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"Blackstar", outro grande disco alienígena de David Bowie

23 dez 2015 - 06h06
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Os críticos afirmam que "Blackstar", o novo disco que David Bowie lançará em 8 de janeiro, pode ser considerado um quarto capítulo de sua trilogia berlinense, provavelmente por um afã claramente experimental que o conduziu, como sugere seu nome, para fora da galáxia... mais uma vez.

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Uma única audição é insuficiente para compreender todos os mundos contidos no 25º álbum de estúdio do multifacetado artista britânico, apesar de ser certo que a enorme intensidade deste exercício musical faz o ouvinte duvidar que seja capaz de amarrar as canções.

"Blackstar" não é um disco frugal, e o produto final exala grande qualidade, não isenta de humor, como se Bowie tivesse deixado rédea solta para seu lado mais brincalhão após satisfazer o gosto do público com o mais convencional "The Next Day" (2013), esperado e louvado retorno à música após dez anos sem material novo.

Por mais minucioso que tenha sido em sua elaboração, o gênio londrino dá sinais aqui de exercício lúdico, de não se levar a sério demais ou, quando menos, de não ter perdido o pulso provocador com músicas como "'Tis a pity she was a whore" ("É uma pena que ela fosse uma vadia", em tradução livre).

Seu valor é duplamente admirável porque, aos 68 anos e após 24 discos nos quais reinventou várias vezes a história da música popular, ainda tem o desejo de investigar e transcender.

Neste caso, a proeza consiste, por um lado, em incorporar um quarteto de jazz para fazer rock e não soar meloso em 98% de sua extensão e, por outro, que a incorporação de tantos elementos à linha melódica principal não soe caótica, mas sim inquietante.

O saxofone de Donny McCaslin, conhecido por fazer versões de artistas de música eletrônica como Aphex Twin, tem um papel quase tão relevante quanto a própria voz de Bowie, mas longe de suavizar a convivência musical, é fundamental para ressaltar a demência, o fastio e a decadência transmitida pelas canções.

Na produção, como não poderia ser diferente, está Tony Visconti, com quem Bowie constrói sete obras fantásticas, algumas das quais, como a faixa de abertura, "Blackstar", parece constituída na realidade por duas canções em seus quase dez minutos de duração.

Seu videoclipe não é menos impactante: um esqueleto vestido de astronauta aterrissa em uma paisagem desértica, terreno adequado apenas para os mutantes e para que prospere uma igreja obscura para a qual Bowie prega.

Embora talvez este single seja o exercício mais louco e desbordante de todo o repertório, música e imagem oferecem um retrato fiel do conjunto.

O lamento de "Lazarus", segundo single e terceira música na ordem do disco após a citada "'Tis a pity she was a whore", parece mais acessível aos ouvidos, com seu saxofone pesado e choroso. Ele contrasta com a velocidade que marca a bateria na música seguinte, "Sue (or in a season of crime)", que Bowie já havia mostrado em 2014 e que fala de uma relação predestinada a um final ruim, no que parece uma busca acelerada e obsessiva pela protagonista do título.

"Girl loves me" se assemelha a um típico cântico infantil, sobretudo pela voz de Bowie, que assume esse papel de uma perspectiva quase psicótica, com um coro eclesiástico e um arranjo de cordas que reforçam o clima de mistério.

O piano é o destaque em "Dollar days", dando a esta música um toque melancólico que a torna um pequeno refúgio das agrestes passagens prévias antes de "I can't give everything away", que encerra o álbum com uma linha de voz que, sem seu envoltório de amargura, poderia pertencer a um "crooner".

De sua audição integral, só fica a dúvida se "Blackstar" contém temas capazes de transcender singularmente o imaginário coletivo junto a joias como "Heroes", The man who sold the world" e "Life on Mars", embora em nível global sacie tranquilamente o paladar, com um gostinho que deixaria a trilha sonora de um remake imaginário de "Blade Runner" a cargo de David Lynch.

EFE   
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