Derek e o álbum que rejeita hits: 'Eu estava cansado de me preocupar em lançar música para estourar'
Rapper fala sobre 'Arkano', disco conceitual gravado em uma galeria de arte que marca virada artística após 10 anos de carreira
Derek estava cansado de se preocupar em lançar música para estourar, de pensar se ia virar tendência, se ia viralizar, se ia entrar nas listas de reprodução certas. Depois de quase 13 anos de carreira, chegou a um ponto em que não queria mais calcular. "Eu estava mais preocupado em lançar música verdadeira mesmo — que as pessoas vão ouvir e vão conseguir me entender como rapper", conta o artista de 28 anos, em entrevista nos estúdios da Rolling Stone Brasil.
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E o momento fazia sentido: já tinham se passado 10 anos desde o primeiro álbum que lançou. Uma década inteira fazendo música, moldando-se, adaptando-se ao mercado, tentando encontrar o equilíbrio entre ser verdadeiro e ser viável. Mas agora, em 2026, chegou a hora de parar de se moldar. "Então, por estar completando uma década desde o meu primeiro álbum, eu quis fazer algo marcante", diz.
Arkano é esse algo: um disco conceitual de 13 faixas, gravado dentro de uma galeria de arte, com participações que vão de Jorge Vercillo a Febem, passando por Klisman e Jade Baraldo. Sem se preocupar com fórmulas, sem pensar em algoritmos, sem calcular o que vai colar nas plataformas — só música verdadeira, do jeito que queria fazer. "100% meu, com as minhas inspirações, com as participações que eu realmente quero — pessoas que eu ouço no meu dia a dia", afirma.
E deu certo. As pessoas conseguiram perceber a diferença e entender que era outra coisa. "Acho que as pessoas conseguiram, de fato, me ler e me entender como artista de novo", reflete Derek. "Porque eu tenho quase 12, 13 anos de carreira e, nesses anos, eu me mudei várias vezes e acabei em certas situações na música, no trap. Agora eu consegui entregar um álbum 100% meu", completa.
Galeria como estúdio
A primeira decisão foi o lugar. Derek ama arte — música, moda, tudo o que envolve arte. E, quando começou a pensar no álbum novo, pensou: "Mano, eu preciso estar imerso em algo de que eu gosto demais". Foram atrás de galerias de arte, acharam uma que já tinha um estúdio e fizeram o "bagulho" acontecer.
"Foi da hora porque eu consegui tirar várias inspirações. Para a música — e não só para a música, para a minha carreira em si. Foi um despertar muito grande para mim. Aquele retiro do Arkano foi muito importante. Não só para o álbum, mas para mim", lembra.
A galeria virou base de operações: lugar de criação, de experimentação, de mergulho total. E Derek se inspirou em quem faz isso bem: A$AP Rocky. "Eu me inspiro muito nele. Eu vejo que ele consegue trazer universos diferentes para a mesma categoria. Então, eu acompanho muito ele na moda e no conceito que ele estava lançando no álbum dele agora, do Don't Be Dumb (2026). Foram muitas inspirações que eu peguei para trazer essa estética do Arkano. Não só musicalmente, como esteticamente", conta.
Falando no álbum, outro ponto que foi meticulosamente pensado foi o título. "Arcano" significa algo que encerra segredo: misterioso, enigmático. Mas, para Derek, vai além do dicionário. "Arcano nada mais é do que uma parada que vai te mostrar realmente a sua percepção. Cada pessoa vai ter uma percepção diferente".
Tem gente que ouviu e achou que era um álbum para ouvir de noite. Tem gente que sentiu que era para ouvir de dia. É relativo. Pessoal. "Ele potencializa e mostra realmente quem você é. Acho que eu precisava fazer isso. Eu precisava de um álbum mais profundo, em que eu colocasse 100% das minhas inspirações e pensasse mais em mim — no meu interior — sem pensar em tendências e músicas que vão viralizar e passar".
No tarô, arcano também tem esse papel: revelar quem você é de verdade, descobrir o seu arcano pessoal. E o álbum funciona assim: é um espelho, e cada um vê o que precisa ver.
