Beatles: Os melhores álbuns da história do Fab Four, segundo os 4 integrantes
Lennon, McCartney, Harrison e Starr revelaram ao longo dos anos seus discos favoritos do catálogo que redefiniu a música pop
Poucas bandas na história da música construíram um catálogo tão vasto, tão debatido e tão reverenciado quanto os Beatles. De Please Please Me (1963) a Let It Be (1970), o quarteto de Liverpool lançou 13 álbuns de estúdio em menos de uma década — cada um com identidade própria — e quase todos marcaram um ponto de virada na história do pop mundial. Mesmo passados mais de 50 anos, a discussão sobre qual é o melhor disco dos Fab Four continua acesa.
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O que muita gente desconhece é que nem os próprios integrantes chegavam a um consenso. Ao longo das décadas, em entrevistas concedidas após a dissolução da banda em 1970 — reunidas pela revista FarOut —, John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr foram repetidamente questionados sobre seus favoritos, e as respostas dizem muito não só sobre os álbuns, mas também sobre personalidades, tensões criativas e perspectivas particulares dentro do grupo mais influente da história do rock.
O mais interessante é que cada escolha nasce de um critério diferente: Lennon e McCartney tendiam a privilegiar discos que refletiam seus impulsos criativos; Harrison apontava para o momento de florescimento coletivo da banda; e Ringo escolhia, de forma direta, o que mais gostava de ouvir.
A seguir, o que cada um elegeu e por quê.
John Lennon: The White Album (1968)
https://www.youtube.com/watch?v=bI8P6ZSHSvE&list=PLycVTiaj8OI80AsTGjYJAPi7-i8kTH-Bq&index=7
Lennon nunca economizou palavras ao falar dos Beatles, e sua preferência por The White Album tinha tanto a ver com o disco em si quanto com uma provocação velada a McCartney. Em entrevista de 1971, John disse que Paul nunca gostou do álbum justamente porque, ali, cada músico trabalhava mais nas próprias composições do que como um bloco coeso. "Ele queria que fosse mais uma coisa de grupo — o que, na prática, significa mais Paul. Então, ele nunca gostou daquele álbum", afirmou.
Para Lennon, porém, essa era exatamente a força do trabalho: "Sempre o preferi a todos os outros álbuns, incluindo [Sgt.] Pepper, porque acho as músicas melhores. O mito em torno do Pepper é maior, mas a música do White Album é muito superior, eu acho".
A escolha também revela algo da visão artística de Lennon: a valorização da franqueza acima de qualquer conceito. Para ele, o álbum branco era a expressão mais direta de quem cada membro realmente era — sem disfarces psicodélicos e sem grandes molduras temáticas, apenas quatro músicos seguindo o próprio instinto. Com faixas como "Dear Prudence", "Blackbird", "Helter Skelter" e "Revolution", o disco duplo permanece como um dos mais ecléticos e ambiciosos da discografia do grupo. É impossível saber como Lennon veria hoje esse e outros trabalhos com o passar do tempo: seu assassinato, em 1980, interrompeu uma maturidade que talvez tornasse suas avaliações ainda mais nuançadas.
Paul McCartney: Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967)
https://www.youtube.com/watch?v=naoknj1ebqI&list=PL3PhWT10BW3VDM5IcVodrdUpVIhU8f7Z-&index=3
McCartney segue como um dos maiores defensores do legado dos Beatles — e sua escolha por Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band diz muito sobre o papel que exerceu na banda. Frequentemente descrito como o "diretor musical" do grupo, Paul foi um dos principais motores criativos por trás do conceito do álbum.
Em entrevista de 1991, ele afirmou amar todos os discos gravados pelo quarteto, mas admitiu que, se tivesse de escolher apenas um, ficaria com o Pepper. "Eu escolheria o Sgt. Pepper's, eu mesmo, porque tive muito a ver com ele", disse, rindo da ironia de um certo egocentrismo na decisão. "Não foi inteiramente minha ideia, mas, para nos afastarmos de sermos 'The Beatles', tive a ideia de que deveríamos fingir que éramos outro grupo."
Lançado em 1967, Sgt. Pepper's é amplamente visto como um divisor de águas não só do rock psicodélico, mas da música popular do século XX. A preferência de Paul também aponta para seu momento na banda: McCartney em plena potência criativa, ampliando suas possibilidades artísticas e vislumbrando caminhos que, mais tarde, o levariam para além dos Beatles. Para Harrison e Lennon, no entanto, a experiência foi mais ambígua: ambos sentiam que o processo conceitual tornara a criação mais "mecânica", afastada da energia viva das performances.
George Harrison: Rubber Soul (1965)
https://www.youtube.com/watch?v=YBcdt6DsLQA&list=PLjb5kMzP2zomYJOdINxdoOuCVzdFt4hHa&index=11&pp=iAQB8AUB
George Harrison, muitas vezes chamado de "o Beatle quieto", talvez fosse descrito com mais precisão como o Beatle mais negligenciado por muito tempo. Autor de algumas das faixas mais celebradas do catálogo — como "While My Guitar Gently Weeps" e "Here Comes The Sun" —, Harrison foi subestimado pelos colegas e pelo público durante anos.
Muita gente esperaria que ele escolhesse The White Album, que reúne quatro composições suas, o mesmo número de Lennon. Ou Sgt. Pepper's; entretanto, ele próprio tinha ressalvas, por sentir que o processo conceitual transformara a criação em uma espécie de linha de montagem, sem o calor das performances.
Sua escolha, portanto, recaiu sobre Rubber Soul, o disco que marca o momento em que os Beatles começaram a se afastar do pop juvenil e a abraçar algo mais profundo e experimental. "Rubber Soul foi meu álbum favorito. Mesmo naquela época, acho que foi o melhor que fizemos. Certamente sabíamos que estávamos fazendo um bom álbum. Passamos um pouco mais de tempo nisso e tentamos coisas novas. Mas o mais importante foi que, de repente, ouvimos sons que não conseguíamos ouvir antes. Além disso, estávamos sendo mais influenciados pela música de outras pessoas, e tudo estava florescendo naquela época — inclusive nós, porque ainda estávamos crescendo", disse o guitarrista.
Ringo Starr: Abbey Road (1969)
https://www.youtube.com/watch?v=oolpPmuK2I8&list=PLycVTiaj8OI-kwvNjgvvopMJt__x-y5mD
Ringo Starr, possivelmente o mais querido do quarteto, fez uma escolha que combina com sua personalidade: Abbey Road, a penúltima obra de estúdio da banda, lançada em 1969. O baterista foi além e destacou como favorita o famoso "lado B", a sequência encadeada de fragmentos e canções que começa em "You Never Give Me Your Money" e culmina em "The End".
Para muitos (incluindo o próprio Lennon), aquele medley era visto como um conjunto de sobras que não chegaram a virar músicas "de verdade". Ringo, porém, não hesitou: "O segundo lado de Abbey Road é o meu favorito. Eu adoro."
Ele ainda explicou por que aqueles trechos, para ele, tinham tanto valor: "She Came In Through The Bathroom Window e todos aqueles trechos que não eram músicas… quero dizer, eram apenas todos os trechos que John e Paul tinham por aí e que juntamos."
Há algo genuíno nessa preferência: enquanto os outros três tendiam a escolher álbuns que, de alguma forma, validavam seus próprios papéis criativos, Ringo simplesmente elegeu aquilo de que mais gostava de escutar — e Abbey Road segue emocionando ouvintes décadas depois, assim que a agulha toca o vinil.
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