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Carlinhos Brown e Orquestra Ouro Preto materializam a 'afrossinfonicidade'

Álbum gravado ao vivo em Salvador chega em dois volumes (5 e 26 de junho) como manifesto do encontro entre percussão ancestral e linguagem sinfônica

10 jun 2026 - 09h09
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Depois de reunir multidões em praças e teatros, Carlinhos Brown e a Orquestra Ouro Preto eternizam um dos encontros mais singulares da música brasileira no álbum Afrossinfonicidade. Gravado ao vivo na Concha Acústica de Salvador, em outubro de 2025, o projeto chega em dois volumes (um em 5 de junho e outro em 26) como manifesto de um encontro que confirma: esses universos sempre estiveram destinados a caminhar juntos.

Foto: Lucas Leawry / Rolling Stone Brasil

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Em entrevista à Rolling Stone Brasil, Brown e o maestro Rodrigo Toffolo explicam que o termo afrossinfonicidade é mais do que um rótulo — é um conceito. "É um conteúdo de coesão. Do que as etnias no Brasil propõem, a título de que, se nós buscarmos o melhor de nós, será sinfônico, será cidade. E será afro como um princípio, como a ideia de cultura primal." Não é apenas um neologismo: é uma realidade sonora que só faz sentido quando se escuta. Toffolo complementa: "É um encontro profundamente ligado às relações culturais entre Ouro Preto e Salvador, duas cidades fundamentais na formação do Brasil."

Entre o tambor e o violino, entre o terreiro e o teatro, entre Minas e Bahia, há uma continuidade que a música brasileira conhece bem, mas que raramente ganha forma tão acabada de expressão. "O tambor já nasce sinfônico porque organiza pessoas, emoções e memórias. Quando a Orquestra Ouro Preto abraça essa pulsação, nasce uma música que celebra o Brasil em toda a sua grandeza", afirma Carlinhos.

Gravado ao vivo: a energia que o estúdio não captura

Tudo começou em 2024, em um concerto aberto na Avenida Paulista, em São Paulo. Carlinhos estava com a orquestra, à vontade, tocando com a roupa que tinha. Quando a apresentação começou, algo inesperado aconteceu: "Começou e começou; o público começou a chegar, começou a se ordenar. A gente estava, consistentemente, com o público cantando as músicas, apaixonados — a gente e a orquestra um pelo outro. E a gente disse: 'O que está acontecendo?'". Ali nascia algo.

Por isso, o disco foi registrado ao vivo — não no estúdio, mas na Concha Acústica, com público e com a cidade escutando. "O que soará, será", diz Rodrigo. "O coletivo não pode ser editado. Esse é o grande desafio." Carlinhos completa:

"Gravar esse trabalho ao vivo era fundamental, porque existe uma energia ali que não cabe apenas na partitura ou no estúdio. O público canta, responde, vibra."

"A cidade inteira parecia ouvir. Nós fomos tomados por um silêncio na cidade — um negócio, assim, que foi uma prece. O show, inclusive, cresceu muito depois daquilo." Depois, levaram o material ao estúdio com Arthur Luna para apurar o que era necessário, mas, como Carlinhos diz, "a alma da Ouro Preto está ali". O resultado é um disco que preserva o que dificilmente o estúdio capturaria: a forma orgânica como os músicos se escutam e os contracantos que nascem no instante.

Dois volumes, dois caminhos

Enquanto o Volume 1 revela Carlinhos como compositor, em faixas como "Frases Ventias" originalmente do álbum Alfagamabetizado (1996), que completa 30 anos em 2026 — a canção ressurge aqui com força barroca, próxima da poesia afro-brasileira, comenta. O repertório ainda inclui "Dois Grudados", "Argila", "Ocaso", "Segue o Seco" e "Muito Obrigado Axé", todas com roupagem sinfônica assinada por Paulo Malheiros.

Já o Volume 2 toma outro rumo: as parcerias com os TribalistasMarisa Monte e Arnaldo Antunes — em canções como "Vilarejo", "Velha Infância" e "Já Sei Namorar", além de sucessos como "A Namorada" e "Amor I Love You". É Carlinhos, agora, como "intérprete da própria obra", conduzindo e cantando suas composições com a orquestra, como explicam.

A ancestralidade que pulsa

Quando questionados sobre o conceito de afrossinfonicidade durante a conversa, a ideia de ancestralidade apareceu como complementar — não separada, mas entrelaçada. Rodrigo explica como a percussão funciona na orquestra: "Essa ancestralidade da percussão é algo que está no coração — batendo —, no barulho do corpo, do sangue. A percussão é um momento de conexão com essa coisa mais primal que a gente tem".

É o que acontece quando Carlinhos entra nos ensaios, os músicos da orquestra mudam de postura. "A reação dos músicos muda com o sorriso do Carlinhos", comenta Rodrigo. "Você vê que há ali uma conexão energética". Carlinhos descreve seu trabalho de forma bem concreta: "O percussionista, antes de ser rítmico, é sonoplasta. Esse trabalho de sonoplastia levado à orquestra se sinfoniza. Porque eu sou afro-sinfonia: eu ouço e respondo. Eu toco e tenho uma resposta".

Para Carlinhos, essa ancestralidade não é loucura: "Um ritmista de funk swing se ajeita muito e não para. Para mim, o impacto de uma obra tocando… eu vou ouvir o rítmico". Essa capacidade de escuta profunda, de resposta orgânica, é o que traz a ancestralidade para dentro da sinfonia.

E é aí que afrossinfonicidade ganha sua dimensão completa. Indo além do encontro de instrumentos ou linguagens. É a revelação de que a percussão ancestral — aquela que organiza corpos, emoções, memórias — sempre foi sinfônica. Sempre foi coletiva. Sempre esteve ali, esperando uma orquestra que a escutasse de verdade.

Audiovisual e futuro

E, além dos volumes, chega também o audiovisual do show completo gravado na Concha Acústica — a primeira oportunidade de o público ver não só a música, mas também os gestos e as trocas de olhares entre Carlinhos e a orquestra.

Segundo eles, a jornada não para por aí. "Nós vamos escrever uma ópera inédita", anuncia Carlinhos, revelando que ainda há muito a ser explorado nesse encontro que, ao que tudo indica, sempre esteve ali — esperando apenas ser ouvido.

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