A reflexão de Roger Waters com a qual Neil Peart se identificava
Em livro de memórias lançado em 2004, saudoso baterista do Rush comentou sobre sua relação com a temática lírica de algumas obras do Pink Floyd
O saudoso baterista do Rush, Neil Peart, falecido em 2020, era conhecido não apenas por sua técnica impecável, mas por uma profunda bagagem como leitor, escritor e letrista. Entre as obras que moldaram sua visão artística, o trabalho do Pink Floyd — em especial as composições de Roger Waters — ocupava um lugar de destaque.
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Em seu livro de memórias lançado em 2004, Traveling Music (via Rock and Roll Garage), Peart revelou sua identificação imediata com os temas de alienação e desgaste da indústria fonográfica abordados por Waters ao longo dos anos 1970. Embora admirasse clássicos anteriores, o músico canadense apontou o álbum The Wall (1979) como sua obra favorita do grupo britânico.
Porém, as reflexões que capturaram a atenção de Peart se consolidaram anos antes, durante as sessões de Wish You Were Here (1975). Sob a liderança conceitual de Roger Waters, nessa época Pink Floyd canalizava o esgotamento físico e mental decorrente do sucesso massivo de The Dark Side of the Moon (1973).
O projeto de 1975 baseava-se em uma dualidade: a melancolia pelo afastamento do cofundador Syd Barrett — ausente por problemas de saúde mental — e também uma crítica à ganância do mercado musical.
Faixas como "Welcome to the Machine" e "Have a Cigar" foram escritas por Waters para expor o cinismo dos executivos da indústria, que enxergavam a arte estritamente como um produto. Na visão dele, o maquinário corporativo traía a descoberta musical e destruía o contato genuíno entre as pessoas, de certa forma.
Neil Peart exalta Roger Waters e Pink Floyd
Segundo Peart, essa insatisfação inicial plantou as sementes para o ápice temático do Floyd. No livro, ele escreveu:
"Esses temas eventualmente cresceram para se tornarem o maior trabalho do Pink Floyd e de Roger Waters, The Wall."
O baterista chegou a citar detalhes específicos, como a menção às dores físicas causadas pelo esforço repetitivo de tocar noites seguidas, algo com o qual se identificava profundamente:
"Como um músico que viveu o tipo de vida de turnê que Waters usou como pano de fundo em The Wall, eu conhecia bem demais a combinação de exaustão, confusão, alienação e fragilidade que ele descreveu tão magistralmente."
Rush absorveu influência
A conexão com a temática da escrita de Roger Waters também deixou marcas na própria discografia do Rush. Neil Peart admitiu que a abordagem confessional e realista do baixista do Pink Floyd influenciou "enormemente" a composição de "Limelight", do álbum Moving Pictures (1981) e um dos maiores sucessos de sua banda.
Peart relatou que, por meio das letras de Waters, compreendeu que as melhores composições nascem da proximidade com a realidade do autor. Segundo ele, a lição extraída do Pink Floyd foi a de escrever sobre aquilo que se entende e vivencia intimamente. Sejam acontecimentos reais ou sentimentos genuínos com os quais lidam o autor.
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