Como o MUCHO! ajudou a aproximar o Brasil da música latino-americana
Curadores do festival analisam o crescimento do interesse brasileiro e os desafios da curadoria
Em poucos anos, o MUCHO! Ciudad Sonora se consolidou como uma das mais importantes plataformas de difusão da música latina no país. Ao longo de 2026, o projeto já levou aos palcos paulistanos artistas como Manu Chao, que reuniu cerca de 30 mil pessoas na Virada Cultural, além de atrações como Los Cafres, Milo J, Móveis Coloniais de Acaju e Iseo & Dodosound. A programação segue até o fim do ano com nomes como Los Mirlos, La Bomba de Tiempo e Aterciopelados, reforçando a proposta de apresentar a diversidade sonora da América Latina ao público brasileiro. Com curadoria focada em intercâmbio cultural, descoberta de novos talentos e valorização de artistas consagrados, o projeto tem ampliado as conexões entre o Brasil e seus vizinhos. Nesta entrevista, os curadores Hernan Halak e Felipe Gonzalez falam sobre a crescente força da música latino-americana no país, os desafios da circulação de artistas pelo continente e o papel de São Paulo como um dos principais polos culturais da região.
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Adriana de Barros: O MUCHO! Ciudad Sonora apresenta artistas de diferentes países e gerações. Qual foi o conceito central que guiou a curadoria desta edição?
Hernan Halak: Trazer um leque de artistas que possam abranger geracionalmente nosso público. Uma mistura de artistas novos trazendo as novas gerações, principalmente público brasileiro, e artistas consagrados onde grande parte do público são imigrantes que moram no Brasil há muito tempo. A mistura do novo e da saudade, uma forma muito potente de pertencimento real.
Durante muito tempo, houve uma distância entre o público brasileiro e a produção musical latino-americana. Vocês percebem uma mudança nesse cenário?
Hernan Halak: A mudança chegou para ficar. Hoje mais do 75% do público do MUCHO! é brasileiro, isso fala de uma identidade latina local, uma vontade de ser parte desse universo rico e incrível que é a música do nosso continente, que faz 16 anos que é o mercado que mais cresce no mundo. Marca tendência e é real, chegando em cada canto do mundo.
Como vocês equilibram nomes consagrados, como Los Mirlos e Aterciopelados, com artistas contemporâneos que vivem um momento de ascensão internacional, como Milo J?
Hernan Halak:
É uma mistura, tanto de forma pessoal como de trabalho, estamos sempre procurando as novas tendências, os novos destaques que começam a aparecer no nosso continente. Com Felipe [curador], sempre vamos nos mercados culturais em outros países tanto a convite como por conta própria, para entender o cenário e as novas cenas. Assim foi o caso do Milo J, acompanhamos de perto desde o começo esse início e fechamos a ideia dos shows em São Paulo no momento certo, e foi uma descoberta incrível e surpreendente para todo mundo. Artistas consagrados acabam sendo parte também do nosso gosto musical, do que escutamos na nossa adolescência. Por sorte, podemos pensar sempre numa curadoria que também a gente goste de forma pessoal, trazer o que realmente gostamos.
O festival reúne gêneros muito distintos, do rock latino à cumbia psicodélica, passando por reggae, dub e experimentações contemporâneas. Essa diversidade é uma marca da identidade do MUCHO?
Felipe Gonzalez:
Vivemos em um dos continentes de maior diversidade musical do mundo, e o MUCHO! tem como uma de suas principais missões apresentar essa riqueza ao público brasileiro. Queremos revelar a imensidão sonora da música latino-americana, rompendo estereótipos e ampliando o olhar sobre a produção cultural do nosso continente. Não existe um único gênero chamado música latina. Existe cumbia, reggae, dub, rock, punk, hip-hop, música eletrônica e uma infinidade de expressões musicais produzidas a partir das diferentes realidades e identidades do nosso continente. Nesta edição, temos desde o reggae histórico dos argentinos Los Cafres até a cumbia amazônica psicodélica dos peruanos Los Mirlos, passando pela nova geração do hip-hop argentino com Milo J e pelas experimentações percussivas do La Bomba de Tiempo. É justamente esse amplo leque de possibilidades que queremos oferecer ao nosso público. A América Latina não pode ser reduzida a uma única sonoridade, e o MUCHO! existe também para mostrar isso.
