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'Inventor no exílio', Hercule Florence tem fotografias entre as mais antigas ainda visíveis hoje

Aventureiro francês radicado no Brasil inventou método inovador de registrar imagens e é considerado um dos pioneiros da fotografia; sua técnica foi estudada nos últimos anos e é apresentada em congresso nesta quinta

17 set 2026 - 17h47
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Resumo
Novas análises científicas internacionais confirmaram o pioneirismo do franco-brasileiro Hercule Florence na invenção da fotografia. Radicado no interior de São Paulo, ele desenvolveu técnicas inovadoras e isoladas dos centros europeus em 1833, usando prata e, de forma inédita, cloreto de ouro para fixar imagens. Três de seus registros estão entre os mais antigos do mundo ainda visíveis, reforçando a importância histórica do inventor, que também foi um dos primeiros a cunhar o termo fotografia.

Consciente de sua localização periférica em relação aos grandes centros de pesquisas europeus da época, o aventureiro, desenhista e inventor Hercule Florence (1804-1879) certa vez escreveu em seu diário que ele se via como "o inventor no exílio". Francês radicado no Brasil, estabelecido na Vila de São Carlos, então parte de Campinas, no interior de São Paulo, ele desenvolveu um método inovador de registro de imagens com ação da luz e cunhou o termo fotografia — feitos que conferem ao franco-brasileiro papel fundamental entre os pioneiros da técnica.

Nesta quinta, 17, seus experimentos serão apresentados a partir de novas análises científicas que esmiúçam como Florence desenvolveu seu processo. O assunto estará na mesa da 21ª Conferência Trienal do International Council of Museums - Committee for Conservation, um dos mais importantes encontros internacionais dedicados à debates acerca da conservação do patrimônio cultural, em Oslo, na Noruega.

Diploma maçônico fotografado por Hercule Florence, pioneiro da fotografia; registro tem quase 200 anos
Diploma maçônico fotografado por Hercule Florence, pioneiro da fotografia; registro tem quase 200 anos
Foto: Jorge Simão/IHF/Divulgação / Estadão

O estudo sobre o franco-brasileiro foi desenvolvido a partir de colaboração entre a organização Getty Conservation Institute, laboratório da Universidade de Évora, além dos brasileiros Instituto Hercule Florence (IHF) e Instituto Moreira Salles (IMS). Os pesquisadores analisaram três documentos fotográficos produzidos por Florence em 1833, imagens que podem ser consideradas dos mais antigos registros do tipo que sobreviveram ao tempo: dois rótulos de produto farmacêutico e um diploma da maçonaria.

Pela análise, capitaneada pelo cientista Art Kaplan, do instituto Getty, pode-se compreender melhor como funcionava as técnicas inventadas por Florence, com as quais ele experimentou imprimir imagens, sempre com a ação da luz, utilizando elementos como prata, ouro, água e até mesmo urina. Kaplan ressalta que estava diante de "alguns dos objetos fotográficos mais antigos não apenas das Américas, mas de todo o mundo".

Este trabalho de pesquisa foi apresentado pela primeira vez há três anos, em seminário ocorrido em São Paulo. De lá para cá, os estudos foram aprofundados para uma melhor compreensão de como Florence fazia a fixação e a estabilização das imagens.

Rótulos farmacêuticos registrados por Hercule Florence, francês radicado no Brasil
Rótulos farmacêuticos registrados por Hercule Florence, francês radicado no Brasil
Foto: IHF/Divulgação / Estadão

Se o uso da prata aparece entre outros pioneiros da fotografia, a ideia de Florence de empregar o cloreto de ouro é única, considerando o que se sabe sobre os precursores. Sais do metal foram identificados nas análises dos rótulos de farmácia. No caso do diploma, confirmou-se o emprego de prata — o que posiciona Florence como o primeiro a lançar-mão desse material na história da fotografia.

O pesquisador Kaplan lembra que a análise dos documentos "permitiu ir além dos diários escritos de Florence" nos quais ele descrevia suas técnicas, permitindo "examinar efetivamente as evidências físicas de seus experimentos".

