John Malkovich fala sobre 'custo humano da ideologia', política e fama: 'Tirar selfies é estúpido'
Ator americano celebrado por filmes como 'A Sombra do Vampiro' e 'Quero Ser John Malkovich' traz à Sala São Paulo o espetáculo 'The Infamous Ramírez Hoffman', baseado em obra de Roberto Bolaño, e fala ao 'Estadão' sobre seu ofício, música e 'O Agente Secreto'; veja vídeo
"Quem diabos é John Malkovich?", pergunta Catherine Keener, no clássico cult Quero Ser John Malkovich, logo após ouvir o personagem de John Cusack lhe contar que descobriu um portal em seu escritório que permite às pessoas habitarem a mente do ator americano, indicado duas vezes ao Oscar e celebrado por papéis em filmes como Na Linha de Fogo e A Sombra do Vampiro.
Passadas quase três décadas desde o lançamento do filme escrito por Charlie Kaufman e dirigido por Spike Jonze, essa pergunta finalmente pode ter uma resposta mais sólida. Malkovich se aproxima do conceito de 'homem da Renascença' - aquele indivíduo que busca excelência e conhecimento profundo em diversas áreas.
Aos 72 anos, ele construiu uma trajetória marcada pela versatilidade, trabalhando em diferentes tipos de projetos como ator, diretor, produtor, roteirista, modelo fotográfico, designer de moda e até autor de um disco de música experimental (Illuminated, de 2016).
Essa multiplicidade parece refletir também na sua forma de se expressar. Malkovich tem um jeito distinto e ligeiramente desconcertante de falar: escolhe cada palavra com cuidado, como se um turbilhão de pensamentos o forçasse a pensar um segundo a mais do que o habitual antes de concluir o raciocínio.
Tais aspectos ficam ainda mais evidentes quando é possível conversar com o artista de forma mais intimista, como ocorreu nesta entrevista ao Estadão realizada por videoconferência poucas semanas antes de ele trazer sua peça musical The Infamous Ramírez Hoffman ao Rio, a Porto Alegre, e a São Paulo, com duas datas na Sala São Paulo, numa turnê que inclui ainda Chile e Argentina. As apresentações na capital paulista integram a Temporada 2026 da série Música pela Cura, da Tucca (Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer).
Malkovich comanda uma montagem na qual ele serve como narrador de um segmento do livro A Literatura Nazista da América, de 1996, do escritor chileno Roberto Bolaño (1953-2003). Trata-se de um romance satírico estruturado como uma coleção de textos sobre escritores fictícios extremistas. Um dos personagens mais marcantes, que aparece no último capítulo, é Carlos Ramírez Hoffman, um piloto e poeta chileno que depois do Golpe de Estado no Chile de 1973 passa a escrever poemas no céu com fumaça, como se fossem versos gigantes, transmitindo mensagens autoritárias associadas ao regime de Pinochet.
No palco, o astro das telas é acompanhado da pianista Anastasya Terenkova, do violinista Andrej Bielow e do bandoneonista Fabrizio Colombo, que executam músicas de nomes como Astor Piazzolla, The Doors, Alfred Schnittke e Antonio Vivaldi.
Leia abaixo a entrevista completa.
Esta adaptação tem uma abordagem mais psicológica ou política deste personagem, Ramírez Hoffman?
Descrevo a peça como um belo pesadelo. Ramírez Hoffman era sobre um personagem falho e Bolaño se refere a ele como 'elegante como um dragão', o que eu acho ser uma frase espetacular. Se tivesse que escolher entre as duas opções, eu diria que é mais psicológica.
Como a música o ajuda a contar essa história?
Música é verdade. É meio que inviolável. Não há nada que você possa fazer a respeito. A música é supercrítica para a peça. Ela é escolhida cuidadosamente para refletir a peça, para contradizê-la, para dominá-la. Para, até de certa forma, explicá-la, ao menos emocionalmente. Há uma maravilhosa música do Max Richter [compositor britânico] que os músicos tocam enquanto a prosa descreve a exposição fotográfica de Ramírez Hoffman, que seguiu sua exibição de poesia aérea. E os dois eventos combinados foram uma espécie de gala para mostrar que o regime de Pinochet estava 'interessado em arte de vanguarda', o que é bastante hilário. Mas o que acontece não é hilário. A canção chama-se Mercy [Misericórdia, na tradução], mas não há misericórdia.
Brasil, Chile e Argentina foram alguns dos países mais afetados pelas ditaduras militares na América Latina. Por que acha importante trazer uma peça como esta para o Brasil agora?
Todas essas sociedades e muitas ao redor do mundo, não apenas na América Latina, ainda estão lidando com as consequências. Qual é o nome do novo filme com Wagner Moura?
'O Agente Secreto'. O senhor assistiu?
Sim, eu amei. É incrível e muito interessante. Há algo bastante universal, triste e fútil sobre esse filme. Existem muitas pessoas vivas que viveram aquelas épocas. Acho que vamos aprender muito sobre esta peça apresentando-a para pessoas que têm isso em sua memória coletiva. Obviamente, os três países tiveram ditaduras diferentes e diferente envolvimento estrangeiro, mas todos eles têm uma espécie de história compartilhada que se seguiu após a 2ª Guerra Mundial. Então, o que a plateia vai achar disso? Vai causar contemplação, reflexão, consternação? Para mim, é uma espécie de experiência de aprendizado.
