Dublador de 'O Morro dos Ventos Uivantes' lembra dobradinha com o avô aos 100 anos e revela segredo da profissão
Felipe Drummond herdou a profissão de Orlando Drummond, o Seu Peru, da Escolinha do Professor Raimundo
Quem vê um filme dublado no cinema, não imagina o trabalho minucioso e dedicado que existe por trás de cada personagem. Desde os 11 anos de idade, essa é a função do diretor de dublagem Felipe Drummond que, agora, dá a voz a Heathcliff, personagem de Jacob Elordi no filme O Morro dos Ventos Uivantes, que chegou ao streaming no dia 1º de maio.
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O artista é neto do icônico Orlando Drummond (1919 - 2021), dublador original do Scooby-Doo e que imortalizou o personagem Seu Peru, da Escolinha do Professor Raimundo. Ao Terra, ele contou que seu avô foi sua grande inspiração para seguir na carreira de dublador.
"O trabalho em O Morro dos Ventos Uivantes foi uma experiência muito bacana e ver o resultado final na telona foi maravilhoso. Meu avô começou esse legado e deixou pra gente. Minhas filhas de nove e quatro anos já dublam também, além da minha esposa", disse.
Aos 39 anos, Felipe é dono do MGE Studios junto os irmãos Alexandre e Eduardo. Sinal de que a família inteira realmente abraçou a carreira. O projeto nasceu com o intuito também de oferecer imersões e mentorias para quem deseja seguir na carreira e até para quem já está no mercado.
"Foi uma maneira que encontramos de ajudar quem quer entrar nesse meio tão fascinante. A dublagem faz parte da nossa vida e do nosso dia a dia. Tive a oportunidade de dirigir meu avô Orlando, aos 100 anos, por conta do estúdio", relembrou.
Entre os trabalhos de Felipe estão o filme Queima de Arquivo, o primeiro que ele dublou aos 11 anos, o personagem Profundo, da série The Boys, e Stiles, da série adolescente Teen Wolf.
Como é o dia a dia de um dublador?
Felipe reforça que a dublagem tem uma coisa mágica em relação às outras artes. Segundo ele, o profissional vive uma enxurrada de emoções em um só dia de trabalho e que isso é um dos motivos para ele amar tanto a profissão.
"Vamos supor que eu tenho cinco horários no estúdio. Eu vou chegar e dublar um padre, depois, vou fazer um bandido. No terceiro, vou dublar um desenho animado no qual eu sou um extraterrestre e, no quarto, um pai que perde o filho. No quinto, eu dublo O Morro dos Ventos Uivantes. É uma coisa muito intensa", descreve.
Para quem não gosta de rotina, a dublagem traz a oportunidade dos dias nunca serem os mesmos, já que há sempre papéis com histórias diferentes. De acordo com Felipe, entre os intervalos das gravações não existe muito mistério no preparo.
"Já chequei minhas cordas vocais com uma fono e está tudo bem. Mas uma coisa que é importante na dublagem é sempre ter uma garrafa de água para ficar se hidratando. A alimentação não tem tantas restrições, mas a hidratação é essencial e ajuda a gente a não ficar sem voz no dia seguinte", diz.
Ele explica que o processo da dublagem envolve, geralmente, prazos apertados, mesmo com todo cuidado e preparação que antecedem a gravação. Às vezes, é inevitável ficar doente, por isso, as gravações acabam sendo remarcadas e os cuidados com a saúde redobram.
"Aí vai gargarejo de tudo que você possa imaginar. Gengibre, limão, mel, e vamos embora! No fim das contas, a gente consegue fazer acontecer para o trabalho ficar bacana e fazer a dublagem dá certo", acrescenta.
Como se tornar um dublador?
Primeiramente, é preciso se formar como ator ou atriz. O curso técnico que garante o registro profissional é a base da dublagem que, na verdade, é uma especialização para o ator.
"A dublagem sempre esteve às margens das artes e ficou periférica durante anos. Hoje consigo ver que mutias pessoas entram no curso de ator para se tornarem dubladores. Na minha época, quando eu era adolescente e fazia teatro, ninguém nem falava em dublagem. Esse interesse das pessoas hoje em dia é fantástico, porque vai capacitando cada vez mais o mercado", afirma.
De acordo com Felipe, o mercado tem absorvido atores muito mais completos e, por mais que exista a tecnologia para facilitar a questão da sincronização das falas, é preciso ter a alma da dublagem, que é justamente a atuação e a qualidade da interpretação.
"É muito mais fácil a gente trabalhar essas pessoas que estão entrando no mercado, pra gente ter um trabalho com cada vez mais profundidade, e que agrade cada vez mais o público. Acho que a inteligência artificial vai mudar a rotina de trabalho nas mais diversas áreas e temque ser usada da forma como pode ser melhor aplicada", destaca.
O processo de dublagem passou por muitas alterações ao longo dos anos conforme o desenvolvimento da tecnologia e a inteligência artificial tem chegado para auxiliar nos programas de edição de áudio, por exemplo. "A qualidade e a interpretação humana são formas da gente se conectar com o outro. A inteligência artificial não é capaz de substituir isso", completa.
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