Script = https://s1.trrsf.com/update-1790713512/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Oferecimento Logo do patrocinador
Publicidade

Livro descobre inspiração para capas da editora José Olympio, marco da literatura brasileira

'Padrões e Variações', resultado da tese de doutorado de Carla Fontana, imprimiu trajetória capista de uma das editoras mais importantes da história nacional

30 jul 2026 - 18h12
(atualizado às 21h46)
Compartilhar
Exibir comentários

"A capa em um País em que não há crítica, e em que gosto coletivo é uma hipótese, constitui, infelizmente, o melhor título de recomendação de uma obra. Livro de bonita capa terá uma boa colocação no mostruário". Foi assim que Humberto de Campos, em 1934, resumiu a importância de uma boa capa a José Olympio, fundador da Livraria José Olympio Editora, que se tornaria uma das editoras mais importantes da história nacional.

A trajetória da José Olympio prova que, sim, julgamos um livro pela capa. É impossível não associar literatura brasileira às capas de obras de Jorge Amado e Graciliano Ramos. Agora, o livro Padrões e Variações - Artes Gráficas na Livraria José Olympio Editora, 1932-1962 (Edusp), resultado da pesquisa de doutorado de Carla Fontana, revelou que a maioria, na verdade, se apropriou ou copiou capas estrangeiras. Carla é formada em Editoração pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP) e doutora em Design pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU), também da USP.

'Padrões e Variações – Artes Gráficas na Livraria José Olympio Editora, 1932-1962', de Carla Fontana, compara capas da livraria brasileira com projetos gráficos franceses.
'Padrões e Variações – Artes Gráficas na Livraria José Olympio Editora, 1932-1962', de Carla Fontana, compara capas da livraria brasileira com projetos gráficos franceses.
Foto: Edusp/Reprodução / Estadão

"Essas capas eram adaptadas, copiadas ou passavam por todo tipo de transformação. Algumas capas eram literalmente copiadas; em outras, você vê claramente que o artista usou a capa original como referência", comenta ela em entrevista ao Estadão. "Sabendo que isso acontecia, acabei descobrindo que essa prática também foi usada em livros que não eram traduções. O próprio padrão de capa da literatura brasileira foi claramente inspirado em uma coleção de uma editora francesa."

A editora, segundo a pesquisadora, tinha o costume de copiar layouts estrangeiros em traduções entre os anos 1930, 1940 e 1950. As capas de autores brasileiros, tidas como "a cara da literatura brasileira da época" ou "matriz multiplicadora de mensagens de brasilidade", foram recriadas pelo ilustrador Santa Rosa com bases nos livros da Librairie Stock, de Paris.

Apesar de ser uma cópia, Carla diz que a prática não era mal vista e se associava ao contexto da época. Em um artigo de 1947, Santa Rosa chegou a elogiar as capas da Librairie Stock, chamando-as de "autênticas lições da arte de fazer livros".

Desafios de pesquisa

Antes da pesquisa de Carla, apenas Tomás de Santa Rosa, Poty e Luis Jardim eram destacados como ilustradores da editora. Em Padrões e Variações, Carla também descobre outros três artistas de igual importância na história das capas da José Olympio: Raul Brito e G. Bloow.

Mas um dos grandes desafios da pesquisa foi encontrar informações sobre esses profissionais - a maioria nem assinava os trabalhos. Carla teve de recorrer a arquivos e periódicos da época para traçar informações.

"Eram profissionais 'gráficos' e não existiam informações sobre eles, diferentemente do Poty, que é renomado e estudou na Escola Nacional de Belas Artes. O que fiz foi quase um trabalho de detetive para descobrir quem foram essas pessoas, sua formação e o que fizeram antes de trabalhar para a José Olympio", conta ela.

Em todo o estudo, inclusive, a pesquisadora teve de lidar com um arquivo "muito grande", em que nem tudo foi completamente preservado. Inicialmente, Carla planejava realizar uma pesquisa sobre os originais das ilustrações da José Olympio. Porém, depois que o acervo da editora foi doado para a Biblioteca Nacional, é que ela se deparou com os originais das capas.

'Padrões e Variações – Artes Gráficas na Livraria José Olympio Editora, 1932-1962' é fruto de tese de douturado de Carla Fontana.
'Padrões e Variações – Artes Gráficas na Livraria José Olympio Editora, 1932-1962' é fruto de tese de douturado de Carla Fontana.
Foto: Edusp/Reprodução / Estadão

Carla também descobriu influências de autores nas capas dos livros. Um dos casos mais emblemáticos foi o de Humberto de Campos, citado no início da matéria, que trocava suas cartas com José Olympio para opinar sobre as capas.

"Ele queria capas ilustradas, mas o José Olympio queria capas mais discretas", diz a pesquisadora. "Há também o caso de Guimarães Rosa, que acompanhava a produção das capas e chegava a fazer esboços de como as queria."

Exemplos para o futuro

Práticas adotadas pela José Olympio e destacadas pelo livro também ajudam a entender pilares e caminhos futuros para a editoração. Um exemplo é o fato de as coleções terem sido um fator importante para a identidade visual da José Olympio.

"Quando a editora entende que precisa de uma linha de livros para o público jovem feminino, por exemplo, ela cria uma coleção para esse segmento. O mesmo acontece ao investir em literatura estrangeira traduzida. Isso gera direcionamentos para o catálogo e se reflete na parte gráfica, pois as coleções permitem que os livros sejam reconhecidos pelos leitores", conta a pesquisadora.

Ela também compara o trabalho como artista gráfico da época com o de hoje. O controle da técnica, por exemplo, era bem menor nas origens da José Olympio. "Eles tinham que ser mais desprendidos. Mostro casos em que o artista fazia a capa com uma cor e essa cor mudava no processo", diz.

Além disso, atualmente, existem editoras que têm "um cuidado muito grande que outras não têm", segundo Carla. "O que muda é que antigamente as capas eram feitas exclusivamente para serem vistas na livraria como um objeto físico. Hoje, as capas têm que ser pensadas tanto para a prateleira física quanto para o mostruário virtual que é a internet."

'Padrões e Variações - Artes Gráficas na Livraria José Olympio Editora, 1932-1962'

  • Edusp (440 págs.; R$ 144)
Estadão
Compartilhar
TAGS

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra