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Morre João Adolfo Hansen, professor emérito da USP e referência em crítica literária

Crítico literário morreu aos 83 anos e teve trajetória marcada por estudos sobre literatura brasileira

16 fev 2026 - 15h12
(atualizado às 18h05)
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João Adolfo Hansen era professor emérito da FFLCH e referência na crítica literária brasileira
João Adolfo Hansen era professor emérito da FFLCH e referência na crítica literária brasileira
Foto: MARCIO FERNANDES/ESTADÃO / Estadão

O século 17 brasileiro nunca mais foi o mesmo depois de João Adolfo Hansen. Com suas pesquisas e livros, o crítico literário, ensaísta e professor emérito da Universidade de São Paulo mudou nossa percepção da literatura do período e, em especial, da obra do escritor Gregório de Matos.

Suas análises rejeitavam a caracterização do período como "barroco", uma percepção que considerava posterior, buscando, então, compreender sua obra à luz de seu tempo.

"Ao evitar o barroco, Hansen toma uma providência necessária para que saibamos ler e ver as expressões da cultura luso-brasileira seiscentista por trás da espessa camada de categorias de interpretação anacrônicas sedimentada pela historiografia da arte e da literatura romântica e iluminista. As categorias associadas ao barroco implicam uma série de juízos inadequados à compreensão daqueles artefatos históricos. Desfazer o estrago é mais difícil do que parece", escreveu o professor da UFRJ André Jobim Martins sobre o trabalho do autor em texto publicado no Estadão em setembro de 2019, quando Hansen lançava o livro Agudezas Seiscentistas e Outros Ensaios.

Hansen morreu no último domingo, aos 83 anos. A informação foi confirmada pela Universidade de São Paulo, onde ele foi professor do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. A causa da morte não foi informada.

Em comunicado, a direção da FFLCH manifestou pesar pela morte do professor e prestou solidariedade à família e à comunidade acadêmica. "A direção da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP manifesta imenso pesar e sentimento de solidariedade aos familiares, bem como a todas as pessoas da nossa comunidade que conviveram com o querido colega."

Ainda segundo a universidade, o velório será aberto ao público e ocorrerá nesta terça-feira, 17, das 10h às 18h, no Salão Nobre do prédio da Administração da FFLCH, na Cidade Universitária, em São Paulo. A cremação está marcada para quarta-feira, 18, às 11h, no Horto da Paz.

Trajetória

Nascido em 1942, Hansen se formou em Letras Anglo-Germânicas pela PUC-Campinas, em 1964. Concluiu o mestrado em Literatura Brasileira na FFLCH em 1983, com dissertação sobre Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, que ele considerava como um "Macunaíma a sério", em alusão ao livro de Mário de Andrade.

"Em Macunaíma, Mário de Andrade [1893-1945] discute de forma irônica, paródica e até mesmo carnavalesca várias teorias sobre a formação do caráter nacional. Obviamente, ele não se referia a 'caráter' no sentido de 'ética', como se Macunaíma fosse um herói sem nenhuma moral. Mário está pensando em algo mais profundo, sobre qual seria o ethos cultural do herói brasileiro, que é africano, indígena e europeu. Ele defende a criação de uma literatura moderna e inventiva, mas sem o caráter nacionalista. E Guimarães Rosa radicaliza essa ideia. Seu projeto é dar voz às linguagens que constituem o Brasil desde o século 16, mas trata de dissolvê-las em um grande vórtex, em um grande redemoinho, que nos sugere veredas, pequenos caminhos, rumo a formas que ainda vão ser produzidas. Grande Sertão: Veredas não é um puro exercício metalinguístico pós-moderno, concretista, formalista. É uma coisa muito maior. Rosa tinha um projeto linguístico-literário e também metafísico, que era a ideia de fundar uma literatura, fundar um povo, fundar um Brasil. Mas faz isso sem lançar mão da paródia presente em Macunaíma[/1893-1945]", afirmou em entrevista à Revista da Fapesp em junho de 2022.

Em seguida, Hansen realizou seu doutorado com tese dedicada a Gregório de Matos, poeta nascido em Salvador e morto no Recife, no século 17 (as datas não são precisas), considerado o primeiro "poeta barroco brasileiro", com poesia em vários gêneros (religioso, lírico, satírico e erótico).

