A genialidade de Steve Lacy foi colocada à mesa em 'Oh Yeah?'
No terceiro álbum, o artista de Copmton transforma quatro anos de silêncio em seu disco mais confessional até aqui
Depois do sucesso avassalador de Gemini Rights (2022), impulsionado por "Bad Habit", balada lo-fi que conseguiu o feito raro de liderar simultaneamente as paradas de hip hop, R&B e rock alternativo, Steve Lacy poderia ter simplesmente repetido a fórmula: refrão fácil de cantar junto, melodia cantarolada chiclete, produção caseira e versos pensados para viralizar. Em vez disso, ele desapareceu por quatro anos, gravou dois álbuns, mais de 300 músicas, descartou boa parte e criou Oh Yeah?, o disco mais direto que já fez sobre si mesmo.
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A mudança começou pelo processo. Lacy cortou café e comida com THC durante as gravações, buscando lucidez total antes de entrar no estúdio. "Estou pronto pra falar o que penso", disse à Rolling Stone EUA sobre a nova fase. O resultado são dez faixas onde ele troca o distanciamento irônico de trabalhos anteriores por confissão quase sem filtro, ainda que sem abrir mão do humor afiado que sempre foi sua marca.
Essa dualidade aparece com força logo em "is it cool?", com SZA. Lacy reconhece publicamente padrões autodestrutivos em relacionamentos, admite a vontade de compromisso ao mesmo tempo em que confessa recair na infidelidade, e conecta essa insegurança à perda do próprio pai ainda criança. SZA funciona como contraponto, questionando pelo mesmo ângulo se vale a pena se arriscar por alguém tão instável emocionalmente: "Você não precisa confiar em mim pra me amar, amor / Porque nem eu confio em mim mesmo", canta.
"the feeling" leva essa vulnerabilidade a um registro quase de balada eletrônica: Lacy entrega um dos refrões mais diretos do disco, explícito na necessidade de ser amado de volta. Já "pure color", com Erykah Badu — influência assumida desde a adolescência —, mergulha numa atmosfera psicodélica e trip hop, com os dois artistas debatendo identidade e auto-reconhecimento em versos que se entrelaçam sem nunca disputar espaço.
"show you me" é o momento mais engraçado e desconfortável do álbum ao mesmo tempo: Lacy narra a ansiedade de uma paixão que nem sequer se materializou presencialmente, alternando entre êxtase e dúvida sobre a própria sexualidade dentro da mesma faixa, culminando na proposta desajeitada de simplesmente se conhecerem de verdade. "doom", por sua vez, mira além do próprio umbigo: é o retrato mais cínico do álbum sobre como sua geração trata desejo e validação como sinônimos de amor: "Sou um bebezão sugando peitões / O karma é uma vadia — e aposto que ela é linda / Todo mundo transa, mas ninguém dá a mínima / Pro amor — só por validação".
O fechamento, no par "nice shoes / in your world" e "bebe", resume o arco do disco. A primeira expande o single lançado ano passado numa suíte de nove minutos que passeia entre breakbeat frenético e funk lento, terminando em confissão sobre solidão disfarçada de festa. "bebe", escrita com Fousheé, fecha o álbum em tom quase psicodélico, revertendo a resolução da faixa anterior numa nova pergunta sobre se ele está mesmo pronto pra esse tipo de compromisso, ecoando a interrogação que dá nome ao próprio disco.
A produção, toda assinada pelo próprio Lacy, é onde o álbum mais impressiona: ele passeia entre power pop, trip hop, funk e psicodelia sem que a costura pareça forçada, incorporando influências que vão de MGMT a Frank Ocean, colega de geração do Odd Future que continua sendo a referência mais evidente de sua abordagem vocal e estrutural. Os feats, de SZA a Cecile Believe, passando por Erykah Badu, nunca soam como acréscimo de currículo. Cada um entra pra reforçar o argumento emocional da faixa, não pra emprestar holofote.
Entretanto, a letra ainda é o ponto mais frágil, Lacy intercala versos genuinamente reveladores com outros propositalmente toscos ou de humor barato, um contraste que divide hora soa autêntico, ora parece apenas descuido disfarçado de espontaneidade.
Colocado ao lado de Apollo XXI (2019) e Gemini Rights, Oh Yeah? confirma uma trajetória rara de amadurecimento constante: cada álbum de Lacy aprofunda o anterior sem repeti-lo, e sua influência já reverbera visivelmente numa nova geração de artistas de R&B alternativo dispostos a misturar guitarra, eletrônica e confissão crua sem medo de soar contraditórios. Poucos nomes da própria geração têm moldado tanto os rumos do gênero quanto ele.
No fim, Oh Yeah? confirma que Steve Lacy não está interessado em repetir a própria fórmula de sucesso, mas em descobrir — em tempo real — quem ele é quando ninguém exige que seja mais simples. Quase uma década de carreira, entre The Internet e a trajetória solo, transformou Lacy em uma figura geracional: influência para seus pares, referência para quem veio depois e agente de mudança numa cena que, com frequência, prioriza fórmula em vez de risco. Oh Yeah? prova que ele continua disposto a se expor, ainda que isso signifique soar desconfortável. A genialidade de Steve Lacy foi colocada à mesa não quando ele virou número um, mas quando escolheu se afastar do número um para fazer a música que importa para ele.
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