne referências do samba, do semba e de palavras de origem banto. "Eu acho a dança uma tecnologia incrível nesses povos", explica.
Um mosaico de ritmos e memórias
Produzido por Yuri Queiroga, companheiro de vida e de trajetória musical da artista, Árida percorre sonoridades como forró, baião, rap, rojão, afrobeat e reggae.
A diversidade de referências acompanha a proposta de construir um retrato musical das conexões entre as culturas afro-indígenas e outras tradições presentes no Brasil.
O álbum traz releituras de canções como "Flor do Mandacaru", de Chico César, e "De Amor Eu Morrerei", de Domingos e Anastácia. Na primeira, a participação de Mestrinho reforça as memórias compartilhadas pelos artistas sobre Sergipe e o Rio São Francisco.
A dimensão visual também é importante no projeto. Formada em artes visuais, Héloa assina a direção criativa e visual do álbum, que reúne imagens registradas em terreiros, no sertão e na Ilha do Ferro, entre Sergipe e Alagoas.
O videoclipe de "Acenda Essa Fogueira" foi gravado em território indígena, com participação do grupo Sabuká Kariri-Xocó. Para a artista, mostrar esses espaços a partir do olhar de quem vive neles é parte fundamental do trabalho.
"Agora a gente não precisa de ninguém falando pela gente, a gente se grava, a gente se produz, a gente se mostra, a gente se coloca", destaca.
Um convite a rever o olhar sobre o sertão
Héloa espera que o álbum provoque uma transformação na maneira como o público enxerga o semiárido brasileiro. A artista defende que conhecer esses territórios exige disposição para abandonar imagens previamente construídas.
"Eu gostaria que as pessoas ouvissem o álbum na íntegra", afirma. Para ela, o disco foi pensado como uma narrativa, em que cada faixa contribui para a história contada do início ao fim.
Ao falar sobre o que deseja que o público compreenda após ouvir Árida, a cantora reforça a diversidade dos povos, das paisagens e das experiências que existem no sertão.
"Eu acho que a gente precisa reposicionar o nosso olhar, diante do que seria pensar a secura, a partir de que lugar", reflete.
E conclui: "Eu posso garantir que o sertão brasileiro ele é imenso, e ele é gigantesco, ele não é nada seco, ele é fruto, é muito fruto, é muita beleza, é muita cor, é muita vibração".
Texto: Karla Sthefany Lima
Entrevista: Gabriela Nangino
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.