'DNA' tem força para marcar a Copa de 2026? Produtor musical analisa o que faz um hino entrar para a memória
Com Andrea Bocelli, David Guetta e EJAE, música oficial do Mundial mistura ópera, eletrônica e pop global, mas a fórmula não garante que ela sobreviva além do torneio
Toda Copa do Mundo chega embalada por uma música que tenta capturar o espírito do torneio — e a história dessas faixas é tão variada quanto os próprios Mundiais. "Waka Waka (This Time for Africa)", de Shakira, se tornou a música de Copa mais tocada da história após 2010. "We Are One (Ole Ola)", com Pitbull, Jennifer Lopez e Claudia Leitte, embalou o Brasil em 2014, ao lado do sucesso extraoficial "La La La", também de Shakira. "Colors", de Jason Derulo e Maluma, marcou a Rússia em 2018. "Hayya Hayya (Better Together)" abriu o Catar em 2022. E "The Time of Our Lives", do Il Divo, ainda é lembrada por quem viveu a Alemanha de 2006. Agora, com "DNA" reunindo Andrea Bocelli, David Guetta, Megan Thee Stallion e EJAE na Copa de 2026, a mesma pergunta que acompanha cada edição volta à tona: esta é a música que vai ficar?
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Para entender o que separa uma música promocional de uma canção que sobrevive ao torneio, a Rolling Stone Brasil conversou com o DJ e produtor musical JESTFLY, que analisou a fórmula dos hinos que ficaram e o desafio que "DNA" enfrenta. O ponto de partida é direto: as músicas que marcaram Copas anteriores compartilham características que vão além da qualidade musical. "Uma música da Copa precisa ser entendida rápido porque disputa atenção com o jogo, com o torcedor e com toda a tensão emocional do evento", avalia JESTFLY. Refrão simples, repetição forte e fácil assimilação são os elementos que ele aponta como recorrentes nas canções que sobrevivem ao tempo, e que explicam por que "Waka Waka" ainda toca em estádios do mundo inteiro 16 anos depois.
No caso de "DNA", o produtor observa que a proposta aposta mais na dimensão global do evento do que numa fórmula popular imediata. A presença de quatro artistas de universos tão distintos comunica a escala da Copa e a tentativa de dialogar com públicos diferentes, mas impõe um desafio concreto: transformar uma grande colaboração internacional numa música simples o suficiente para ser lembrada pelo torcedor comum. "Quando uma faixa reúne Andrea Bocelli, David Guetta, Megan Thee Stallion e EJAE, a mensagem não está apenas na música, mas na dimensão do projeto. Ainda assim, para virar memória afetiva, não basta ter nomes grandes. A música precisa encontrar um ponto simples de conexão", explica.
A Copa de 2026 também traz uma novidade na estratégia musical da FIFA: pela primeira vez, o torneio opera com duas faixas de identidade simultâneas. Além de "DNA", confirmada como hino oficial, "Dai Dai" — parceria entre Shakira e Burna Boy — foi anunciada como música oficial da edição. A presença de Shakira cria uma ponte direta com 2010. Para JESTFLY, essa multiplicidade reflete a forma como a música é consumida atualmente: se antes uma única canção dominava a memória sonora de uma Copa, agora o torneio tenta criar uma experiência mais fragmentada, com diferentes faixas disputando espaço em vídeos curtos, transmissões e ativações digitais.
O fator decisivo, segundo o produtor, continua sendo a emoção coletiva, e ela não pode ser planejada. Uma música pode viralizar num recorte, crescer nas plataformas digitais ou ficar associada à cerimônia de abertura, mas só ultrapassa o campeonato quando consegue se conectar com a experiência das pessoas de forma orgânica. "DNA" foi apresentada ao vivo no Estádio Azteca, na Cidade do México, minutos antes do apito inicial de México e África do Sul, o mesmo estádio que recebeu duas finais de Copa, em 1970 e 1986. Se a música vai se juntar à memória desse lugar ou ser esquecida com o encerramento do torneio, só o tempo — e os torcedores — vão responder.
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