Leitura digital chega a 49% dos brasileiros, mas maioria não sabe reconhecer pirataria, diz pesquisa
Estudo inédito realizado pela NIQ BookData e viabilizado pelo Skeelo mapeou comportamento de leitores no ecossistema digital; veja principais dados
Pesquisa inédita da NIQ BookData e Skeelo revela que a leitura digital alcança 49% dos brasileiros, impulsionada pelo uso de smartphones e com maior presença na classe C (46%) e entre mulheres (56%). O formato não canibaliza o livro físico e serve como porta de entrada à leitura. Contudo, o estudo alerta para a falta de conscientização sobre a pirataria: a maioria dos leitores admite dificuldade para identificar conteúdos ilegais, consumidos muitas vezes pela facilidade de acesso.
BRASÍLIA - A leitura digital já alcança quase metade da população brasileira, revela a pesquisa inédita Perfil e Hábito do Leitor Digital Brasileiro, realizada pela NIQ BookData e viabilizada pelo Skeelo. O resultado foi apresentado na manhã desta quarta, 2, em um evento na Biblioteca Nacional de Brasília, com membros da imprensa, do mercado editorial e de órgãos públicos.
O objetivo da pesquisa era mapear o perfil dos leitores (e não leitores) no ecossistema digital com a finalidade de auxiliar a tomada de decisão de agentes públicos, da cadeia do livro e a implementação de políticas públicas de fomento à leitura. Foram entrevistadas cerca de 3 mil pessoas com idade igual ou superior a 10 anos de idade, de todas as regiões e níveis socioeconômicos. A margem de erro é de 3,5% e o nível de confiança é de 95%.
Para os executivos que apresentaram a pesquisa, o resultado indica que o mercado de livros digitais no Brasil é maior que se pensava. Além disso, ela reforça e consolida a noção de que o formato não canibaliza o consumo e venda de livro físico; pelo contrário, o livro digital é muitas vezes a porta de entrada de um novo leitor.
Por outro lado, os dados também revelam que a maioria dos leitores não sabe reconhecer quando um livro digital é fruto de pirataria. A pesquisa indica que há um longo caminho de conscientização e disseminação de informação sobre formatos ilegais, mas que a população é adepta ou de modo geral aberta à leitura digital.
O estudo indica que 49% dos brasileiros tiveram contato com a leitura digital no último ano. A pesquisa considerou como leitor digital o indivíduo que leu/acessou, nos últimos 12 meses, textos de leitura/informação (como notícias, blogs, fóruns, newsletters, etc), livros digitais (e-book ou audiolivro) e/ou histórias seriadas, fanfics, quadrinhos e/ou mangás em formato digital.
O vídeo é o principal conteúdo digital acessado pela população (57,2%), seguido por mensagens curtas ou bate papo nas redes sociais (45,8%) e textos em redes sociais e apps de mensagens (32,2%). Os textos de leitura aparecem em seguida, com 30,8%, e o livro digital foi acessado por 25,3% da população. As histórias seriadas, fanfics, quadrinhos e mangás ficam logo abaixo de jogos e podcasts, acessados por 18% dos indivíduos.
O perfil do leitor digital
O smartphone é a forma de acesso predominante em todos os formatos. As classes A e B concentram 55,5% dos usuários de e-reader, mas o estudo mostra que a classe C representa a maior parcela de leitores digitais, com 46%. As classes A, B e DE formam 7%, 29% e 18% dos leitores digitais, respectivamente.
As mulheres são 56% deste público. E 50% dos leitores digitais são brancos, 37% pardos, 11% pretos, 2% amarelos e 0,2% indígenas. Entre as regiões brasileiras, os dados acompanham a distribuição populacional, com predominância do Sudeste, seguido por Nordeste, Sul, Centro-Oeste e Norte. O mesmo acontece com o perfil do leitor digital por idade, com leve vantagem para a população de 25-34 (20%) e 35-44 (22%).