Que papel o festival desempenha na criação de conexões entre artistas brasileiros e latino-americanos? Há intercâmbios, parcerias ou desdobramentos que nasceram em edições anteriores?
Felipe Gonzalez:
A música tem esse papel revolucionário de desrespeitar qualquer fronteira física. O intercâmbio musical é um dos exercícios mais importantes para a formação estética e para a consolidação de um sentimento de pertencimento a uma região latino-americana mais ampla.
Desde sua criação, o MUCHO! trabalha para aproximar artistas, produtores e públicos de diferentes países. Não se trata apenas de apresentar shows internacionais no Brasil, mas de estimular encontros que possam gerar novas relações artísticas e profissionais.
Nesta edição, buscamos materializar essa proposta colocando artistas brasileiros em diálogo com as atrações internacionais. Foi o caso dos argentinos Los Cafres com Julies Mazarini, de Milo J com o DJ indígena Nelson D e dos espanhóis Iseo & Dodosound com Dani Pimenta. Teremos ainda Mecato abrindo a noite dos peruanos Los Mirlos.
E aproveito para anunciar em primeira mão uma participação muito especial: o grupo brasileiro Barbatuques estará no palco com os argentinos La Bomba de Tiempo, em novembro. São dois coletivos que têm a percussão, a improvisação e a criação coletiva como elementos centrais de suas linguagens. Um encontro que traduz perfeitamente o espírito do MUCHO!: aproximar diferentes expressões culturais e criar novas experiências a partir dessas conexões.
A presença do Móveis Coloniais de Acaju na programação sugere uma leitura ampliada do conceito de música latina. Como a banda dialoga com a proposta do festival?
Felipe Gonzalez:
Antes de tudo, precisamos reforçar algo que parece óbvio, mas que muitas vezes esquecemos: o Brasil também é América Latina. Nossa música faz parte dessa imensa construção cultural do continente, e reconhecer isso é fundamental para a proposta do MUCHO!. O Móveis Coloniais de Acaju é uma banda que se consolidou nos anos 2000 profundamente influenciada pelo ska, pelo rock e pela tradição festiva da música latino-americana. A forte presença dos metais, os arranjos coletivos e a energia de seus shows estabelecem uma conexão muito natural com a sonoridade e a dinâmica de grupos emblemáticos como Los Fabulosos Cadillacs, Los Auténticos Decadentes e até mesmo os Paralamas do Sucesso. O Móveis representa uma geração da música independente brasileira que soube incorporar essas referências e construir uma identidade própria, marcada pela irreverência, pela experimentação e pela relação intensa com o público. Sua presença no festival reforça justamente essa ideia de que a música brasileira não está à margem da América Latina. Somos parte dela, compartilhamos influências, histórias e movimentos culturais. E o MUCHO! também existe para fortalecer esse reconhecimento.
Existe algum artista ou show desta edição que vocês acreditam que pode surpreender o público brasileiro? Por quê?
Felipe Gonzalez:
Acredito que todos os shows desta edição tenham um enorme potencial de surpreender o público, seja pelo ineditismo, pela diversidade sonora ou pela força e representatividade dos artistas em seus países de origem. Mas gostaria de destacar especialmente o La Bomba de Tiempo, que se apresenta no dia 24 de novembro, na Casa Natura Musical. Trata-se de um coletivo argentino de percussão que, desde 2006, ocupa todas as segundas-feiras a Ciudad Cultural Konex, em Buenos Aires. O projeto se transformou em um dos acontecimentos culturais mais emblemáticos da cidade, atraindo milhares de pessoas e se tornando uma referência tanto para o público local quanto para visitantes de todo o mundo. O mais interessante é a dinâmica do espetáculo. São músicos que criam composições inteiramente ao vivo, conduzidos por um sistema de mais de 70 sinais de regência. Cada apresentação é única, construída a partir da improvisação e da interação entre os artistas e o público. É uma experiência que ultrapassa o formato convencional de um show e se transforma em uma grande celebração coletiva. E teremos o privilégio de promover esse encontro com o Barbatuques, um dos grupos brasileiros mais reconhecidos internacionalmente pela pesquisa e criação musical a partir da percussão corporal. Acho que será uma das apresentações mais especiais desta edição, justamente porque sintetiza algo em que acreditamos muito: a música como espaço de experimentação, de encontro e de celebração da nossa identidade latino-americana.