Ao longo da carreira, Hansen tornou-se um dos principais nomes da crítica e da pesquisa em literatura brasileira. Também atuou como professor visitante em instituições como Universidad de Chile, Stanford University, Ucla e École des Hautes Études de Paris.

Em 1990, venceu o Prêmio Jabuti com A Sátira e o Engenho. Gregório de Matos e a Bahia do Século XVII, livro desenvolvido a partir de sua tese de doutorado. Em 2014, recebeu o Grande Prêmio da Crítica da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA) pela obra Gregório de Matos (5 Volumes), escrita em parceria com Marcello Moreira.

Nos últimos anos, atuava como professor titular aposentado da FFLCH e havia recebido o título de professor emérito.

Perspectiva

Em texto publicado no Estadão em 2019, o crítico Wilson Alves-Bezerra colocava o trabalho de Hansen em perspectiva, partindo da fundação de uma pesquisa universitária de literatura no Brasil, em especial com a publicação de Formação da Literatura Brasileira - Momentos Decisivos: 1750-1880, de Antonio Candido. Isso porque o autor partia de uma noção de sistema literário, entendido como articulação de escritores, leitores e meios de circulação. Uma das crítica principais ao trabalho de Candido foi a exclusão do período colonial de seu trabalho, impasse com o qual a crítica futura teria que lidar. Foi o que fez Haroldo de Campos ao publicar, no final dos anos 1980, O Sequestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: O Caso Gregório de Matos.

"Nossa literatura, articulando-se com o barroco, não teve infância (in-fans, o que não fala). Não teve origem 'simples'. Nunca foi in-forme. Já 'nasceu' adulta, formada, no plano dos valores estéticos, falando o código mais elaborado da época", escreveu Campos.

Para Alves-Bezerra, embora não se inscrevesse diretamente na polêmica que Haroldo de Campos estabelecera com Antonio Candido, a obra de Hansen "fundava uma posição terceira naquele campo de discussão: uma das grandes contribuições do livro era combater as leituras românticas da literatura do século 17: seus alvos eram os estudiosos que compilaram os poemas de Gregório de Matos, espelhando sua obra satírica à vida do poeta, como também as leituras reducionistas que desconsideravam os códigos da retórica do período".

O próprio autor abordaria a questão em entrevista ao Estadão concedida em 2014. "No século 20, Gregório vira anarcotropicalista, crítico da sociedade colonial, assim como no século 19 foi visto como doente, um tarado sexual", explicou, sugerindo que a leitura do escritor conhecido como Boca do Inferno seja feita como um autor do século 17, "uma era monárquica, absolutista, que não tem nada a ver com a sociedade burguesa do século 19".

Até a obscenidade pela qual Gregório é condenado, segundo ele, era uma convenção poética. Na poesia católica do Boca, "o obsceno é alegoria do pecado mortal", justificou, lembrando que a sua composição de tipos vulgares não é nem subversiva nem transgressora, como defendem outros estudiosos de sua obra. "Não podemos esquecer que estamos num mundo do Santo Ofício, de valores fidalgos, de escravidão", sugeriu Hansen. "As sátiras de Gregório não conhecem o psicologismo positivista do século 19, estando mais próximas do que os jesuítas chamavam no seu tempo de 'theatrum sacrum', que definia a representação em geral."

Anotou André Jobim Martins, também em texto ao Estadão: "Diferentemente do que podemos ter aprendido em lições colegiais de literatura, a sátira de Gregório de Matos não é a obra de um 'enfant terrible' inconformista e libertino. Somos tentados a ver na poesia de Gregório a imagem romântica do homem contra seu tempo, mas as noções de obra de arte como expressão livre e autêntica de uma subjetividade psicológica autodeterminada (em suma, a moderna noção de pessoa), e de 'tempo histórico' como horizonte de surgimento de novidade e de crítica da 'realidade' seriam inacessíveis ao poeta. A pena de Gregório (ou dos autores dos poemas a ele atribuídos) não se insurge indistintamente contra a ordem das coisas; antes, ela se inscreve nos gêneros autorizados nos quais a sátira e a maledicência são convenientes. Sua poesia é perfeitamente conforme a um ideal (piedoso) de prudência e cortesia, elemento constitutivo e legitimador de uma civilização na qual a ordem das palavras é tão importante quanto a das coisas".

Estadão
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