Froid nunca esteve tão apaixonado por música
Aos 12 anos de carreira, o rapper mineiro finalmente percebeu que não odeia fazer música. E 'Humor Negro' prova que tudo muda quando você para de fugir
Após 12 anos de carreira e um período de descontentamento com a indústria, o rapper Froid reencontrou sua paixão pela música ao reassumir o controle criativo de suas obras. Esse processo culminou no lançamento de Humor Negro, disco no qual produziu a maioria das faixas e resgatou sua estética densa e original. Deixando personagens de lado, o artista aborda vulnerabilidades, frustrações e a experiência de ser um homem negro bem-sucedido no Brasil em um trabalho autêntico e reflexivo.
Froid construiu uma carreira que ajudou a transformar o hip hop brasileiro. Fundou o Um Barril de Rap, coletivo que virou um movimento geracional; lançou discos conceituais que marcaram época — Teoria da Água, O Pior Disco do Ano e O Queridinho de Deus —; ganhou prêmios, conquistou respeito na cena, virou referência em debates sobre arte, política e identidade negra, e seu nome sempre ecoou nas conversas sobre os mais influentes do gênero. Aos 12 anos de carreira, Froid tinha tudo o que um artista poderia desejar.
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Mas, em algum ponto, a música virou um trabalho comum — e trabalho é trabalho, com as partes boas e ruins. De uns anos para cá, os projetos passaram a nascer de outro lugar, eram muitos produtores, muita negociação artística, tentativas de alcançar públicos variados. Funcionava em números e oportunidades, mas algo dentro de Froid não parecia encaixar.
Nos primeiros trabalhos era evidente a marca dele — aquele som misterioso e denso —, que o próprio denominou de "magia obscura". E em entrevista nos estúdios da Rolling Stone Brasil, o rapper mineiro falou sobre essa característica: "Eu percebi que eu cheguei num som, num tipo de som que é muito meu e ele é um som misterioso. A música que me fez virar, se você perceber que é pseudo social, que é uma música política e tudo mais, ela é um som misterioso". Era uma estética que não exigia esforço: era totalmente dele. Em algum momento, porém, essa magia sumiu.
"Não sei quando me afastei dela, mas sinto que foi no momento em que tive que trabalhar com um monte de produtores, porque aí o cara no estúdio dizia assim: 'Pô, vamos fazer uma parada mais para cima'. E isso é uma característica de um produtor X, Y, e não minha". A magia obscura foi cedendo espaço e, aos poucos, outros sons surgiram — às vezes mais claros, às vezes mais acessíveis, outras vezes, nem tanto.
Foi preciso um encontro consigo mesmo para, enfim, nomear o que estava acontecendo. E, quando caiu a ficha, tudo mudou. "Quando você começa a amar o trabalho, você começa a amar a sua vida", disse. O ponto de virada veio de uma compreensão que parecia óbvia, mas levou 12 anos para amadurecer: tudo está conectado!
"Você tem que acordar cinco horas da manhã para fazer uma coisa que você não gosta e aí você não faz", explica. "E quando você é um artista e percebe que tá tudo interligado, então, tipo, se eu acordar cinco horas da manhã para correr, eu vou ter a melhor ideia para minha música". Quando toda a vida passa a alimentar a criatividade, o trabalho deixa de ser trabalho e volta a ser paixão.
Então Froid mudou a rotina e hábitos em prol da nova mentalidade. "Comecei a amar o processo por completo, de dormir cedo, por exemplo. Mano, é melhor dormir cedo porque minha cabeça vai funcionar melhor. Voltei a treinar, a estudar teclado, produção. Cheguei até a comprar 200 vinis pra procurar samples". Tudo isso porque tinha redescoberto que amava música. E é desse amor reencontrado que Humor Negro, seu novo álbum, nasceu.
Froid começou o álbum com uma direção bem específica: "A primeira intenção era fazer música de praia". Ele gravou nessa linha, experimentou sons caribenhos. Mas, enquanto criava — finalmente em paz com o próprio trabalho —, algo começou a emergir: reflexões que guardava, pensamentos sobre como era estar onde estava. "Depois, no meio dessa história toda, eu cheguei a uma concepção muito maluca, que era que ninguém se importava com as emoções de um certo grupo de pessoas".
Ele se aprofundou. Pensou em um homem negro bem-sucedido no Brasil, nessa dinâmica estranha em que você é celebrado quando está por cima, mas, quando está por baixo — triste, vulnerável, frustrado —, ninguém realmente se importa. "Eu cheguei na minha concepção de que as pessoas não se importam com o sentimento dos negros, no Brasil principalmente. Quando ele chega num status social, uma credibilidade financeira, o cara te olha e fala assim: 'Mano, tá triste?'. Como você vai ficar triste, olha tudo que cê tem".