"Nossas análises forneceram evidências químicas e estruturais compatíveis com as descrições [de Florence]. Em particular, descobrimos que as impressões de rótulos de farmácia contêm ouro como material formador da imagem, enquanto o diploma maçônico contêm prata", resume Kaplan, destacando ainda a importância de Florence ter conseguido "produzir imagens fotográficas que sobreviveram por quase dois séculos".

Os pesquisadores devem continuar estudos dos processos fotográficos desenvolvidos por Florence.

Os pesquisadores Millard Schisler e Antonio Candeias analisando registros de Hercule Florence que se tornaram objeto de estudo
Os pesquisadores Millard Schisler e Antonio Candeias analisando registros de Hercule Florence que se tornaram objeto de estudo
Foto: Jorge Simão/IHF/Divulgação / Estadão

Tetraneto do inventor e fundador do IHF, Antonio Florence enfatiza a importância do feito de seu antepassado "longe dos centros europeus" onde outros pioneiros da fotografia, como Nicéphore Niépce (1765-1833), Louis Daguerre (1787-1851) e William Talbot (1800-1877), empreendiam suas técnicas.

"Devemos ter cautela ao descrever Florence como o único 'inventor' da fotografia", comenta Kaplan. "Nosso estudo reforça sua posição como um importante pioneiros independente, cujos experimentos se desenvolveram paralelamente aos de outros."

"Acho mais preciso compreender a invenção da fotografia como resultado dos esforços combinados de várias pessoas, em vez de atribuí-la a um único inventor", salienta Kaplan. "Florence é particularmente interessante porque realizava seus experimentos de forma independente no Brasil, ao mesmo tempo em que buscava métodos práticos e econômicos de reprodução de imagens."

O tetraneto ressalta que o maior desafio contemporâneo a respeito desse material é a conservação, já que são documentos extremamente sensíveis. "O estado de conservação das imagens varia", acrescenta Kaplan. "As impressões dos rótulos sobreviveram de maneira razoavelmente boa e ainda apresentam imagens nítidas e claramente definidas. O diploma sofreu um desbotamento significativo." O pesquisador comenta ainda que há materiais residuais indicando que nem toda a imagem foi estabilizada no processo fotográfico, ou seja, o documento ainda pode ter partes sensíveis à luz.

"É extraordinário que essas imagens tenham sobrevivido por quase dois séculos, mas elas ainda devem ser consideradas altamente fotossensíveis e vulneráveis a uma deterioração adicional", alerta Kaplan. "Condições adequadas de armazenamento e uma exposição muito limitada à luz são essenciais para sua preservação contínua."

A importância fundamental de Florence para o desenvolvimento da fotografia foi resgatada há 50 anos pelo historiador, fotógrafo e arquiteto Boris Kossoy, professor na Universidade de São Paulo (USP). Foi quando ele publicou o livro Hercule Florence, a descoberta isolada da fotografia no Brasil, resultado de seus estudos a respeito do trabalho do franco-brasileiro. Naqueles anos, ele empreendeu a análise dos remanescentes da produção de Florence e também dos seus manuscritos, com apoio técnico do Rochester Institute of Technology. No mesmo ano, ele apresentou sua descoberta em um simpósio da área ocorrido nos Estados Unidos.

"A fotografia não teve um único inventor", ressalta Kossoy. O pesquisador lembra que as "técnicas e métodos" dos pioneiros diferiam entre si e Florence tem a peculiaridade de ter realizado seus experimentos de forma isolada. Ele ressalta, contudo, que é de Florence "o emprego pioneiro do termo 'photographie'".

Nascido em Nice, Florence desenhava habilmente desde a infância e, aos 16 anos, tornou-se grumete. Foi como marinheiro que acabaria chegando ao Brasil, quatro anos depois — para nunca mais retornar à terra natal. Trabalhou como caixeiro, livreiro e tipógrafo até se candidatar para ser desenhista de uma expediência científica empreendida por um naturalista alemão, Georg von Langsdorff (1774-1852) aos confins brasileiros. Foram 13 mil quilômetros percorridos em quatro anos.

No retorno, casou-se com a filha de um político paulista e passou a viver na Vila de São Carlos, no interior da então província. Ali viveria o resto de sua vida, entre pesquisas, estudos e empreendimentos envolvendo câmera escura e materiais com os quais buscava revelar e fixar imagens — em outras palavras, desenvolvendo a fotografia.

Estadão
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