'É o amor que nos mantém na vida', diz Mateus Aleluia ao celebrar 82 anos de vida e 65 de carreira
O cantor e compositor baiano, que integrou o trio Os Tincoãs, fala sobre o novo álbum, seu processo criativo e a profunda conexão entre Cachoeira (BA) e Luanda; veja vídeo
Em tempos de amores rasos e líquidos, Mateus Aleluia nos convida a um mergulho profundo nesse sentimento. Figura essencial da memória musical afro-brasileira e remanescente do lendário trio Os Tincoãs, o cantor e compositor chega aos 82 anos e 65 de carreira abrindo mais um capítulo de sua obra, talvez um dos mais íntimos. Seu novo álbum, lançado pelo selo Sanzala Cultural, marca um gesto raro: pela primeira vez, o artista coloca apenas seu nome na capa. A direção musical, os arranjos e a regência são de Tadeu Mascarenhas, que acompanha o músico nessa travessia sonora.
Com direção artística assinada por Aleluia e Tenille Bezerra, o disco é um ensaio sobre o amor em suas infinitas possibilidades. São seis faixas costuradas por transições orquestradas, formando um fluxo contínuo, como uma onda, que amplia ainda mais as fronteiras da obra de Aleluia.
A sensação de liberdade guia a criação e Aleluia parece cantar ainda mais perto de si mesmo. "Eu sou muito orgânico. Eu deixo o coração mandar. Não deixo muito o intelecto me conduzir. Eu tenho que me arrepiar, que mudar de expressão, porque quando isso não acontece, eu penso que não está valendo a pena."
Essa sensibilidade profunda também se traduz na ideia de que o disco guarda múltiplas leituras, como se, a cada audição, novas canções se revelassem sob o tecido das faixas. É um gesto coerente com a filosofia que atravessa sua trajetória: a convicção de que cultura e culto se confundem, retroalimentam-se, sustentam-se.
A ancestralidade, sempre tão marcante em sua obra, segue presente como uma energia que ancora e impulsiona, um tempo circular que reúne presente, passado e futuro. "Nós somos de tudo o que existe: culturas hebraica, judaica, grega, romana e africanas — yorubá, fon, banto, ashanti — misturadas a Angola, Congo, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe. Somos o somatório de tudo isso, incluindo as culturas dos donos da terra, que são os povos indígenas."
É dessa mistura e movimento que surge a inquietação que o acompanha desde sempre. Mateus Aleluia por Mateus Aleluia é mais do que um disco: é uma reflexão sobre a força que nos mantém vivos. "É o amor que nos mantém na vida", resume o artista.
Com sua voz potente e inconfundível, Aleluia convida o ouvinte a mergulhar nesse rio emocional e voltar diferente, como quem reencontra algo que já carregava sem saber.
Ao Estadão, Aleluia reflete sobre seu novo álbum, suas composições, os afetos e a profunda conexão entre Cachoeira, cidade onde nasceu, no Recôncavo Baiano, e Luanda, a cidade onde viveu por quase 20 anos, na África. A entrevista foi editada e condensada.
O novo álbum celebra seus 82 anos de vida e 65 de carreira. Como foi a produção dessa obra?
É sempre um mergulho em algo que a gente não sabe direito o que é. Às vezes acha que sabe, mas não sabe. A vida é uma grande incógnita, e criar também é. Esse álbum é mais um acontecimento, é o caminho. É um respirar que mostra que você ainda está na cena da vida, tendo que dar respostas às suas próprias interrogações. Você acorda, percebe que é um novo dia, e novos problemas se colocam. Alguns se resolvem, outros não. A criação é um somatório de emoções vividas ao longo da existência. Em algum momento, você sente: chegou a hora de fazer isso. E esse "isso" ainda não tem nome. Depois será designado por quem faz e por quem escuta. Mas, antes de tudo, é sempre um despertar, um recomeço, mesmo sem saber se isso já não existia dentro de você há muito tempo.
'No amor não mando' abre o disco e falar sobre o amor é um tema recorrente em suas músicas. É sobre sentir e seguir o coração?
Quando digo que no amor não mando é porque não mandamos mesmo. O tipo de amor pouco importa. O que importa é que ele nos mantém na vida, mesmo quando a gente pensa que está odiando. É uma força imensurável, que nos domina sem que a gente perceba. É um sentimento que é meu, é seu, e muitas vezes a gente nem se dá conta de que ama. Isso é um processo de autonarcisismo na sua forma mais perfeita ou imperfeita. Queremos falar para tudo que amamos. Mas que amor é esse? É o amor de Shakespeare, esse amor cantado, narrado por quem fala de amor? Não sei. O que sei é que esse amor é a própria vida, é o que nos move. Ele nos coloca numa dimensão permanente de descoberta, em vigília constante — um estresse sem estar estressado. As dificuldades fazem a gente avançar; as facilidades, ao contrário, te acomodam. O amor é isso: o que move, o que empurra a vida, mesmo quando a gente não se dá conta.
Em 'Doce sacrifício', o senhor canta que a vida é dura, mas bela, e fala sobre encarar os desafios e as dificuldades com esperança. Como entender quando isso vale a pena?
