Mariana Salomão Carrara e Marcílio França Castro vencem o Prêmio São Paulo de Literatura 2025
Autores de 'A Árvore Mais Sozinha do Mundo' e 'O Último dos Copistas', respectivamente, eles receberão R$ 200 mil cada; conheça
Os escritores Mariana Salomão Carrara e Marcílio França Castro são os vencedores do Prêmio São Paulo de Literatura 2025. O anúncio foi feito em uma cerimônia de premiação realizada na noite desta segunda, 24, na Biblioteca Parque Villa-Lobos, no Alto de Pinheiros, São Paulo.
Mariana foi premiada pelo livro A Árvore Mais Sozinha Do Mundo (Todavia) na categoria Melhor Romance do Ano de 2024, enquanto Marcílio, conhecido por sua poesia, venceu como Melhor Romance de Estreia do Ano de 2024 por O Último dos Copistas (Companhia das Letras).
Os autores receberão R$ 200 mil cada. A premiação é concedida pela Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, e é a maior recompensa, em valor individual, entre os prêmios literários do País.
Mariana, que falou ao Estadão logo após a premiação, ainda estava com dificuldade de acreditar que venceu o prêmio pela segunda vez em apenas dois anos. "É um livro que lutei muito para fazer. Estou muito contente com esse reconhecimento e agradeço a todo mundo que está envolvido nessa história e na construção desse livro", celebrou. Ela também ressaltou a importância dos concursos literários e disse que eles sempre foram uma espécie de guia em sua carreira.
Marcílio também disse que não esperava receber a honraria: "O sentimento é sempre de surpresa porque sabemos que a premiação é uma contingência. Quando você tem dez livros de valor selecionados, temos que imaginar que qualquer um deles pode levar o prêmio."
"O fato de ser meu primeiro romance e já vir assim com um prêmio importante é, para mim, muito significativo e me dá um impulso para que eu termine logo o meu segundo romance, que já estou escrevendo", completou.
Além do prêmio em dinheiro, os vencedores serão convidados a participar da 40ª Feira Internacional do Livro de Guadalajara, no México, em 2026, além de integrarem eventos literários pelo País como parte da divulgação do Prêmio São Paulo de Literatura.
Segundo a organização, a edição de 2025 contou com 323 obras habilitadas, com 158 inscritas na categoria Melhor Romance do Ano de 2024 e 165, em Melhor Romance de Estreia do Ano de 2024.
A comissão avaliadora foi composta por Andressa Veronesi, Antonio Carlos Sartini, Chris Ritchie, Diana Navas, Elaine Cristina Prado dos Santos, Felipe Franco Munhoz, Guilherme Sobota, Marcelo Ariel, Roberta Ferraz e Rogério Pereira. Os finalistas passaram por uma etapa de avaliação que contou com os curadores Janaina Soggia, José Luiz Tahan, Jurandy Valença, Sandra Espilotro e Ubiratan Brasil.
Em 2024, as vencedoras da premiação foram Luciany Aparecida e a estreante Eliane Marques, autoras dos livros Mata Doce (Alfaguara) e Louças de Família (Autêntica Contemporânea), respectivamente.
Quem é Mariana Salomão Carrara
Paulista de 39 anos, Mariana Salomão Carrara vence o Prêmio São Paulo de Literatura pela segunda vez. Ela também foi premiada na categoria Melhor Romance, em 2023, pelo livro Não Fossem as Sílabas do Sábado (Todavia).
Ela estreou na literatura com Fadas e Copos no Canto da Casa (Quintal Edições) em 2017. Em 2019, foi finalista do Prêmio Jabuti por Se Deus Me Chamar, Eu Não Vou (Editora Nós). Também é autora de É Sempre a Hora da Nossa Morte Amém (Editora Nós, 2021) e do infantil Sabor Paciência (Baião, 2025).
Em A Árvore Mais Sozinha Do Mundo, a autora faz o retrato de uma família que vive da plantação de tabaco em uma pequena cidade do Rio Grande do Sul. Em nota à imprensa, a organização do Prêmio São Paulo de Literatura afirmou que "a opção por narradores inusitados — entre eles uma árvore — confere à obra uma perspectiva simbólica singular e amplia o alcance de sua reflexão sobre trabalho, memória e resistência no ambiente rural."
A ideia surgiu quando Mariana, pesquisando para seu romance anterior, Não Fossem as Sílabas do Sábado, se deparou com uma reportagem sobre a epidemia de suicídios no RS e como a contaminação por agrotóxicos poderia estar relacionada ao problema.
"Eu entendi também que eles têm uma depressão não só pelo agrotóxico, mas porque muitos [dos produtores] estão super endividados porque o sistema vai criando juros. A fumageira deixa os insumos e, depois, na hora de colher os frutos do fim do ano, a fumageira que diz se a folha ficou boa ou não, ela que dá o preço. Isso também vai gerando uma situação injusta ali pra eles", explicou ela.
