Drake volta com 'Iceman' após polêmicas, mas revanchismo ofusca vulnerabilidade
Primeiro de três álbuns lançados simultaneamente alterna momentos honestos com ataques dispersos à indústria
Dois anos após Kendrick Lamar vencer a batalha de rap que dominou as conversas de 2024 (culminando em "Not Like Us" tocando no Super Bowl e ganhando um Grammy enquanto chamava Drake de pedófilo), o rapper canadense finalmente respondeu. Não com um álbum, mas com três.
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Na madrugada de 15 de maio, Drake lançou Iceman, Maid of Honour e Habibti simultaneamente: 43 faixas, duas horas e meia de música e uma estratégia inusitada. Se a ideia era soterrar críticos com quantidade, funcionou parcialmente. Se era fazer um projeto coeso que apagasse a mancha deixada pela treta, não.
Iceman, o principal dos três e o único que vinha sendo promovido desde agosto de 2024, é o melhor álbum de Drake desde For All the Dogs (2023). Mas isso não significa muito quando a barra está no chão. É um projeto que começa forte, com Drake vulnerável e honesto pela primeira vez em anos, mas que rapidamente se perde em um revanchismo generalizado, que cansa mais do que convence. Aos 39 anos, cercado de processos contra a Universal Music Group e acusações de manipular streams, Drake tinha tudo para fazer o álbum, mas fez um projeto bom, que fica aquém do que poderia ser.
Os primeiros minutos de Iceman lembram por que Drake virou Drake. Em "Make Them Cry", abertura produzida por Boi-1da, o rapper se mostra vulnerável, refletindo sobre ser filho único, ter que ser pai da própria mãe e tratar o avô do filho como irmão mais velho. Fala do câncer do pai. Fala sobre julho de 2024 e como esse foi o pior período que sentiu em anos. Fala sobre envelhecer, ver "amigos" virando as costas para ele e terapia cara que não faz efeito. É Drake fazendo o que sempre fez de melhor. O problema é que ele não sustenta isso. Depois de "Make Them Cry", ele volta para o piloto automático: ataques, clichês e ego inflado. O ciclo recomeça.
O resto de Iceman vira uma enciclopédia de quem Drake acha que o traiu. Não é só Kendrick: é Rick Ross, DJ Khaled, J. Cole, A$AP Rocky, LeBron James, DeMar DeRozan, Pusha T, Jay-Z, Dr. Dre… meio que a cena inteira. E, olha, alguns desses ataques são afiados, mas, quando você passa 20 faixas fazendo isso, a força se perde. Você termina o álbum sem lembrar de nenhum ataque específico, só da sensação geral: Drake está bravo com todo mundo.
Sem contar que há versos cartunescos demais — quase paródias. "Ironic cause the ICEMAN was a NICEMAN, now I'm hot and cold" é uma linha que, no fundo, recicla o clichê do X: "Antes eu sofria, agora sou fria". E isso pesa, sobretudo em um álbum com tamanha expectativa, de um rapper de 39 anos tentando recuperar credibilidade.
A produção, pelo menos, funciona. Boi-1da e Conductor Williams dominam os créditos e empurram Drake para um território mais cru, mais minimalista. Não tem aquele apelo às trends de Certified Lover Boy (2021) ou For All the Dogs. Há soul abafado, 808s, loops sujos que forçam Drake a realmente rimar, em vez de flutuar. "Whisper My Name", com flauta sinuosa e bateria pesada, soa como uma marcha pelo deserto. "What Did I Miss?", primeiro single, soa grandioso ao misturar trombetas com flautas. "2 Hard 4 The Radio" se divide em duas partes: a primeira metade é soul mais groovado, enquanto a segunda vira um ataque direto a Kendrick e Pusha T, com produção ainda mais pesada.
"National Treasures", coproduzida por Wraith9, tem sintetizadores sinistros e um trap que muda no meio para uma batida industrial caótica. São beats que exigem atenção. Que não deixam Drake relaxar. E isso é bom, porque, quando a produção o força a trabalhar, ele entrega. O problema é que, mesmo com produção forte, há faixas que soam como versões alternativas umas das outras. "Make Them Know", "Firm Friends" e "Make Them Remember" poderiam ser a mesma música com letra diferente. São basicamente Drake rimando sobre traição.
Os destaques existem e, quando funcionam, funcionam bem. "Janice STFU" interpola Lykke Li (preguiçosamente, mas funciona). "Plot Twist" mostra a versatilidade do flow de Drake, e "Dust" tem uma mudança de beats chamativa, no mínimo. "Ran to Atlanta", com Future, é uma reconciliação pública depois de Future e Metro Boomin terem lançado dois álbuns que foram o pontapé para a briga com K-Dot. O título é uma resposta direta a Kendrick, dizendo que Drake rouba a cultura de Atlanta. E Future aparece, entrega um verso sólido e mostra que, pelo menos, essa ponte foi reconstruída.
Em relação às participações, além de Future (que manda bem), 21 Savage em "B's on the Table" soa entediado, e Molly Santana faz o dever de casa. No geral, Iceman é o show de um homem só. Drake decidiu provar que é rapper, então se colocou para rimar. Em algum momento, você sente falta de um refrão cativante, de uma melodia grudenta — coisa que Drake sempre soube fazer —, mas, no geral, é um álbum competente.
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