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As músicas que formaram os Estados Unidos, segundo Barack Obama

Mais uma vez, mesmo em nossos capítulos mais sombrios, o poder da música mostrou ao país o caminho a seguir

12 jun 2026 - 10h59
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Durante minha primeira campanha presidencial, fiquei um tanto meticuloso — talvez até um pouco supersticioso — com meus rituais nos dias de debate. Eu precisava fazer um treino rápido e sempre pedia o mesmo jantar. E então, na meia hora que antecedia o grande momento, eu deixava de lado quaisquer anotações e tópicos de discussão que minha equipe tivesse preparado, colocava os fones de ouvido e simplesmente escutava música.

Barack Obama
Barack Obama
Foto: Chip Somodevilla/Getty Images / Rolling Stone Brasil

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No início, ouvia alguns clássicos do jazz — "Freddie Freeloader", de Miles Davis, e "My Favorite Things", de John Coltrane. Mas, com o tempo, descobri que era o rap que colocava minha mente no lugar certo. Algumas músicas sobre desafiar as probabilidades e apostar tudo — "My 1st Song", de Jay-Z, e "Lose Yourself", de Eminem — estavam sempre na playlist, talvez porque combinassem com minha condição inicial de azarão. Sentado sozinho na parte de trás do SUV do Serviço Secreto a caminho do local do debate, balançando a cabeça no ritmo da música, eu sentia toda a pompa, o protocolo e a artificialidade do ambiente ao meu redor desaparecerem. Minha mente voltava para aquilo que era mais essencial para mim: os amigos e familiares que me moldaram; os valores e ideais que me guiavam; e todas as vozes esquecidas de pessoas espalhadas pelo país que eu esperava representar um dia.

A música sempre teve a capacidade de falar conosco e por nós de uma forma que nada mais consegue. É por isso que, se você quiser compreender os últimos 250 anos da vida americana, uma das melhores maneiras de fazê-lo é ouvindo a música que definiu esta grande nação.

Quando pessoas escravizadas foram trazidas para nossas terras, centenas de anos atrás, a música que carregavam em seus corações lhes deu força e coragem para enfrentar o que estava por vir. Os spirituals não eram mero entretenimento. Eram, como W. E. B. Du Bois descreveria mais tarde, "a mensagem articulada do escravo para o mundo" — uma forma de afirmar a humanidade que outros tentavam lhes negar.

Esse mesmo espírito ajudou a impulsionar o movimento pelo sufrágio feminino. Canções de mobilização escritas sobre as melodias de "Yankee Doodle" e "America (My Country, 'Tis of Thee)" tornaram-se parte importante de marchas e piquetes e, como todos já sabiam cantá-las, os organizadores não precisavam imprimir partituras. Bastava distribuir novas letras.

Mais tarde, viajando em trens de carga durante a Grande Depressão, Woody Guthrie ouviu as canções dos migrantes da Dust Bowl e dos trabalhadores imigrantes. Ele escreveu "This Land Is Your Land" em resposta a "God Bless America", de Irving Berlin, argumentando que este país pertencia tanto aos que lutavam para sobreviver e aos marginalizados quanto aos privilegiados e bem relacionados.

Essa tradição alcançou sua expressão mais completa durante o Movimento dos Direitos Civis, que foi, entre outras coisas, um movimento de canto. "We Shall Overcome" e outras canções gospel ecoavam por celas de prisão e porões de igrejas, criando um vínculo que nenhum cassetete ou jato d'água poderia romper. E quando, durante a Marcha sobre Washington, Mahalia Jackson gritou para o Dr. King: "Fale para eles sobre o sonho, Martin!", ela estava fazendo o que os músicos fazem de melhor: chegar à verdade e esperar que o restante de nós a alcance.

Ao longo das décadas de 1960 e 1970, a música popular continuou a impulsionar mudanças sociais, fazendo as perguntas que precisavam ser feitas. Durante a Guerra do Vietnã, canções de protesto como "Fortunate Son", "Blowin' in the Wind" e "What's Going On" tornaram-se parte do ar que o país respirava. Ao mesmo tempo, músicas como "Okie From Muskogee", de Merle Haggard, davam voz aos americanos da classe trabalhadora que sentiam que o movimento de protesto não tinha nada a dizer para eles — ou sobre eles — lembrando-nos de que, em uma nação grande e turbulenta como os Estados Unidos, nunca podemos presumir que todos cantarão a mesma melodia.

Anos depois, jovens negros e latinos do Bronx usaram toca-discos para reinventar a música popular mais uma vez. Como toda grande música, o hip-hop não era apenas uma distração — era jornalismo em forma de batida. Canções como "The Message", de Grandmaster Flash, descreviam uma realidade que grande parte do país jamais precisara enfrentar. E, ao longo das décadas seguintes, um gênero musical criado por pessoas que exigiam dignidade e respeito tornou-se a música mais popular do mundo.

É claro que nenhuma dessas formas de expressão existiu isoladamente. A razão pela qual a música popular americana sempre foi tão rica, evocativa e intensamente viva é que ela reflete o caráter mestiço e multifacetado de nossa sociedade — misturando tudo, de ritmos africanos à música folk irlandesa, das melodias das salas de concerto ao blues dos bares populares. É por isso que a música americana está constantemente se renovando e, em seus melhores momentos, ressoa além de nossas fronteiras: porque contém elementos vindos de todos os cantos do planeta.

Em parte porque absorve e experimenta tantas tradições diferentes, a música americana frequentemente falou sobre nossas questões, conflitos e contradições mais urgentes antes mesmo da política fazê-lo. Não porque os músicos sejam mais sábios que os políticos — embora muitos sejam —, mas porque a música opera sob regras diferentes.

A música não precisa conquistar a maioria dos eleitores. Não precisa agradar ao menor denominador comum nem apresentar um plano de dez pontos. Ela só precisa ser verdadeira o bastante para que as pessoas se reconheçam nela. Precisa apenas lembrar às pessoas que elas não estão sozinhas em seus medos e dificuldades, esperanças e sonhos. A grande música tem a capacidade de nos fazer sentir vistos; mais do que isso, ajuda-nos a enxergar os outros, ampliando nossos corações e nossa imaginação moral. Foi assim que os spirituals pregaram a emancipação antes da assinatura da Proclamação, o rock & roll incentivou a integração antes da aprovação da Lei dos Direitos Civis, e as canções de protesto compreenderam a injustiça da Guerra do Vietnã muito antes de o governo admitir isso.

Repetidas vezes, a música nos mostrou o caminho. E, eventualmente, os Estados Unidos seguiram esse caminho.

Na Casa Branca, Michelle e eu reservávamos noites para homenagear e celebrar a música que moldou os Estados Unidos, da música clássica e country ao blues, à Broadway, ao gospel, à Motown, à música latina e ao jazz. E, quando projetamos o Centro Presidencial Obama — que será inaugurado em junho, no South Side de Chicago — incluímos um estúdio de gravação e um espaço para apresentações, para que a próxima geração de vozes possa refletir este país, com toda a sua beleza e imperfeições, e nos conduzir a algo melhor.

Porque os Estados Unidos sempre valeram uma canção — e essas canções são uma forma de fé. Fé de que nosso improvável experimento de autogoverno ainda não terminou. Fé de que os Estados Unidos são aquilo que fazemos deles. As canções continuarão mudando, mas minha maior esperança é que a fé em nossa democracia permaneça a mesma e que, juntos, possamos continuar a gloriosa tarefa de aproximar os Estados Unidos daquilo que sabemos que eles podem ser.

Rolling Stone Brasil Rolling Stone Brasil
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