O trabalho de circulação de artistas latino-americanos no Brasil ainda enfrenta desafios estruturais. Quais são hoje os maiores obstáculos para manter esse circuito ativo?
Hernan Halak:
Acho que enfrentam os mesmos problemas que um artista brasileiro enfrenta, circular no Brasil é complexo pelo tamanho do país, pensemos que um voo de São Paulo a Recife gasta 3h30, e de São Paulo a Buenos Aires na Argentina, 2h30. Estamos falando de uma extensão grande e cara num ponto para poder circular de forma geral. Também a maioria dos eventos que chamam artistas de fora do Brasil são festivais, e como grande parte desses eventos dependem de bilheteria para se sustentar, às vezes fica difícil ter uma curadoria mais ampla tendo artistas que não estejam consagrados no país. É uma mistura muito fina que precisa de um investimento por trás, marcas que possam ajudar as curadorias a ter mais espaço para mostrar o novo, não só local, mas também de fora. No MUCHO! acabamos arriscando bastante, mas sabendo e confiando que são projetos que nosso público vai gostar, e tem casos como o do Milo J que falam disso.
O sucesso global de nomes como Bad Bunny e Karol G ajudou a abrir portas para outros artistas da região? De que maneira esse fenômeno impacta projetos independentes e festivais de nicho?
Hernan Halak:
Impacta e muito, ajuda a criar a atmosfera latina, a ter eventos de grande porte que são falados no mundo todo, e isso faz que o Brasil se sinta parte desse movimento. Hoje, pensando no fluxo de shows que estamos tendo no MUCHO! e na quantidade de pessoas que estão acompanhando nossos shows, podemos falar de um mercado em crescimento muito potente, com muito público jovem, o que foi num momento um nicho talvez esteja virando uma tendência grande de mercado, o mundo está mostrando isso, não só no Brasil.
Como vocês enxergam São Paulo dentro do mapa da música latino-americana? A cidade já pode ser considerada um polo importante para artistas do continente?
Hernan Halak:
Sim, hoje a cidade é parada obrigatória, tanto para turnês de grande porte como de médio e pequeno porte, uma cidade que respira cultura de segunda a segunda. E também onde se concentram a maior parte das comunidades latina do Brasil, um caldeirão de culturas incríveis do nosso continente.
Há alguma lacuna ou cena musical latino-americana que vocês gostariam de explorar nas próximas edições do MUCHO?
Fernando Gonzalez:
Seguimos investigando continuamente a música do nosso continente. um dos maiores desafios, e também um dos grandes prazeres da nossa curadoria, é nos depararmos com essa infinidade de gêneros, subgêneros e movimentos musicais que encontramos do Estreito de Magalhães, no extremo sul, até o Rio Bravo, na fronteira do México com os Estados Unidos. É um universo musical praticamente inesgotável, com cenas que se reinventam constantemente e outras tantas que ainda são pouco conhecidas pelo público brasileiro. Queremos seguir percorrendo esse nosso maravilhoso Diário de Motocicleta Musical, descobrindo artistas, atravessando fronteiras e construindo novas pontes culturais.
E queremos que o público participe ativamente dessa viagem. Fica aqui o convite para que continuem nos indicando, pelas nossas redes sociais, artistas, bandas e projetos que gostariam de ver nas próximas edições do MUCHO!
Serviço:
MUCHO! CIUDAD SONORA apresenta Los Mirlos
Onde: Cine Joia - Praça Carlos Gomes, 82 - Liberdade
Quando: 30 de outubro, às 20h
Ingressos: www.sympla.com.br
MUCHO! Ciudad Sonora apresenta La Bomba de Tiempo
Onde: Casa Natura Musical – Rua Artur de Azevedo, 2134 – Pinheiros
Quando: 24 de novembro, às 19h30
Ingressos: www.casanaturamusical.com.br
MUCHO! CIUDAD SONORA apresenta Aterciopelados
Onde: Cine Joia - Praça Carlos Gomes, 82 - Liberdade
Quando: 29 de novembro, às 17h
Ingressos: www.sympla.com.br
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