Percebeu que tinha caído nessa armadilha. "Eu caí na pegadinha das pessoas de dizer que agora eu tinha que ficar feliz porque eu tinha conquistado uma coisa". Decidiu, então, que não faria o "álbum de praia": "Cara, eu também não vou ficar fazendo música na praia não, porque na verdade eu tô é puto. Eu tô é triste. Ninguém tá terça-feira na praia não, meu brother".
Quando voltou a produzir — e, consequentemente, voltou a ter a soberania das batidas nas mãos — a magia obscura voltou naturalmente. "Essa estética eu não preciso forçar, porque é uma estética que eu criei. Então, ela é minha".
Nesse reencontro com a soberania criativa, produziu oito das 11 faixas do disco — o maior volume de produção própria da carreira. "Eu queria fazer uma obra que fosse só com meu gosto. Que eu não tivesse que discutir artisticamente com ninguém. Queria fazer uma obra que fosse minha". E por conta disso, pela primeira vez em um álbum, não inventou personagem nenhum. "Esse álbum tá mais transparente, mano. Tipo, não é como se eu tivesse fingindo: 'Ah, tá tudo dando certo'". Era só ele mesmo.
A sonoridade de Humor Negro é diverso — boombap, passagens acústicas, dancehall, afrobeats —, mas coeso, porque vem de um mesmo lugar. Froid explicou como isso funciona: "O humor negro latino caribenho é essa festividade ali que tem no afrobeat... eu trouxe muita coisa caribenha em cima dessas guitarras. Tipo o boombap, o rap, o afrobeat, o dancehall que é da Jamaica, são todas músicas negras que eu tenho referência". Tudo gravitava em torno dessa magia reencontrada, dessa transparência que o guiava.
De todas as faixas, "Endrick" foi particularmente importante para abrir o portal. "Quando eu escrevi, eu estava indignado com algumas coisas que eu considerava que eu tinha que ter ganhado. Tipo jogar no Real Madrid, ser titular do Real Madrid. "Endrick" foi a música que abriu o portal para mim, botei para fora minha frustração. Tirei a minha vulnerabilidade, tirei minha capa. Falei: 'Mano, não, eu não sou f*dão não, velho. Eu sou igual o Endrick'. Eu tô aqui errando gol e não tá dando certo e os outros não tá me chamando para jogar no Real Madrid". Uma vez que essa frustração saiu, tudo mais fluiu.
Ainda sobre a faixa, o clipe gerou debates por utilizar inteligência artificial. Froid foi direto ao abordar o assunto: "Eu não criei nada em 'Endrick'. Eu não usei a inteligência artificial para criar um clipe. Eu criei um clipe: viajei e fui procurar lentes que ninguém tinha lá em Amsterdã; fiquei três dias conversando com um monte de gente, procurando lente, câmera e locação; mandei fazer aquelas roupas, o figurino. Eu fiz um clipe! Depois que terminei de gravar com todos os recursos normais, eu editei usando IA. Por quê? Porque eu não tinha um quadro da mão na lisa e queria colocar. Então usei a IA como VFX".
https://www.youtube.com/watch?v=8u5pBurVn5k&pp=ygUNZnJvaWQgZW5kcmljaw%3D%3D
Nessa transparência total, os feats só fazem sentido se forem genuínos: "Eu sempre escolho as pessoas que eu acho que merecem uma atenção. Não que eu tenha mais atenção com a pessoa, mas eu acho que ela precisa de uma atenção para um público que eu eduquei a gostar de coisas novas". Com Ciça e Nath, descobre os trabalhos na internet e se conecta organicamente — "Eu mesmo na internet eu achei o trampo e comecei a consumir". Com Major RD, era sobre resolver o que a batida pedia: "Quando eu preciso de um bate cabeça, ele eu sei que ele vai resolver para mim".
Com tudo isso em seu lugar — a magia reencontrada, a vulnerabilidade exposta, as parcerias genuínas — Humor Negro emerge como o que Froid descreve como um "último registro sobre essas impressões que o cercam, essas percepções sobre si mesmo e sobre como funciona estar onde está". Mas, segundo ele, este não deve ser seu último projeto: "Não, é! Eu quis dizer que foram os registro mais recente, né, mas eu vou precisar de pelo menos um ano para eu poder fazer um álbum de novo. Um ano, dois, para eu poder viajar, conhecer coisa nova, porque, mano, esse álbum eu tô fazendo tem um ano e meio".
Enquanto espera, ele já tem os próximos passos mapeados: "Agora a gente vai ficar postando os vídeos aí, soltando os videoclipe que também são outro apanhado de ideias". Porque agora que finalmente ama o processo, não tem pressa. Tem tempo para absorver, para viajar, para deixar a vida acontecer. "Tamo na busca do verdadeiro agora", resume.
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