Vale quando a gente aprende a misturar. Se algo é doce demais, enjoa. Se é muito amargo, precisa de um pouco de mel. É preciso saber equilibrar as coisas à sua maneira, de um jeito que seja palatável para você. Por isso viver é um doce sacrifício. Desde que a gente nasce, já nasce chorando e aprende isso. Todo privilégio vem acoplado a um sacrifício. Não há como separar. Viver é conviver com os dois.
A produção do álbum é feita com Tenille Bezerra, parceria que já rendeu outros trabalhos e o documentário 'Aleluia - O Canto Infinito do Tincoã'. Como ela começou?
A vida nos aproximou. Às vezes a gente nem quer, mas a vida mostra uma possibilidade, e é preciso perceber. Todos nós precisamos de apoio, assim como precisamos apoiar: é dando que se recebe. A Tenille me procurou querendo fazer um trabalho sobre Os Tincoãs, sobre um passado que também é presente. Aquilo foi se transformando, como a natureza faz seus caminhos, contornando, atravessando obstáculos. Fomos nos entendendo e nos desentendendo, e assim nasceu essa parceria.
Ao longo da carreira, sua criação parece nascer mais da intuição do que do método. Como é o seu processo criativo?
Eu não sou muito rebelde, sou muito orgânico, digamos assim. Deixo o coração mandar. Não deixo muito o intelecto me conduzir. Eu preciso me arrepiar, mudar de expressão, você percebe isso. Quando isso não acontece, eu penso que não está valendo a pena. E acho que é isso que fez com que a ordem das músicas desse álbum viesse como movimentos. Movimentos mesmo, como ondas, uma em função da outra. Mesmo que elas não tenham nascido assim, a gente acaba colocando como se estivessem interligadas, para que uma complemente o que a outra não disse. Quando a gente tenta chegar nas pessoas, na verdade a gente está chegando na gente mesmo. Porque, se eu não chegar em você, eu não cheguei em mim. Afinal, agora eu estou te olhando, não estou me olhando. Você é meu espelho.
O senhor nasceu em Cachoeira (BA), mas viveu em Luanda por quase duas décadas. Como esses dois territórios se conectam na sua vida e na sua música?
Cachoeira é vibração. São aquelas pessoas, aquelas células emotivas misturadas com tudo o que você viu e também com o que não viu. Cachoeira é um grande vaso, uma grande cabaça, um grande útero, um espaço totalmente cósmico. Ali você encontra voduns, orixás, santos católicos, caboclos, ayatolás. É uma parte do universo condensada ali, um ponto de força. A cidade não é apenas arquitetura colonial ou cenário histórico. Ela é um organismo vivo. Eu sempre soube o que era Cachoeira, mas foi em Luanda que eu a percebi melhor. A partir daí, ficou mais fácil entender Luanda. Somos muito parecidos, muito próximos, com distâncias dentro dessa proximidade que acabam nos tornando um. Vivi em Luanda de 1983 até o fim de 2002, em plena guerra. Era outra realidade. Para mim, foi um lugar de afirmação de cidadania, não só para os angolanos, mas para mim também.
Seus shows costumam reunir um público majoritariamente jovem. Como é esse encontro de gerações?
Meu público é o meu reflexo. Sou uma mistura de jacaré com cobra-d'água, de ancião com menino. Isso aparece nos shows. Em shows recentes em São Paulo, vi muita gente madura na primeira fila, como quem diz: 'Eu também estou aqui'. Achei aquilo maravilhoso. Ao mesmo tempo, nunca imaginei que a juventude fosse apresentar minha música às pessoas da minha idade. Quando comecei a fazer shows, via sobretudo jovens, cheios de vontade de descobrir. Hoje, essa juventude está trazendo junto quem não é mais tão jovem. Esse ponto de encontro, essa mistura, é muito bonita e muito potente.
Hoje o senhor é uma referência fundamental da música afro-brasileira, reconhecido pela profunda conexão com as raízes africanas, pela espiritualidade e pela poesia. É possível nomear as suas influências?
Nós somos de tudo o que existe: culturas hebraica, judaica, grega, romana e africanas — yorubá, fon, banto, ashanti — misturadas a Angola, Congo, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe. Somos o somatório de tudo isso, incluindo as culturas dos donos da terra, que são os povos indígenas. Quando a gente tenta definir quem nos influenciou, esquece que essas pessoas também foram influenciadas por tudo isso. Claro que houve artistas, escritores, músicos importantes no caminho, mas chega um momento em que seguimos o nosso próprio rumo.
O álbum leva seu nome e traz a canção 'Aleluia', em um gesto de retorno às origens e de homenagem ao seu pai. Que memórias atravessam esse fechamento do disco?
Eu nem tinha plena consciência do nome Aleluia, ou sequer pensava sobre isso. Em 1984, o jornalista Duda Guennes, que vivia em Lisboa, me disse que eu carregava um nome muito forte. Até então, eu usava apenas Mateus, pode ver nos discos dos Tincoãs. A partir disso, passei a olhar mais para a figura do meu pai, que partiu cedo. Ele era um trabalhador da Leste Brasileira, um ferreiro, muito ligado, pelo nome e pela profissão, à mitologia de Ogum, uma entidade por quem eu sempre tive grande afeição. A canção nasce desse movimento de retorno e reconhecimento. Fala da minha formação, desse afrobarroquismo que me atravessa, e também traz um pouco da história da minha família, de quem somos nós: os Aleluia.