Inclusive, eu queria fazer um pequeno paralelo com 'O Agente Secreto' porque no texto de Bolaño há uma passagem na qual ele escreve que o Chile esquece a existência de Ramírez Hoffman. Ele questiona: 'por que lembrar de um assassino desaparecido quando o país enfrenta tantos problemas?'. E 'O Agente Secreto' meio que toca nesse ponto ao enfatizar como a memória é crucial para um país evitar repetir atrocidades. Na sua opinião, como podemos lembrar do passado sem sermos aprisionados por ele?
Acho que só podemos usar a nossa boa fé para lembrar que estamos lidando com humanos e refletir sobre o custo humano das coisas. As atrocidades vêm a um grande custo que é geracional, continua para sempre. E as ações que você pode tomar são mais ou menos irreparáveis. Isso, para mim, é um preço sobre o custo humano da ideologia.
Friedrich W. Murnau, quem o senhor famosamente interpretou em 'A Sombra do Vampiro', dizia que o cinema era 'a criação da memória', como 'pinturas nas paredes de cavernas'. Nesse sentido, o teatro possui uma desvantagem por ser algo que vive apenas naquela noite específica?
Eu não me lembro de vários diálogos de A Sombra do Vampiro, mas eu acho que escrevi esse trecho [do roteiro]. No teatro, você tem que estar lá. Com os filmes, você pode pegá-los a qualquer momento. É uma arte plástica. Ela não vai mudar e as nossas respostas a ela que vão mudar. Teatro não é uma arte plástica. É uma arte viva, efêmera, orgânica, quimérica. Eu não acho que é uma desvantagem. Isso apenas significa que você tem que estar lá. A vida é temporal. Não é permanente. Vivemos e morremos. E o teatro só vive na memória das pessoas.
Muita gente criticou o Wim Wenders quando ele disse recentemente que os artistas precisavam se manter afastados da política. O senhor acha que ele estava certo no sentido de que a arte pode ser muito mais do que apenas uma ferramenta ideológica?
Sim. A política é com muita frequência uma ferramenta de divisão. Conheço o Wim e gosto muito dele, mas eu não ouvi seus comentários. Tento me manter afastado da política. As pessoas podem entender o que quiserem da política, eu não me importo. Ainda assim vou trabalhar com elas. Não tenho que concordar com o que elas dizem. Eu realmente não concordo com o que ninguém diz, incluindo eu mesmo. Para mim, arte é arte. O maior pagamento que já recebi foi do Rijksmuseum, em Amsterdã. Eu fiz um programa para eles e me disseram: 'Não podemos te pagar nada. Mas sabemos que você ama A Ronda Noturna, então na próxima vez que estiver em Amsterdã, venha quando o museu estiver fechado, e você poderá sentar a 10 polegadas de distância da obra e olhá-la a noite toda se quiser'. Nenhum dinheiro poderia se comparar a isso. Eu não sei quais eram as preferências políticas de Rembrandt. Eu não sei se ele acreditava que os holandeses deveriam ter uma grande marinha, ou se deveriam estar lutando contra os ingleses ou os espanhóis. Muitos artistas não são pessoas ótimas. Eu tive conversas e recebi e-mails de pessoas dizendo que eu deveria ser uma pessoa política e sentir o que elas sentem. Eu não me sinto confortável em dizer às pessoas o que sentir. Eu não me sinto confortável dizendo: 'faça isso, acredite naquilo, vote nisso'.
Por fim, como a fama impactou sua vida pessoal e sua saúde emocional, considerando que é famoso há décadas? Quero dizer, houve momentos em que o reconhecimento público se tornou um fardo para o senhor?
Não. Eu já era adulto quando me tornei conhecido. Fiz meu primeiro filme aos 29 anos. Não havia nada misterioso sobre mim. Não posso dizer que [a fama] teve algum tipo de efeito deletério ou traumático sobre mim. É irrelevante. Não gosto de tirar selfies porque é chato e estúpido. Acabei de alugar um carro em Nova Orleans e as pessoas dizem: 'podemos tirar uma foto?'. Eu digo: 'não, eu tiro uma foto de você!'. Eles dizem: 'mas minha esposa não vai acreditar em mim!'. Eu digo: 'então você deveria se divorciar!'. Eu simplesmente não faço. Sou apenas uma pessoa. Estou interessado no meu trabalho. E, na maioria das vezes, de forma egoísta, estou interessado no que posso aprender. Sou muito velho, mas aprendo todos os dias. E pretendo continuar fazendo isso até estar morto. E então direi: 'ok, já posso dizer que tive uma vida espetacular'. Tenho muitos remorsos, mas não há nada que eu possa fazer a respeito. Você não pode voltar no tempo e retirar coisas que disse ou fez na sua vida. Você tem que apenas contemplá-las e seguir em frente.
The Infamous Ramírez Hoffman
- Quando: 31 de março e 1º de abril, às 20h30
- Onde: Sala São Paulo (Praça Júlio Prestes, 16 - Campos Elíseos)
- Ingressos: tucca.byinti.com (poucas unidades restantes, uma vez que parte dos bilhetes já foi reservada através de assinatura da Temporada 2026 da Tucca)
- Preços: R$ 350 a R$ 550