Uma nova motivação
Mas havia uma motivação extra. Derek teve uma percepção nos últimos três anos: parte dos fãs não entendia os valores do rap. Usava o gênero mais como estética do que como vivência.
Ele conta de um evento em que estava tocando. Tocou rap nacional, uns "caras relíquia" do Brasil. E o público dele ficou tipo: "Mano, quem é que está tocando? Quem são esses caras?" E não curtia porque não conhecia.
"Eu não quero isso. Eu quero que meu público seja inteligente, que saiba quem são os precursores do rap. O que é o rap? De onde veio? Como a gente fez para chegar até aqui? Não foi só estética. Aconteceram muitas coisas". Arkano foi feito também pensando nisso: boom bap, vários feats diferentes, para ver o público ouvindo essas paradas. "Eu quero que meu público entenda também".
E uma das formas de fazer isso foi abraçar o Brasil. Derek sempre consumiu rap nacional, MPB, coisa nacional, marca nacional. E sentiu que precisava entregar algo muito nacional. Então colocou rap, MPB e rock no álbum — uma mistura que faz sentido quando você entende que o Brasil é isso: tudo ao mesmo tempo.
O feat mais emblemático foi com Jorge Vercillo. Derek conta que estava ouvindo uma música dele no celular e mandou uma mensagem no Instagram: "Mano, seria muito insano a gente fazer uma música junto". Passou um ano, e Jorge respondeu. O filho dele, que tem mais ou menos a mesma idade de Derek e também faz música, já conhecia o trabalho, falou para o pai que era da hora — e rolou.
https://www.youtube.com/watch?v=ycQdxx48C-g
"A gente foi para o estúdio e foi uma energia muito da hora. Ele chegou com o violão, cantando para caramba. Eu não acreditava que o cara estava do meu lado e se propondo a fazer um som comigo mesmo, querendo entender como eu fazia minhas músicas, como era a cena do rap e do trap. Ele é bem antenado, conhece muito a cena do rap em si. Foi uma realização muito grande".
Outra peça fundamental foi o produtor Spike. Ele fez parte do primeiro álbum de Derek, de 2016: mixou, fez todos os beats. Trouxe o conceito do Paris (2016). Ficaram um tempo sem fazer música solo juntos e agora, finalmente, voltaram.
"Voltar a trabalhar com ele foi perfeito. Ele deu o "molho" do álbum. Ele tem muita referência de jazz, bossa nova e funk... Ele gosta muito de funk também. Eu sinto que esse álbum tem muita cara dele".
É o ciclo se fechando: o produtor que ajudou a criar o primeiro álbum voltou para ajudar a marcar os 10 anos, conectando o começo com este novo capítulo.
Virada de chave
Dez anos de carreira mudaram Derek em alguns aspectos e, em outros, não. O que mudou foi a forma como pensa sobre música. "Hoje eu sou muito mais pensativo sobre como eu quero entregar minha música. Eu penso muito em como eu quero me posicionar, não só como músico, mas como artista: como eu quero influenciar outros artistas. Eu penso muito em deixar um legado".
Quando começou, só pensava em ser uma pessoa que as pessoas reconhecessem. Hoje, entende o peso, sabe que influencia outras gerações. Mas a confiança continua intacta. "Eu sou muito confiante com a minha música. Desde quando eu me propus a fazer música, eu nunca duvidei. Eu sempre falei: 'Mano, se eu for fazer isso, eu vou chegar onde eu quero'".
Por trás dessa virada toda está a Nine Four Records. Com mais de 10 anos de carreira, Derek tinha criado um desgaste artístico de se propor a se divulgar, falar das músicas. Estava em uma época em que só lançava, e já era. Quando assinou com a gravadora, mudou tudo: estratégia de marketing, mix, master, até o pessoal do marketing ajudando nas músicas. "É muito da hora você sentir que tem um aparato por trás para lançar sua parada e chegar onde tem que chegar". E a gravadora também fortalece o laço do rap: da rua, do skate, de toda essa cena.
"Acho que eu precisava disso, ainda mais com 10 anos. Nada é por acaso. Eu passei por muita coisa, por várias fitas, e ter conseguido me restabelecer, estar de volta lançando minhas músicas, fazendo turnê, fazendo shows e influenciando novos artistas... é incrível".
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