A pesquisa também mostrou que, dentre os leitores digitais, a leitura é o 8º hábito de lazer preferido, atrás de televisão, descanso, esportes, vídeos, música, streaming e redes sociais, por exemplo. A leitura é acessada principalmente por portais de notícia e veículos de mídia e por e-books.
Um ponto positivo é que a grande maioria dos leitores digitais mantém frequência constante de leitura, acessando esses conteúdos de uma vez por semana a diariamente.
Os leitores de e-book e audiolivro
Segundo Luiz Gaspar, diretor regional da Nielsen BookData, o critério utilizado para considerar o leitor digital foi o acesso a um conteúdo estruturado, que requer concentração e tempo mínimo de leitura. Ele chama a atenção, porém, para a parcela de leitores de livros digitais, ou seja, e-books e audiolivros, que representa cerca de 1/4 da população e fica à frente de atividades como jogos e podcasts.
Quando olhamos somente para esses leitores, a disparidade de gênero cresce: 58% dos leitores são mulheres. Além disso, 47% deles têm entre 25 e 44 anos. A classe C segue predominante, com 40%, mas a classe B aparece com 36% dos leitores. Só 9% desses leitores integram a classe A, e 15%, a classe D/E. A população branca representa mais da metade dos leitores de e-books e audiolivros (52%), seguida por pardos (35%) e pretos (10%).
Tanto nos e-books quanto audiolivros, a ficção para adultos foi o gênero mais consumido. Livros CTP (científicos, técnicos e profissionais) e não ficção adulta também representam parcelas importantes, além da Bíblia digital.
Esses dados conversam com as edições deste ano das pesquisas Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro e Panorama do Consumo de Livros no Brasil, que mostraram o crescimento da ficção no mercado editorial e apontaram as jovens mulheres pretas e pardas como as maiores compradoras de livros no País.
Maioria dos leitores não sabe identificar a pirataria
Os maiores pontos de alerta da pesquisa foram os indicadores sobre o consumo de pirataria. Quase 49% dos leitores de e-book/audiolivros fizeram download ou acesso gratuito em sites, aplicativos ou links que não são lojas ou bibliotecas oficiais e 41,5% dizem que receberam arquivos digitais compartilhados por amigos ou familiares (PDF, imagem ou link).
Não é possível ter certeza da proporção desse acesso ao conteúdo ilegal, mas o estudo questionou os entrevistados sobre o tema: 67% dos entrevistados concordaram totalmente ou apenas concordaram com a frase "Nem sempre sei se um livro digital é legal ou autorizado". Já 68% dizem presumir, ao receber um livro por WhatsApp ou link, que isso seja permitido.
Mais de 60% também afirmam ser difícil identificar se um PDF de livro respeita direitos autorais e dizem nunca ter recebido orientações claras sobre a legalidade de um livro digital. A maioria também diz que se um livro está facilmente disponível na internet, imagina que alguém autorizou.
"O que temos aqui é um indicativo muito forte de que muita gente acessa conteúdo ilegal. Chama a atenção que, proporcionalmente, quem mais acessa o conteúdo ilegal é a classe A", destaca Mariana Bueno, coordenadora de pesquisas da Nielsen BookData. Segundo ela, esse é um comportamento que se repete no México, por exemplo.
Ela também diz que fatores relacionados a facilidade e à falta de conhecimento são os principais motivos que levam o indivíduo a acessar livros digitais via imagem, pdf ou link compartilhado.
Principal barreira ao livro digital é comportamental
A pesquisa mostra que a principal barreira para a leitura digital é comportamental, não tecnológica. A maioria dos não leitores diz preferir assistir vídeos em canais da internet (26,8%) ou usar redes sociais para conversas curtas (23,2%). Por outro lado, 17,8% afirmam ter preferência pelo livro impresso. O estudo também mostra que há um potencial de conversão: 50% diz que teria interesse em experimentar e-books se tivesse a possibilidade de ter acesso gratuito. O número cresce para 56% quando falamos em audiolivro.
*A jornalista viajou a convite do Skeelo
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