O livro foi o mais desafiador da carreira da escritora, por envolver um grande trabalho de pesquisa com muitas pessoas que pouco queriam descrever a situação em que viviam. Ela precisou mergulhar naquela realidade, na linguagem da região e dos diferentes sotaques dos personagens que passam pelo livro, inclusive destes narradores incomuns, como a própria árvore e o espelho português.
"Foi muito experimental e, ao mesmo tempo, queria passar a mensagem sem ensinar nada, simplesmente mostrar essa realidade ao leitor e manter a minha literatura, que fala sobre que fala de laços familiares, da convivência entre as mulheres dessas gerações todas", disse.
Quem é Marcílio França Castro
Marcílio França Castro, de 58 anos, fez sua estreia no romance com O Último dos Copistas, mas é premiado contista. Natural de Belo Horizonte, ele é mestre em estudos literários pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Seu livro de estreia, A Casa dos Outros (7 Letras), foi premiado pela União Brasileira de Escritores (UBE) em 2009. Três anos depois, outra coletânea de contos, Breve Cartografia de Lugares sem Nenhum Interesse (7 Letras), recebeu o prêmio Clarice Lispector da Fundação Biblioteca Nacional. Ele também é autor de Histórias Naturais (Companhia das Letras, 2016).
O Último dos Copistas é descrito como um "romance híbrido, que mescla ensaio e literatura, fato e ficção". O livro acompanha a amizade entre um revisor e uma ilustradora que tem início a partir de um enigma sobre a vida de Ângelo Vergécio, um copista do século 16 cuja caligrafia deu origem à fonte Garamond.
Em nota, o Prêmio São Paulo de Literatura afirmou que "a obra se destaca pela originalidade do tema e pelo domínio formal do autor, articulando diferentes tempos e registros para refletir sobre a escrita, suas transformações e aqueles que a sustentam silenciosamente ao longo dos séculos (...) O resultado é um livro sofisticado e sensível, que combina rigor intelectual e delicadeza narrativa."
"Vergécio era copista, calígrafo, professor, editor, fazia de tudo um pouco para sobreviver, nada muito diferente dos profissionais do texto de hoje em dia. Vergécio apareceu para mim como o representante de duas eras simultâneas, como uma figura de transição entre elas, alguém que nos dá uma pista no passado sobre algo que vivemos hoje", explicou Marcílio ao Estadão.
Para ele, o livro acaba sendo também uma espécie de homenagem aos profissionais do livro, já que o narrador é um revisor, "sempre envolvido com questões sobre a língua, a escrita, os livros". Foram cerca de sete anos entre a ideia inicial para o romance até o envio para a editora. A pesquisa foi extensa, em bibliotecas, na internet e em viagens. "Coleciono pilhas de pastas com anotações e material de consulta, cada uma destinada a um tópico específico da narrativa", explicou ele.
O autor explicou que seu processo de escrita é "lento e rigoroso". "Faço quantas versões forem necessárias para chegar ao ponto certo. No caso de O último dos Copistas, como há vários gêneros textuais articulados, trabalhei cada um deles em separado: o ensaio inicial, a narrativa, os postais, a carta que encerra o romance, além das imagens. Achar o tom para cara uma dessas partes não é fácil. Vou experimentando sintaxes, pontuação, vocabulário, até criar uma voz e um ritmo adequado", disse.
Quem eram os finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura 2025
Melhor Romance do Ano de 2024
- Os grandes carnívoros (Alfaguara), de Adriana Lisboa
- No muro da nossa casa (Bazar do Tempo), de Ana Kiffer
- Guerra I - Ofensiva paraguaia e reação aliada novembro de 1864 a março de 1866 (Editora 34), de Beatriz Bracher
- Vento vazio (Companhia das Letras), de Marcela Dantés
- Escalavra (Record), de Marcelino Freire
- A árvore mais sozinha do mundo (Todavia), de Mariana Salomão Carrara;
- Casa de família (Companhia das Letras), de Paula Fábrio
- Rio sangue (Alfaguara), de Ronaldo Correia de Brito
- Ressuscitar mamutes (Autêntica Contemporânea), de Silvana Tavano
- Krakatoa (Todavia), de Veronica Stigger
Melhor Romance de Estreia do Ano de 2024
- Neca (Companhia das Letras), de Amara Moira
- Lia (Companhia das Letras), de Caetano W. Galindo
- Avenida Beberibe (Fósforo), de Claudia Cavalcanti
- O embranquecimento (Patuá), de Evandro Cruz Silva
- Fora da rota (Todavia), de Evelyn Blaut
- O que resta a partir daqui (Aboio), de Flávia Braz
- A união das Coreias (Reformatório), de Luiz Gustavo Medeiros
- O último dos copistas (Companhia das Letras), de Marcílio França Castro
- A infância de Joana (Maralto), de Mariana Ianelli
- As fronteiras de Oline (Patuá), de Rafael Zoehler